Domingo, 3 de Junho de 2001
A grande síntese

A evolução de um artista é um contínuo auto-sacrifício, uma contínua extinção da personalidade.
t.s. elliot - Tradição e talento individual

EDINHA DINIZ

O criador da bossa nova, o cantor e compositor João Gilberto, faz setenta anos de idade consagrado pelo alcance planetário da sua criação. Em plena atividade, acaba de ganhar mais um prêmio Grammy por seu último álbum e prepara-se para apresentações no próximo mês nos festivais de jazz de Montreal (Canadá) e de Montreux (Suiça).

A criação original de João Gilberto para o samba, que se internacionalizou com o nome de bossa nova, e que é, até hoje, a contribuição brasileira mais importante à cultura mundial, corre na veia de boa parte da música popular que se faz no mundo. Esse trabalho de transformação do samba e sua consolidação, é obra de uma personalidade artística genial, dessas que surgem de tempos em tempos com uma missão civilizadora heróica. Não é à toa que é qualificado de Mito. Sua trajetória repete a do herói mítico, no combate à banalidade e procura da pureza.

Na sua ascese - estranha ao universo dessa produção industrial que se convencionou chamar de música popular, onde um artista do seu porte parece deslocado - João Gilberto evolui artisticamente no sentido da pureza expressiva. É inútil procurar na sua pessoa a decifração da sua personalidade, em diluição contínua. João Gilberto se dá a conhecer através de sua criação: forte, sutil, surpreendente, despojada e requintada. Os qualificativos da bossa nova são os mesmos do espírito de seu criador, e não poderia ser de outro jeito. É o seu espírito que circula na corrente sanguínea e respiratória de grande parte da música que há quatro décadas se vem fazendo.

A luta de João Gilberto para criar uma saída para a música brasileira popular, que se encontrava atolada no samba-canção, a luta para ter uma oportunidade de gravar, a luta para defender suas idéias estéticas e fazer valer sua vontade entre arranjadores, músicos e técnicos de som nas primeiras gravações, a luta para defender sua criação do modismo comercial aqui e nos Estados Unidos, a luta para impor sua criação como som e não como dança, quando ela apareceu no cenário internacional, a luta para reapresentar seu trabalho depois das imitações empobrecedoras, a luta para evitar as diluições e a fórmula em série, a luta para colocar o Brasil no cenário musical internacional, enfim, a luta para fazer pulsar no mundo o 2/4 do samba brasileiro na sua forma requintada e cool, é a luta de um artista de caráter inquebrantável, vontade férrea e convicções profundas.

Essa luta não teria sido vitoriosa sem o alto nível de exigência de João Gilberto. É visível no trabalho do artista, como em todo verdadeiro artista, a luta para fazer sobreviver o que não pode morrer, o que vale a pena viver, o que ele não pode deixar morrer. O trabalho de João Gilberto em realizar aquela beleza que ele vislumbrou na música brasileira ainda menino, que lutou para modernizar e salvar e que continua lutando a cada gravação para registrar da forma mais perfeita e definitiva, é o trabalho de quem se entrega a algo que sabe ser mais valioso. Assim, ele faz a bossa nova representar, com elegância, a riqueza musical do povo brasileiro, apesar das circunstâncias históricas que fizeram o país dependente e pobre.

Seu nível de exigência, é claro, conflita muitas vezes com os interesses imediatistas do mercado, onde causa espanto a figura do artista que despreza o sucesso, é indiferente à história e se recusa a construir uma carreira convencional. Parece mesmo deslocado, no mundo do showbiz, esse artista isolado, inteiramente dedicado à pesquisa da linguagem formal, vivendo em silêncio, a serviço da música.

O fenômeno

O gênio criador se revela a raros eleitos, a quem confia os mistérios da criação e concede a capacidade de mudar o rumo da história e dar à arte a regra. A genialidade é dom, mas a grandeza capaz de sustentá-la é trabalho humano, esforço pessoal do artista devotado ao seu ofício e consciente da tarefa de elevar os outros à altura da sua arte.

