Votei em José Serra e preferia que ele tivesse sido o eleito. Mas isso não significa que endosso as versões alarmistas sobre as conseqüências da vitória de Lula. Se o candidato petista houvesse vencido as eleições em que concorreu antes, talvez os efeitos teriam sido desastrosos, pois tanto ele quanto o Brasil não estavam preparados para obter bons resultados com o PT no poder. Mas ambos evoluíram de tal forma que é razoável, em 2002, nutrir expectativas positivas.
No tocante à evolução de Lula, é inegável que o presidente eleito não é igual ao candidato de 1990, 1994 e 1998. A começar por haver admitido aliança com um partido conservador, o PL. O fato de o vice-presidente ser um empresário não de esquerda sugere que a mudança de discurso não foi mera manobra eleitoreira, mas algo com o qual está comprometido. Em vista de sua história de liderança autêntica e democrática, é de se esperar que possua qualidades suficientes para perceber o envelhecimento de sua antiga plataforma e que um eventual fracasso de seu governo significaria o fim do projeto PT.
Só se fosse um inconseqüente não se daria conta de que, com as idéias antes defendidas, o Brasil sucumbiria à falta de investimentos e créditos externos, o déficit público explodiria, a inflação voltaria, a economia não cresceria e o desemprego seria maior do que o atual. Algumas de suas recentes declarações ainda são de arrepiar, mas atitudes como os galanteios ao empresariado, o reconhecimento da importância de cumprir com os compromissos externos e a concordância com os termos do acordo com o FMI justificam a crença de que, uma vez no Palácio do Planalto, constatará a necessidade de afastar-se de posições que inquietariam o país.
Sob o ponto de vista da evolução ocorrida no Brasil desde 1990, torna-se evidente que, qualquer que fosse o presidente eleito, não haverá demasiado espaço para o governo fazer experiências pirotécnicas. Qualquer extravagância em políticas públicas provocaria danos que incidiriam principalmente sobre a classe social da qual Lula se diz porta-voz, os menos favorecidos.
Lula não será refém da política econômica do governo FH, nem deverá adotar o ''Consenso de Washington'' como bíblia. Ele foi eleito exatamente por representar a oposição. Mudanças de ênfase são naturais e o próprio Serra dizia que as faria. As reformas neoliberais adotadas durante os anos 90 geraram resultados positivos, mas não suficientes para impulsionar maior crescimento econômico. Mas, para que as perspectivas do país sejam promissoras, uma nova geração de reformas é necessária.
Manter a tranqüilidade dos consumidores e investidores via estabilidade de preços, eliminar uma gigantesca fonte de desequilíbrios via ordenamento fiscal, incrementar a eficiência da economia via privatização e conquistar maior fatia do comércio internacional via elevação da competitividade são diretrizes que favorecem o país, quaisquer que sejam os partidos políticos no poder.
O relevante é saber qual a aliança partidária que, ademais de respeitar os bons costumes da administração, viabilizaria a inadiável ênfase na amenização das debilidades sociais. Já imaginei uma associação entre o PSDB e o PT, logo depois das eleições de 1994. A situação agora se inverteu. O PT é que se encontra no poder.
Mas a idéia da aliança continua válida. O PSDB constitui, entre os grandes partidos, o que maior potencial de afinidades possui com o PT. Tal acordo proporcionaria estabilidade política, diminuindo a necessidade de pactos com partidos inexpressivos. Seria o início da construção de um cenário político com maior substância ideológica, tendente a agrupar os partidos em função do que tradicionalmente se classificaria como esquerda e direita, mas com novas nuances.