Estilingues sob controle

O discurso revolucionário mudou com o fim do medo do rótulo light

O primeiro discurso oficial de Luiz Inácio da Silva sobre a fundação do Partido dos Trabalhadores, no lançamento do núcleo de São Bernardo do Campo, em 2 de dezembro de 1979, sintetizou a causa identificada pela estrela-símbolo com uma frase de efeito:

- O PT nada mais é do que P de ''pão'' e T de ''trabalho''.

Os alvos pioneiros e prioritários foram ''a burguesia, a exploração no trabalho e o regime ditatorial''. Lula também pregava o calote da dívida externa. O PT, em seu início, não era aberto a negociações e repudiava alianças com outras legendas. ''O partido não pretende chegar ao poder, pelo menos enquanto perdurar a atual correlação de forças'', dizia um manifesto lançado na fundação, que lançava os fundamentos da cartilha: luta pela democracia pluripartidária, pela igualdade econômica e social, por partidos dissociados do Estado, por um Judiciário independente e por um Parlamento livre.

A solidão política durou pouco. Em 1981, o diretório nacional aprovou coligações com outras agremiações de oposição, com as bênçãos de Lula. O PT não renunciou à sua vocação esquerdista. Mas a idéia do calote no FMI foi trocado pela ''renegociação da dívida externa brasileira''.

Em meados dos anos 80, o partido avançou na discussão sobre alianças: ganhou força a tese que recomendava parcerias com o PDT e com setores chamados ''progressistas'' do PMDB. Partiu do próprio diretório nacional a orientação para moderar o discurso agressivo - ironicamente, a argumentação foi exposta pelo sociólogo Francisco Weffort, então integrante da executiva petista, hoje ministro da Cultura do governo FH. ''Precisamos moderar as estilingadas'', proclamou Weffort, num recado às alas radicais, batizadas de ''xiitas''.

Grupos dissidentes deixaram o PT e fundaram pequenas organizações. Surgiu no final dos anos 80 a aliança com o PCdoB, o PV e o PSB. O partido começava a abandonar bandeiras revolucionárias e sindicalistas. Lula anunciou um novo programa de governo, que permitiria alianças com setores da classe média e pequenos empresários. A denominação ''PT light'' nasceu nas eleições de 1994, criada por parlamentares que dialogavam com todas as forças no Congresso.

Lula tornou-se uma encarnação do PT light, pronunciando discursos que marcavam a travessia do radicalismo para a moderação. Foram aparadas arestas com adversários políticos e militares. Resta eliminar focos de atrito com grupos mais esquerdistas do próprio PT: em conjunto, Democracia Socialista, Articulação de Esquerda e O Trabalho têm 26 deputados federais e três senadores.

[28/OUT/2002]


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