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Réquiem para um pesadelo

Opinião: Mistérios da carne

Marco Antonio Barbosa

Clichê do clichê: delegar aos traumas de infância toda a responsabilidade pelo comportamento posterior dos personagens de um filme. Em Mistérios da carne - trabalho mais recente do cultuado Gregg Araki (Splendor e The living end) - há traumas de sobra e clichês de menos. O diretor continua a explorar o desajuste sócio-emocional da juventude white trash dos EUA da maneira mais dolorosa possível - cruzando extrema sensibilidade e imaginação ao penetrar no mundo interior de seus personagens com o mais cru realismo. Ambos vítimas de abuso sexual na infância, Neil (Joseph Gordon-Levitt) e Brian (Brady Corbett) reagem de modos bem diferentes: Neil vira prostituto, enquanto Brian desenvolve fobia social e uma fixação por abduções extraterrestres. Ponto-chave de tantas outras produções inferiores, o trauma infantil aqui não é usado como psicologia barata. Mistérios da carne não julga (e por isso não condena, mas também não perdoa) seus protagonistas. Limita-se a mostrar, em cenas alternadamente perturbadoras, chocantes e belas - aliada à linda trilha sonora, de Harold Budd e Robin Guthrie -, o que cada um fez de sua maldita bagagem emocional. Para mentes e corações fortes.


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[02/DEZ/2005]


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