Novo espetáculo de Deborah Colker, 'Nó' é inspirado no 'bondage', prática sexual com cordas
Um filósofo, um marinheiro e um especialista em
bondage, prática sexual em que os participantes têm os corpos amarrados com cordas. Foi a essas três pessoas de interesses e saberes tão distintos que Deborah Colker recorreu para ajudá-la a dar forma a
Nó, seu novo espetáculo, que estréia nesta sexta, com temporada popular no Teatro João Caetano.
Claro que os três professores fazem parte de uma equipe grifada e muito mais numerosa, que inclui Gringo Cardia (cenografia), Bernardo Ceppas e Alexandre Kassin (trilha sonora), o estilista Alexandre Herchcovitch, responsável pelos figurinos e Flávio Colker, irmão de Deborah e co-diretor do trabalho. O especialista em bondage e o marinheiro, porém, ensinaram a coreógrafa e seus bailarinos como manipular as cordas - elemento primordial de Nó -, usadas como metáforas do desejo, dos laços afetivos e sexuais que prendem e libertam. Já o filósofo, o professor Fernando Muniz, mostrou ao grupo as formas que o desejo assumiu e como foi visto ao longo da história. Junte-se a isso o árduo trabalho dos ensaios e o resultado são bailarinos que dançam com as cordas como se morassem nelas, num espetáculo que reúne beleza e virtuosismo.
Quem for ver o balé, não espere aqueles movimentos mirabolantes de perder o fôlego marca registrada de Deborah, que costuma trabalhar com um elemento de risco em suas coreografias. Quem não se lembra dos vasos de porcelana em 4 x 4, ou da parede de alpinista em Mix? Nó não tem nada disso. É lírico, delicado, romântico.
- É um olhar sobre o desejo, muito presente nas questões humanas. Mas eu queria buscar objetos para falar disso. Precisava de situações concretas, que se materializassem no corpo. E a corda tem um sentido ligado ao movimento. Ela não é fixa e pode ser metáfora de muitas coisas. Escolhi as cordas por causa das amarrações eróticas. É um objeto fetichista - explica a coreógrafa.
O balé é dividido em dois atos. No primeiro, os 16 bailarinos se movimentam em meio a um cipoal de 120 cordas presas no urdimento do teatro. No início, elas estão presas, formando uma espécie de árvore. Uma bailarina aproxima-se dela e oferece os braços para que sejam atados, o que é feito, e, então, ela é suspensa. Difícil não pensar em jogos sexuais ao ver a cena. Deborah confirma que sua inspiração veio do bondage. Ela assistiu a uma apresentação da técnica em um club quando se apresentava em Hamburgo, na Alemanha, com sua companhia há dois anos. Ficou impressionada com o que viu e chamou o especialista para fazer um workshop com ela e seus bailarinos. Percebeu que aquilo poderia se tornar material para a dança.
- Amarrar alguém ou ser amarrado é, ao mesmo tempo, tão violento e tão respeitoso, delicado mesmo. E a corda ainda tem relação com outras idéias como a força, a liberdade e a própria morte - analisa.
Gringo Cardia, que criou com Deborah a cenografia, conta que seu trabalho tinha que estar terminado bem antes, já que toda a parte da dança é criada no cenário pronto. Chegou até a pesquisar qual o tipo de corda seria a ideal. Era a de cânhamo, mas seria complicado trazê-la para o país. Optaram, então, pelas de algodão acetinado. Ele também criou a enorme caixa, feita de alumínio e policarbonato (material também usado em blindagem) que entra no segundo ato, inspirada nas vitrines que Deborah viu em Amsterdã, na Holanda, nas quais prostitutas se exibem para os clientes.
- Ela me falou das vitrines, mas eu pensei mais num aquário. A pessoa está ali dentro, perto de você, mas não conseguimos alcançá-la. Simboliza o desejo não realizado. E ainda tem a escada em diagonal, que é meio fálica, mais parecida com um objeto de tortura. O desejo sempre tem essas coisas - diz Gringo.
A música, claro, permeia todo o espetáculo e ficou a cargo de Berna Ceppas e Alexandre Kassin. Berna explica que se trata de uma trilha atípica, feita mais por músicas selecionadas do que compostas por eles. A escolha foi feita junto com Deborah e foi marcada por muita negociação, tanto para incluir como para eliminar canções. Houve a exceção de My one and only love, de Chet Backer, que ambos adoram e queriam usar, mas temiam que ela tornasse as coisas óbvias para o espectador. Essa, aliás, foi uma preocupação de Berna e Deborah na hora de escolher as músicas que têm letras.
- Houve várias músicas cantadas que tiramos da trilha. É arriscado usá-las porque poderíamos acabar induzindo as pessoas a uma leitura pré-determinada. Achamos que isso poderia acontecer com Chet Backer, que é considerado o rei do cool, e poderia forçar uma interpretação. Mas a gente achou que a música tinha tudo a ver. Ele morou em Amsterdã e morreu na cidade. E uma das inspirações de Nó veio de lá - conta Berna.
O balé estreou no mês passado em um dos mais conceituados festivais de dança do mundo: o de Wolfsburgo, na Alemanha. Os organizadores contrataram a companhia sem ter visto um minuto sequer do espetáculo. Foi um sucesso.
- Isso é bacana para o Brasil. Um espetáculo como esse é muito caro. Apesar de não terem visto, eles sabiam que não estavam arriscando - acredita Deborah.
nTeatro João Caetano- Praça Tiradentes, s/nº, Centro (2221-1223). Cap.: 1.222 pessoas. 5ª a sáb., às 21h e dom., às 18h. R$ 20 (platéia e balcão nobre) e R$ 15 (balcão). Duração: 1h. Classificação etária: livre. Até 31 de julho. Estréia nesta sexta.