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Entenda se puder
Trabalhos que chegam a custar R$ 150 mil desafiam a compreensão do público e provocam polêmica
Rodrigo Aör
[02/DEZ/2005]
Quem nunca se deparou com uma obra simples demais para ser considerada arte e soltou um riso debochado seguido do clássico ''Isso eu também faço''? E que tal saber que um trabalho nesses moldes - um punhado de caixas de papelão empilhadas - em cartaz no Paço Imperial, custa entre R$ 100 mil e 150 mil, mesmo preço de um cobiçado modelo Audi A3 Turbo? Criada pelo artista plástico José Tannuri, essa instalação é a obra mais cara da série de 12 selecionadas pela Programa para ilustrar uma reflexão sobre a difícil e muitas vezes galhofeira relação do público com as artes plásticas e, em especial, com a arte contemporânea. Não faltam casos - engraçados para uns, revoltantes para outros - sobre experiências desastrosas e traumáticas entre espectador e obra.
Após quatro meses apertando diariamente as teclas de um telefone celular, o artista plástico Eduardo Costa, que assina como Cadu, finalmente completou sua obra: ele pressionou a tecla pause do jogo Snake no momento em que marcou o milésimo ponto e viu surgir, no visor do aparelho, a imagem mitológica da cobra que engole o próprio rabo, o Uroborus. Uma vez pronta, a obra - parte de uma série exibida em mostra individual na galeria Laura Marsiaj - foi conservada durante outros oito meses. Não sobreviveu, porém, a uma hora e meia de contato com o público na noite da vernissage. Foi o tempo que uma convidada desavisada levou para retirar a proteção de acrílico e mexer no celular durante a abertura da exposição, embaralhando novamente o jogo.
A história ocorreu em abril deste ano e é emblemática no que se refere à relação de grande parte das pessoas com as artes plásticas. Diante de cartolinas brancas que separam dentes de porcelana, bloco de concreto quebrado com fios de cabelos no meio, meros caixotes empilhados e carrinhos de autorama espalhados pelo chão, não faltam perguntas como ''O que ele quis dizer com isso?'' ou ''Isso é arte?''. Vários destes trabalhos, digamos, inquietantes, podem ser vistos atualmente em museus, centros culturais e galerias da cidade e são a base de um debate que continua efervescente. Mais ou menos como ficou Cadu, que assistiu impotente ao momento em que sua criação se perdeu.
- A obra cumpriu o seu destino, mas não imaginava que isso fosse acontecer tão rapidamente e pelas mãos de um terceiro. Foi uma irresponsabilidade da espectadora e, em última instância, um ato de vandalismo. O que passou na cabeça dela é o que passa na de muita gente, que entra em uma exposição não para pensar, mas por puro entretenimento. Na hora, fiquei muito abalado e fui dizer para a pessoa que ela havia estragado o trabalho. Na primeira oportunidade, ela fugiu do vernissage - lembra o dono do celular, que demorou a recuperar o humor.
A dificuldade de reconhecimento das obras de arte pode ter conseqüências drásticas. Convidado a participar da coletiva Arte em diálogo no Museu de Arte Moderna (MAM) em 2003, Bruno de Carvalho resolveu apresentar a obra Flow, um pequeno pedaço de papel com um desenho tirado de um bloquinho de anotações. A seu pedido, não foi colocada ao lado do trabalho a etiqueta de identificação, com nome, ano de produção nem autor. Foi o suficiente para que, poucos dias após o vernissage, uma funcionária do museu, sem desconfiar do equívoco e contrariando a determinação para não mexer em nada, pegasse o papel da parede, rasgasse e jogasse na lixeira. A falta (ou o excesso) de sensibilidade resultou em demissão.
A controversa relação público/obra/artes plásticas é milenar, mas ganhou força considerável a partir da ascensão da arte contemporânea em meados do século 20 e do surgimento de suportes pouco convencionais como a instalação e a performance, que levaram ao questionamento do próprio conceito de arte. Freqüentemente confrontados com a questão, os artistas são quase unânimes em afirmar que a arte não precisa ser entendida pelo observador, mas deve tocá-lo de alguma forma.
