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Cinema: Paródia espertinha demais
Opinião: Beijos e tiros
Marco Antonio Barbosa
Existe um subgênero no cinema americano que poderia se chamar de filme de roteirista. Ele se manifesta quando concede-se a um escritor consagrado a chance de dirigir seu primeiro longa. Em geral, saem obras parecidas como este Beijos e tiros, nas quais a vontade de amontoar a tela com sacadinhas espertas acaba eclipsando o conteúdo da trama em si. Felizmente, a esperteza (excessiva?) do diretor-roteirista Shane Black não chega a atrapalhar muito. Autor do roteiro do Máquina mortífera original, Black não esconde sua origem e requenta uma vez mais a comédia de ação protagonizada por dois parceiros que, a princípio, não se bicam. Eles são Harry (Robert Downey Jr.) e Perry (Val Kilmer). O primeiro é um ladrãozinho pé-rapado que tem a chance de virar astro de Hollywood. O outro é um detetive que vive resolvendo sujeiras nos bastidores dos estúdios de cinema. A complicada trama criminal em que se envolvem é, na verdade, um mar de referências ao cinema noir: os capítulos do filme ganham títulos tirados de livros de Raymond Chandler, e o velho truque da narração em off também reaparece. Com a ajuda de seus ótimos protagonistas, mais a bela Michelle Monaghan, Shane Black equilibra-se bem entre a paródia de um tipo de filme de ação que ele mesmo ajudou a criar, temperada com uma ácida visão sobre os podres de Hollywood. Só precisava ser um tiquinho menos esperto.
[02/DEZ/2005]
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