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Anônimos famosos apontam o melhor e o pior da noite carioca

Catharina Epprecht

Rafael Andrade

Serginho, em meio aos freqüentadores da Fosfobox, em Copacabana: ''Aqui não tem gueto''

Juliana Zommer nunca esbarrou com Julinho Reinaldo Graúna na noite carioca. Tampouco deve ter visto Sérgio Careca num afterhours, bebido uma cerveja no mesmo balcão que Jonas Sá ou soltado o gogó na quadra da Portela a poucos metros do folião Marcelo Moutinho. Os cinco, porém, são conhecidíssimos em suas turmas. São personagens ilustres, figurinhas fáceis de cada uma das tribos noturnas cariocas, vistos a toda hora, por todos os lugares - na linguagem universal, são os Wallys, o personagem dos quadrinhos que sempre se escondia na multidão; na carioca, uma espécie de novos Sadys, aquele poeta boa-praça que parecia ter o dom da onipresença em meados da década de 90. Encontrá-los na noite é sinal de lugar certo, badalado, popular.

Os limites dessas figurinhas carimbadas são largos, as noites em casa, rarissímas. Julinho, por exemplo, vai, numa mesma semana, a shows no Claro Hall, na Barra, e no inferninho Garage, na Praça da República, e dança na festa Alien Nation, na Sygno, em Copacabana. Sempre com flyers à mão, divulga shows de bandas desconhecidas nos subúrbios cariocas. Juliana, símbolo da juventude dourada carioca, transita pelas boates mais caras da Zona Sul. Marcelo Moutinho é habituê da Lapa, mas, uma vez por mês, estica as pernas até os sambas em Madureira. Jonas Sá curte cinema e shows, num circuito alternativo, com passadas no Sérgio Porto e mostras de cinematecas no Centro, e Serginho transita pelas boates de música eletrônica.

O quinteto não hesita em apontar a música como o principal indicador para traçar um bom roteiro noturno. ''Escolho os lugares que não tocam apenas as 20 mais pedidas, os hits mais populares. É bom ir para um lugar e lá curtir aquela música que você não ouvia há tempos, ser surpreendido'', explica Marcelo Moutinho. Outro quesito para uma noite feliz é o encontro com os conhecidos, que volta e meia esbarram neles. ''Gosto de estar na rua, com as pessoas, ver todo mundo reunido'', afirma Jonas. Um terceiro ponto é a ''democracia do lugar'', em que cada um puxa a sardinha para a sua brasa. ''Nas casas de samba, vai a patricinha e o suburbano'', discursa Moutinho. ''Hoje, a noite underground recebe todo mundo sem preconceito. Vai o povo da música eletrônica, do rock, do hip-hop'', defende Serginho.

Fugir das roubadas é outra arte conquistada com a experiência de noites e noites na rua. ''Não gosto de lugares que não têm muita comida. Geralmente, só há bebida e as pessoas passam a noite enchendo a cara'', dá a dica Julinho para evitar as confusões que de vez em quando viram notícia. ''É muito chato conhecer um lugar e ver que, depois de virar moda, os preços aumentam e fica sempre lotado'', reclama Jonas Sá. Espaços com tendência elitista também são evitados por esses personagens da noite carioca. ''Fila é chato, mas fazer carteirinha VIP é muito pouco democrático'', teoriza Moutinho. Já as festas que viraram símbolos de transtorno, como as raves, volta e meia canceladas na última hora, são descartadas.

Mesmo assim, virar figurinha fácil tem lá suas vantagens. Seja com o segurança que facilita a entrada, seja com o barman que serve drinques com mais rapidez. ''Como estou sempre nesses lugares, conheço todo mundo. Tanto os freqüentadores, quanto as pessoas que trabalham lá, como o povo do bar, os seguranças e os promoters'', diz Juliana.

A receita do quinteto para manter o pique é simples: dormir pouco. Juliana, por exemplo, sai mais nas férias, mas já houve época em que saía nos sete dias da semana, depois de trabalhar entre as 10h e as 16h e estudar das 17h às 20h. ''A gente sempre dá um jeitinho'', conta.

O dom da onipresença na noite carioca ganha a definição - poética, claro - do sumido Sady: ''O Mário de Andrade também tinha essa fama, de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. As pessoas afirmavam vê-lo sempre e às vezes os discursos eram desencontrados. E, sobre isso, ele respondia: 'Eu não sou um, eu sou 350. E talvez um dia, eu possa me encontrar''', filosofa.


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[22/OUT/2004]


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