A ascensão dos metalúrgicos

Nasce um líder nas greves do ABC

A revista americana Newsweek, numa reportagem de abril de 1979, chamou Luiz Inácio Lula da Silva de working-class hero (herói da classe operária). Tentava explicar aos leitores do lado de cima do hemisfério quem era aquele sujeito que comandava greves monumentais, desafiando o regime militar instalado no Brasil desde 1964 e inaugurando algo que ficou conhecido como ''o novo sindicalismo brasileiro''. A ascensão de Lula como líder sindical foi meteórica, numa época em que greves eram ilegais e punidas com prisões.

Ainda assim, o nordestino barbudo de 30 e poucos anos, à frente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema - o centro nervoso da indústria automobilística nacional -, levou a greves consecutivas a categoria, reivindicando melhores reajustes salariais. Eleito em 1975 para a presidência da entidade, virou unanimidade entre o operariado.

Carismático, radical, dono de uma oratória fluente - embora tropeçasse nas regras gramaticais -, Lula se destacou na greve dos metalúrgicos de 1978 - a primeira no país em dez anos. Sustentava, então, que o movimento era dos trabalhadores - tinha ojeriza a intelectuais e estudantes na porta das fábricas prestando sua solidariedade ao proletariado. E defendia um sindicalismo desatrelado do Estado, fora dos padrões sedimentados pelo peleguismo da época.

- Não quero que meus filhos, ao crescerem, tenham vergonha do pai. Quero que saibam que ao menos tentei - repetia.

Máquinas paradas, negociações abertas, os metalúrgicos conseguiram uma razoável vitória, num inédito acordo com os patrões. Foi aí que Lula começou a falar na necessidade de os trabalhadores criarem um partido próprio, que nasceria das inflamadas assembléias no estádio de futebol da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, que reuniam milhares de manifestantes. No mesmo ano, inaugurou sua participação em campanhas políticas, apoiando o candidato a senador pelo MDB Fernando Henrique Cardoso. Ironia do destino, Lula entrou na política na carona do homem que o derrotaria duas vezes seguidas em eleições presidenciais.

Em 1979, Lula começou a trabalhar pela criação de uma Central Única dos Trabalhadores (CUT), um bicho-papão para o regime. No ano seguinte, a reação: o governo cassou o mandato da diretoria do sindicato e, em maio, Lula foi preso e enquadrado na Lei de Segurança Nacional por ''incitar à desobediência coletiva das leis e à luta de classes pela violência''. Os metalúrgicos estavam mais uma vez em greve, a mais dura e difícil de todas. Lula passou 31 dias preso. Numa entrevista ao amigo frei Betto, logo após sair da cadeia (ficou encarcerado no Dops paulista), resumiu seus sentimentos:

- Não tenho medo de ser preso, torturado ou mesmo morrer. Meu único medo é o de falhar, por engano ou por falta de bom senso, com aqueles que confiam na gente. Certas pessoas me colocam num grau de importância que eu mesmo não consigo enxergar. Sou apenas um porta-voz dos trabalhadores. Faço o que eles decidem. E eles decidirão o que farei no futuro.

[28/OUT/2002]


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