O Partido dos Trabalhadores foi fundado em 10 de fevereiro de 1980, na esteira das greves de metalúrgicos do ABC que refizeram a história do sindicalismo. Luiz Inácio Lula da Silva foi seu primeiro presidente. Nada mais previsível: ele era a cara do recém-nascido PT.
Ainda em 1978, à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Lula defendia a idéia de que os trabalhadores deveriam ter um partido que os representasse, ''sem qualquer relação com o extinto PTB; não importa a sigla, mas, sim, os princípios'', como afirmou, na cerimônia de lançamento de um livro do agora senador Eduardo Suplicy.
O PT sempre viveu essa dupla face: operários e intelectuais. Entre os fundadores, estão o historiador Sérgio Buarque de Hollanda e o metalúrgico Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho; o ensaísta Antonio Candido e o líder rural Chico Mendes; o psicanalista Hélio Pellegrino, a filósofa Marilena Chauí, o educador Paulo Freire, a cientista política Maria Vitória Benevides, o cartunista Henfil - e o hoje líder do MST João Pedro Stedile.
O PT, obviamente, não contava com a simpatia do regime militar. Mas também tinha opositores na esquerda tradicional. O PCB, por exemplo, viu na nova legenda um corpo estranho ao ideário tradicional comunista e considerou ''divisionista'' sua ação política. Em 1982, quando foram restabelecidas as eleições diretas para os governos estaduais, Lula disputou a sucessão em São Paulo. Não passou de um quarto lugar. Na propaganda eleitoral permitida na época, quase um catálogo de fotos televisadas, os candidatos petistas eram, na maioria, gente enfezada - a começar por Lula e seu jeito ''hoje não tô bom'' de ser.
A recusa em celebrar alianças, que valeu ao PT a pecha de radical ao longo de sua história, serviu, no início, para consolidar a presença da estrela nos céus da política. Ser petista era quase uma religião, socialista, sem dúvida, mas pouco ortodoxa. Movimentos de mulheres, negros, índios e homossexuais encontraram abrigo no partido, da mesma forma que católicos da Teologia da Libertação, trotskistas e sindicalistas vinculados à classe média - bancários, professores ou engenheiros.
- Prefiro dizer que o partido da classe trabalhadora é aquele em que a classe trabalhadora tiver a sua hegemonia, aquele cujas decisões sejam tiradas democraticamente pela própria classe trabalhadora - resumiu Lula em 1981.
Foi esse PT que chegou à Constituinte e à prefeitura de São Paulo em 1988, com Luiza Erundina, hoje filiada ao PSB. Até então, era visto com um conglomerado de siglas da esquerda - em 1986, seis filiados ao PT que pertenciam ao grupo PCBR tentaram assaltar uma agência do Banco do Brasil em Salvador, fortalecendo a impressão de que os petistas eram a doença infantil do socialismo. Nas eleições presidenciais de 1989, porém, alargando o espectro de alianças, o PT, ao quase chegar lá, ganhou novo fôlego e novos matizes.
Ao longo dos anos 90, o partido de Lula - que virou presidente de honra no fim da década - cristalizou sua base parlamentar, assumiu a linha de frente da oposição e deixou de ser visto como um amontoado exótico. Em 2000, conquistou a prefeitura de seis capitais e mais 181 municípios. Neste 6 de outubro, tornou-se o maior partido da Câmara, com 91 deputados, e elegeu nove senadores.
No vigésimo aniversário do PT, Lula, num importante mea culpa partidário, lamentou que a legenda não tivesse se aproximado do governo Itamar Franco e que, na disputa com Collor, não houvesse fechado um acordo com o PMDB de Ulysses Guimarães. A lição de como jogar o jogo político, sem renunciar a princípios, parece ter sido aprendida pelo PT.