Confirma!

Marcus Barros Pinto

Editor-executivo do JB

Cerca de 100 milhões de brasileiros apertaram ontem o botão verde da urna eletrônica. Confirmaram sua opção na disputa pela Presidência da República e a maioria elegeu Lula.

Esta eleição guarda uma mensagem muito clara: o eleitor quer mudanças. Esse foi o mote da campanha do candidato do PT, das conversas nas ruas, escritórios, chão de fábricas ou nas arquibancadas dos estádios de futebol.

Ao confirmar Lula lá, o eleitor deve ter tido a consciência de que optar pela mudança não significa apenas apertar a tecla verde da urna e esperar que o novo governo resolva sozinho os problemas do país. Essa postura foi abandonada.

Isso implica mudanças de atitudes de cada eleitor, cada cidadão.

Significa sair de carro com todos os documentos em dia e estar atento à data da vistoria. Se não estiver tudo legal, ao ser interceptado por um guarda, aceitar a multa e não tentar corrompê-lo ou aceitar suas insinuações em busca de propina. Caso isso aconteça, denunciá-lo.

Significa não apenas condenar os governos que gastaram mais do que tinham e endividaram o país em reais ou dólares. Mas olhar para o próprio umbigo, para as próprias contas, zerar os cartões de crédito, os cheques especiais, restabelecer prioridades e viver dentro do orçamento, por mais curto que seja.

Significa não se contentar em teclar o telefone para doar R$ 10 ou R$ 20 para a campanha Criança Esperança, ou levar um quilo de alimento não perecível para o Natal Sem Fome. E, com isso, considerar seu dever cumprido no que diz respeito à participação social e à preocupação com a miséria de outros brasileiros.

Significa não colaborar com a evasão fiscal e/ou lutar para que o Congresso democraticamente eleito reduza a carga fiscal, ou pagar o quanto a lei determina. Sem incentivar o surgimento de dezenas de paraísos fiscais municipais, hoje lotados de escritórios onde até 300 pessoas jurídicas dividem um mesmo endereço - qualquer semelhança com Cayman não é mera coincidência - para diminuir a carga de impostos.

Significa saber, depois de um ano, em quem votou para senador, deputado federal, estadual ou vereador. E acompanhar sua atuação, para cobrar-lhe o desempenho, em vez de simplesmente dizer que ''todo político é isso ou aquilo'', como se fossem todos farinha do mesmo saco moral ou ideológico.

Significa freqüentar reuniões na escola dos filhos, no condomínio, ter noção do que se passa no sindicato da categoria e não ficar sentado em berço esplêndido a condenar (sem freqüentar) o que costuma ser adjetivado de assembleísmo, sem se dar conta de que o individualismo é o pior. E que a democracia se constrói no debate de idéias e posturas.

Significa ser e estar cidadão. E isso é muito mais que apertar uma tecla.

[28/OUT/2002]


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