A democracia à brasileira já há algum tempo confiou à classe média o papel principal. O Brasil acaba indo para onde a classe média despachá-lo. A candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva foi subscrita por essa gente cujo sonho coletivo é mudar (mas sem alterar o essencial) a disposição dos atores em cena. Cada qual na sua e o PT na do Brasil, eis a questão e não mais a revolução.
É possível que nas três anteriores tentativas de Lula pairassem dúvidas bojudas sobre as reais intenções do PT. O sucesso do PSDB em 1994 não estava na ordem natural. Foi acidente de percurso mas valeu como lição para Lula & Cia. depois que a reeleição começou a incompatibilizar o presidente com os seus eleitores. Foi a partir daí que o petismo pensou duas vezes e, considerando três insucessos, se desencantou da teoria. Mal apareceu no horizonte a sucessão de 2002, a classe média se conteve. A pequena burguesia se dissolveu nos 40% dos prudentes indecisos, ainda que sob o manto do anonimato.
A classe média teve olhos primeiro para Roseana Sarney e, na seqüência, para Ciro Gomes. Emitiu sinais de simpatia, sem compromisso. As razões pelas quais a classe média desertou de ambos ainda não estão decantadas mas o marido de Roseana foi decisivo para o desfecho e, no caso de Ciro, ficou mal visto o trejeito de falar e sorrir ao mesmo tempo como expressão de quem sabe de coisas que não pode revelar. Quanto a José Serra, a classe média suspeitou que, com ele, a socialdemocracia era também fachada para a demolição do que sobrou da Era Vargas por Fernando Henrique.
A classe média quer obviamente mudar, mas nem tanto ao mar nem tanto à terra. Candidato desocupado tem postura de desempregado. Lula percebeu que o figurino do PT estava fora de moda e providenciou outro enxoval de propostas. Começou na primeira pessoa do singular, pela própria aparência. A barba aparada foi bem recebida, a gravata passou a ser símbolo de uma reforma que não punha em risco o pescoço, no bom sentido.
Mantida a cabeça, o pequeno-burguês entendeu que não se tratava mais da oferta de revolução completa oferecida na rua pelos radicais, que são os camelôs da militância. No seu programa de governo ganharam peso as elásticas acomodações proporcionadas pela socialdemocracia. Afinal, a classe operária tem como prioridade a criação de empregos para contrabalançar a eficiência com que a tecnologia libera o homem para nada fazer, mas também nada receber. Sem trabalhar, por algum tempo, agüenta-se. Mas sem receber é impossível sobreviver.
Além da posição de recheio no sanduíche social feito pela burguesia em cima e o proletariado embaixo, a classe média é mal vista pela ambigüidade congênita. Ai dela, porém, se não se defendesse. O sonho de ascender na vida é inibido pelo medo de retroceder na escala social. O desemprego que começa mais embaixo na sociedade sobe pelo elevador de serviço para não chamar a atenção.
Numa etapa histórica de desajuste geral, com uma recessão de matar saudade, a classe média teme descer do nível de consumo a que chegou com sacrifícios. Precisou de uma geração inteira para chegar à idade do automóvel e do eletrodoméstico. A fadiga da esperança leva o pequeno-burguês a assobiar a Marselhesa.
A classe média apostou alto com Fernando Henrique enfeitado com as penas da socialdemocracia mas, com a reeleição malsucedida, investiu em Lula o que sobrou. Não para subir, que o céu ficou mais alto, mas para não descer. O pequeno-burguês brasileiro saiu geneticamente a Emma Bovary e Babbitt. A aspiração social da provinciana e o american way of life de Babbitt juntaram-se, em partes iguais, no pequeno burguês brasileiro. Flaubert se declarou a própria Bovary, como Luís XV se proclamou o Estado, quando criou a provinciana que, ao preço de uma vida perdida, compensou com altos sonhos a insatisfação pessoal. O escritor americano Sinclair Lewis (Nobel de 1930) deve sua reputação literária a Babbitt, publicado em 1922, uma análise satírica implacável do homem de negócios do interior convertido aos valores da vida americana.
Politicamente o Brasil vai (já está indo há algum tempo) para onde se deslocar a classe média. Países que apostam na continuidade democrática contam mesmo, na hora da dificuldade, é com a classe média eternamente dividida entre o sonho da ascensão social e o pesadelo de saber que os benefícios não são para todos.
Por medo da proclamação da república sindical, aceitou o autoritarismo mas ajudou a esvaziar os governos militares. Pediu as diretas e esbaldou-se como opinião pública. Identificou-se com Sarney e o abandonou. Agora é Lula.