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Em todas
Anônimos famosos apontam o melhor e o pior da noite carioca
Catharina Epprecht
[22/OUT/2004]
Juliana Zommer nunca esbarrou com Julinho Reinaldo Graúna na noite carioca. Tampouco deve ter visto Sérgio Careca num afterhours, bebido uma cerveja no mesmo balcão que Jonas Sá ou soltado o gogó na quadra da Portela a poucos metros do folião Marcelo Moutinho. Os cinco, porém, são conhecidíssimos em suas turmas. São personagens ilustres, figurinhas fáceis de cada uma das tribos noturnas cariocas, vistos a toda hora, por todos os lugares - na linguagem universal, são os Wallys, o personagem dos quadrinhos que sempre se escondia na multidão; na carioca, uma espécie de novos Sadys, aquele poeta boa-praça que parecia ter o dom da onipresença em meados da década de 90. Encontrá-los na noite é sinal de lugar certo, badalado, popular.
Os limites dessas figurinhas carimbadas são largos, as noites em casa, rarissímas. Julinho, por exemplo, vai, numa mesma semana, a shows no Claro Hall, na Barra, e no inferninho Garage, na Praça da República, e dança na festa Alien Nation, na Sygno, em Copacabana. Sempre com flyers à mão, divulga shows de bandas desconhecidas nos subúrbios cariocas. Juliana, símbolo da juventude dourada carioca, transita pelas boates mais caras da Zona Sul. Marcelo Moutinho é habituê da Lapa, mas, uma vez por mês, estica as pernas até os sambas em Madureira. Jonas Sá curte cinema e shows, num circuito alternativo, com passadas no Sérgio Porto e mostras de cinematecas no Centro, e Serginho transita pelas boates de música eletrônica.
O quinteto não hesita em apontar a música como o principal indicador para traçar um bom roteiro noturno. ''Escolho os lugares que não tocam apenas as 20 mais pedidas, os hits mais populares. É bom ir para um lugar e lá curtir aquela música que você não ouvia há tempos, ser surpreendido'', explica Marcelo Moutinho. Outro quesito para uma noite feliz é o encontro com os conhecidos, que volta e meia esbarram neles. ''Gosto de estar na rua, com as pessoas, ver todo mundo reunido'', afirma Jonas. Um terceiro ponto é a ''democracia do lugar'', em que cada um puxa a sardinha para a sua brasa. ''Nas casas de samba, vai a patricinha e o suburbano'', discursa Moutinho. ''Hoje, a noite underground recebe todo mundo sem preconceito. Vai o povo da música eletrônica, do rock, do hip-hop'', defende Serginho.
Fugir das roubadas é outra arte conquistada com a experiência de noites e noites na rua. ''Não gosto de lugares que não têm muita comida. Geralmente, só há bebida e as pessoas passam a noite enchendo a cara'', dá a dica Julinho para evitar as confusões que de vez em quando viram notícia. ''É muito chato conhecer um lugar e ver que, depois de virar moda, os preços aumentam e fica sempre lotado'', reclama Jonas Sá. Espaços com tendência elitista também são evitados por esses personagens da noite carioca. ''Fila é chato, mas fazer carteirinha VIP é muito pouco democrático'', teoriza Moutinho. Já as festas que viraram símbolos de transtorno, como as raves, volta e meia canceladas na última hora, são descartadas.
Mesmo assim, virar figurinha fácil tem lá suas vantagens. Seja com o segurança que facilita a entrada, seja com o barman que serve drinques com mais rapidez. ''Como estou sempre nesses lugares, conheço todo mundo. Tanto os freqüentadores, quanto as pessoas que trabalham lá, como o povo do bar, os seguranças e os promoters'', diz Juliana.
A receita do quinteto para manter o pique é simples: dormir pouco. Juliana, por exemplo, sai mais nas férias, mas já houve época em que saía nos sete dias da semana, depois de trabalhar entre as 10h e as 16h e estudar das 17h às 20h. ''A gente sempre dá um jeitinho'', conta.
O dom da onipresença na noite carioca ganha a definição - poética, claro - do sumido Sady: ''O Mário de Andrade também tinha essa fama, de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. As pessoas afirmavam vê-lo sempre e às vezes os discursos eram desencontrados. E, sobre isso, ele respondia: 'Eu não sou um, eu sou 350. E talvez um dia, eu possa me encontrar''', filosofa.
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