- As pessoas sempre perguntam o que o artista quis dizer, mas a obra carrega, além da idéia dele, outras questões, de acordo com quem observa. É um veículo de reflexão. O próprio espectador a complementa. Não tenho a preocupação de que entendam o que eu quis dizer. Quero que sintam a obra a sua maneira - afirma Lia do Rio, cuja vídeoinstalação pode ser vista no Centro de Artes Visuais da Funarte, espaço que concentra, no momento, o maior número de trabalhos curiosos selecionados pela reportagem.
- É importante perguntar se aquilo é arte. Eu mesma gosto de pensar ''O que é isso?'' diante das minhas obras. Mas algumas questões devem ser mudadas. Tentar entender a ''mensagem'' é um equívoco do espectador. O que deve ser cultivada é a contemplação. Você não pergunta o que quer dizer o pôr-do-sol. Mas pouca gente está disposta a ser ativa. As pessoas estão acostumadas à passividade - avalia Fernanda Gomes, autora da escultura que ilustra a capa desta edição.
Já Rafael Campos Rocha, dono das quatro folhas brancas de cartolina da página anterior, lança mão da sinceridade e do bom humor ao analisar o estranhamento das pessoas.
- A relação com as artes plásticas é meio caótica, mas tem que ser mesmo. A arte tem que ser indeterminada. Você olha e não sabe o que é, mas eu também não sei direito o que estou fazendo. Às vezes, faço algo que não tem nada a ver.
De passagem pela Funarte apenas para ''fazer hora'', o servidor público Sérgio Pinho, que não costuma ir a exposições, concorda quase que intuitivamente com a tese.
- Não é para pensar. É para observar. O que é isso aqui? Sei lá. A parede pintada de vermelho, por exemplo, é só uma parede pintada de vermelho - diz ele, ressaltando que busca plasticidade na arte.
A estética pode ser uma das chaves para explicar o questionamento generalizado à arte contemporânea, mais voltada para a dimensão conceitual da produção.
- As pessoas têm uma visão da arte como algo puramente estético - avalia a artista plástica Rosana Ricalde.
Mas se o lance então é ''sentir'' e não ''entender'' a obra, o que dizer dos trabalhos que nada despertam nas pessoas ou que são, simplesmente, ignorados?
- Já aconteceu mais de uma vez de uma obra minha se perder dentro da galeria. Os amigos vão e não acham o trabalho. Me ignoram direto, mas não ligo - conta Rafael.
A explicação de Fernanda é bem mais simples: ''Tem muita coisa ruim por aí''. Há quem atribua o fenômeno, no entanto, à falta de educação artística do brasileiro em geral. É o caso do artista e professor de artes Osvaldo Carvalho.
- É preciso estar preparado para apreciar a arte. No Brasil, isso não é ensinado. Arte não reprova - lembra.
O escultor José Resende faz coro.
- Se há dificuldade, ela tem relação com a educação e não se dá apenas nas artes plásticas. A informação é passada muitas vezes de forma improvisada - afirma.
Seja qual for o motivo, o fato é que o carioca, que já não é muito de freqüentar museus e galerias, vai menos ainda quando se trata de arte contemporânea. No ranking das exposições mais visitadas do Centro Cultural Banco do Brasil, a mostra Andy Warhol, de 1999, aparece apenas na sexta posição, com público de 248 mil pessoas. Ela fica atrás de Arte da África (2003/2004), com 747 mil; Surrealismo (2001), com 739 mil; Antes - Histórias da Pré-História (2004/2005), com 658 mil; Paris 1900 (2002), com 448 mil; e Rembrandt e a arte da gravura (2003), com 266 mil.
Segundo Carlos Machado, coordenador de artes plásticas do CCBB, embora 60% a 70% dos projetos inscritos no programa de exposições sejam de arte contemporânea, o público destas mostras costuma ser menor e mais específico do que o de outras.
- O público de arte contemporânea é mais especializado, demonstra já ter alguma intimidade com as problemáticas que a contemporaneidade impõe à arte. São pessoas que freqüentam museus e galerias. Já o público de mostras com perfil mais museológico (como Arte da África) e mesmo de retrospectivas de arte moderna (como Surrealismo) é formado por pessoas que não vão normalmente a instituições culturais - explica Carlos.
O diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte, Xico Chaves, atribui as dificuldades a seu caráter vanguardista.
- A arte contemporânea está em um processo de mutação e expansão maior do que o teatro e o cinema, por exemplo. É um fenômeno do século 21. Ela é responsável por um salto muito grande nas artes visuais para que o público compreenda ainda - arrisca.
A conferir.
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