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O veneno da madrugada
Lama como metáfora
Nelson Gobbi
O retorno do diretor Ruy Guerra ao universo de Gabriel García Marquez - de quem já havia adaptado Erêndira (1983) e A fábula da bela Palomera (1987) - é na verdade uma nova incursão do cineasta a um de seus mais caros temas: o tempo. Este elemento é a chave da abordagem não-linear do diretor, eficiente na totalidade do longa, embora por vezes se mostre diluída nas muitas sub-tramas do roteiro. Impressionam as sugestões sensoriais do filme, capazes de fazer o espectador sentir a lancinante dor de dente do protagonista, a umidade do ambiente castigado por chuvas ininterruptas ou o fedor de uma vaca morta apodrecendo no rio. Méritos da fotografia de Walter Carvalho e a direção de arte de Marcos Flaksman, premiados no último Festival de Brasília. O mergulho do público neste universo inóspito esbarra na opção pela interpretação rígida do texto por parte dos atores (dentre os quais se destacam os desempenhos de Juliana Carneiro e Zózimo Bulbul). Isso limita uma percepção maior da essência de cada personagem. Mesmo com tal distância imposta ao espectador, o filme permanece na memória pela atemporalidade da metáfora sobre a qual a narrativa se funda, a respeito de um povoado perdido em alguma parte da América do Sul que chafurda na lama - produzida tanto pelas chuvas como pela ausência de valores de seus habitantes.
[17/MAR/2006]
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