Brasil da Silva

O futuro presidente da República carrega um sobrenome tão comum que passou a identificar o país

Augusto Nunes

Diretor do JB

Não há entre os sobrenomes outro tão comum, tão sem valia. Da Silva (ou Silva, simplesmente) é crachá que não identifica, placa que não sinaliza. Para Millôr Fernandes, ''Silva é o anonimato assinado''.

Tornou-se tão comum que, individualmente, deixou de existir. (Chame-se aos gritos, numa rua movimentada, algum ''Silva''. Nenhum voltará a cabeça para conferir, imaginando que estão chamando pelo Silva ao lado.) Em contrapartida, virou o sobrenome da nação. Brasil da Silva.

É a denominação perfeita para o imenso território na América do Sul cujo povo, majoritariamente pobre, acaba de conduzir à Presidência da República, pela primeira vez, um genuíno Silva. Luiz Inácio da Silva, como foi batizado o menino nascido num grotão de Pernambuco. Porque o sobrenome só tem a autenticidade aqui requerida quando caminha desacompanhado.

Pendurado em outros, ganha musculatura, aumenta o valor e às vezes percorre distâncias consideráveis: já não há o problema das pernas demasiadamente curtas. Com escoltas desse gênero, um Silva pode ir longe. Muitos foram.

Com Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, tornou-se mártir da luta pela independência do Brasil. Foi promovido a patrono do Exército com Luiz Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias. Transformou-se em herói das pistas de Fórmula 1 com Ayrton Senna da Silva. Chegou aos cumes do poder pelo voto popular, com Jânio da Silva Quadros, ou pelas armas, com o general Artur da Costa e Silva.

Em todos esses exemplos, insista-se, o Silva era adereço, e poderia ser extirpado sem parecer que houvera mutilação. Muito diferente é o caso de Luiz Inácio da Silva, nascido nas cercanias de Caetés em outubro de 1945. Esse é um Silva puro, incontestado, legítimo, como outros tantos espalhados pelas fábricas do ABC paulista na década de 70.

Naqueles idos, ao emergir da multidão como líder metalúrgico, o apelido que trazia de longe - Lula - tornou-se tão popular que engoliu o nome. Em 1982, incorporou-se oficialmente aos documentos e rebatizou de Luiz Inácio Lula da Silva o homem que vai assumir a Presidência da República.

Para os redatores da editoria de Internacional do jornal americano The New York Times, o eleito foi ''Mr. Da Silva''. Antigas normas vigentes na publicação determinam que quaisquer personagens, sobretudo os chefes de governo, sejam tratadas pelo sobrenome. Afeito aos usos e costumes nativos, o correspondente do jornal tem consumido bom tempo no esforço, até agora inútil, de convencer seus chefes a abrandar algumas regras quando se trata de notícias do Brasil.

Nos últimos anos, ele argumentava que parecia uma esquisitice, aos olhos de leitores brasileiros, aquele ''Mr. Cardoso'' (ou, com muita freqüência, ''Cardozo'', porque americanos amam um z) aplicado ao presidente Fernando Henrique. Nestes meses, o jornalista tem reiterado que, aqui, ''Mr. Da Silva'' é coisa de ianque maluco. Por que não, pelo menos, ''Mr. Lula da Silva''?

''Mr. Lula'', assim acabará sendo tratado o novo presidente por interlocutores de alto coturno, em mais uma evidência de que povo e protocolo, decididamente, não combinam. Para um homem de origem humilde e hábitos simples, como Lula, todo mundo é ''você'' e tem o direito de assim chamá-lo. Mas não se trata dessa forma um presidente da República. Aliás, Senhor Presidente mesmo para velhos conhecidos. E Vossa Excelência para os recém-chegados.

Esses minuetos protocolares e manuais de etiqueta talvez tenham sido pouco estranhos aos Silva que brilharam em Portugal no começo do segundo milênio. O jornalista e escritor Eduardo Bueno, autor de livros indispensáveis sobre a colonização do Brasil, andou estudando o assunto. Bueno conta que alguns adotaram o nome por serem originários de Silves, cidade natal do navegador Vasco da Gama.

Descendiam de romanos e ostentavam títulos de nobreza. Parte da família se instalou em 1185 na Torre de Silva, solar do clã erguido às margens do Rio Minho. A árvore espalhou galhos por muitas paragens. No Brasil, a primeira ramificação surgiu oficialmente em 1612, com o desembarque do alfaiate Pedro da Silva e seus parentes.

Pode-se procurar nessas galharias os antepassados de Lula. Mas, desde a chegada das primeiras caravelas, adotou-se o costume de batizar com sobrenomes comuns tanto escravos quanto filhos nascidos fora do casamento. Por motivos que nenhum sociólogo ainda explicou, Silva ganhou a preferência popular e gerou árvores que não escolhem habitat. Crescem no morro, no sertão, nas dunas litorâneas ou no agreste nordestino. Qualquer lugar.

É possível localizar a origem de um Silva em torres portuguesas. Mas um Silva genuíno costuma vir de mais perto. São filhos do povo. São o próprio povo.

Luiz Inácio Lula da Silva chega à Presidência com a maior votação recebida por um brasileiro. É outra singularidade que lhe vai garantir um lugar na História. Retirante nordestino, operário metalúrgico, fundador da nova esquerda, sem diploma universitário, orador fluente que às vezes claudica no idioma, ele tem a cara do Brasil. Brasil da Silva.

[28/OUT/2002]


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