Quando
Cidade de Deus foi escrito, o Rio já era uma cidade perigosa. Comparado a hoje, no entanto, era um Shangri-La. Neste curto espaço de tempo, a cidade foi parcialmente arrasada por uma guerra civil. O crime organizado tomou o poder e desmoralizou as instituições. O criminoso de hoje não tem nada a ver com o discreto charme da delinqüência na época áurea do jogo do bicho. Na era do tráfico, o crime mata com requintes de crueldade, intimida as populações, fecha as escolas. Não há beleza nisso. A poesia das favelas que filmes como
Orfeu divertidamente interpretam entrou em colapso. Para a sociedade, isso é motivo de apreensão. Para o artista, motivo de redobrado cuidado. É por isso que muito do que há de bom em
Cidade de Deus pode agir contra o compromisso ético do filme, ainda que isso possa passar despercebido até aos próprios autores. Mas a fotografia em sépia parece mais apropriada a um comercial de refrigerante que à discussão de um inquietante problema social; a leveza com que se humaniza o bandido corre na fronteira de transformá-lo em herói, ainda que o texto esteja dizendo o contrário. Há numa obra cinematográfica bem mais do que boa luz e edição ágil. Há o impacto que ela provoca no seu público.
Cidade de Deus dá a impressão de ter ficado bem menos atento a isso que à excelência técnica de sua realização.