Não podemos ver a montanha de perto, segundo frase proverbial. Será que esses mais de quarenta anos já são suficientes para vislumbrarmos melhor a grandeza de João Gilberto? Fenômeno raro na história de uma cultura, o do artista que surge para fazer avançar um processo e ampliar a percepção humana um pouco mais adiante no Caos.

Muito mais que um fenômeno vocal ou mesmo musical, João Gilberto é um fenômeno artístico que se manifesta através da música. Essas personalidades artísticas capazes de grandes sínteses parecem desafiar a compreensão humana. As circunstâncias históricas que serviram de contexto para a sua criação podem ser interessantes e até curiosas, mas soarão sempre insuficientes diante da universalidade de sua obra.

Observa o filósofo americano Ralph W. Emerson, um estudioso da natureza dos grandes homens, que a grande força genial consiste menos em ser original do que em ser receptivo aos materiais já trabalhados e amados pelo povo. Porque, assim, o artista aumenta seus recursos e compensa a brevidade de uma vida humana, já que a tradição proporciona um material melhor do que qualquer invenção individual. O maior gênio, diz ele, resulta ser o homem mais endividado. Quando constatamos a perenidade da criação de João Gilberto e a corrente de onde ela emana, o samba, não podemos deixar de pensar a relação do seu trabalho com a tradição, modernizando-a.

Essa personalidade artística, considerada mundialmente das mais originais da contemporaneidade, tem uma trajetória relativamente simples, comparada à complexidade da sua criação. A exemplo de outros grandes, os traços da sua genialidade permanecem esse mistério insondável, como é insondável a criação. Não adianta: uma rosa é uma rosa é uma rosa, nos ensina Gertrude Stein. Querer explicar a rosa é tentativa estéril. Ela é um mistério como a beleza é um mistério. Ponto.

A trajetória de João Gilberto começa no interior do país, onde ele nasceu em uma família de vários músicos amadores. Duas bandas, a Sociedade Filarmônica 28 de Setembro e a Sociedade Apolo Juazeirense, e o serviço de alto-falantes da rádio local enchiam de música o ar da cidade. O menino Joãozinho, desde cedo, encantou-se com a música; com aquela música que se fazia no Brasil da época. Ali teve tempo para ouvir a produção musical popular e se familiarizou com o samba. Guardou consigo esse encanto por todo o tempo em que estudou interno, passando pelo conjunto Enamorados do Ritmo, que formou ainda em sua cidade, pela atuação como crooner em uma rádio de Salvador, até chegar ao Rio de Janeiro para integrar o conjunto vocal Garotos da Lua. No ambiente musical carioca, ocupado comercialmente pelo samba-canção e pelo jazz norte-americano como influência, aquela convivência com o samba se revelou fundamental. Amizades como a do compositor Bororó, só reforçaram sua convicção da beleza da música brasileira que não era mais ouvida na capital do país. A musicalidade excepcional, a convivência com o samba, o amor profundo pela tradição, a capacidade de síntese, a convicção da beleza da música brasileira, e muito, mas muito trabalho de pesquisa formal, além do mistério, é claro, tudo isso resultou na criação que virou de ponta-cabeça a música brasileira e impactou o mundo da música.

A novidade nasceu pronta, inteira, em um disco de 78 rotações. Seguiu-se mais um 78 rpm e os três LPs da Odeon (hoje fora do mercado por determinação judicial). E a criação de João Gilberto ganhou o mundo. Como a novidade era estilística, a bíblia pela qual rezavam os seguidores eram os discos. E o Brasil passou a exportar música popular. O fato de João Gilberto trabalhar sua sonoridade a partir de canções, confundia a indústria do disco. Não percebiam (e será que já percebem?) que ali estava uma linguagem sonora universal, e preveniram o consumidor na capa do primeiro álbum lançado dos Estados Unidos (em fins de 1961) com um esclarecedor pops in Portuguese. A gravadora brasileira se admirava do interesse, pois achava a língua uma barreira à exportação. Na época, a Odeon se limitava a exportar para as possessões portuguesas na África discos manufaturados de José Vasconcelos contando anedotas... de português.

A onda que atingiu o auge no Brasil em abril de 1960, quando o Rio parecia querer compensar a perda da posição de capital federal se autoproclamando capital da bossa, atingiu os Estados Unidos no outono americano de 1962. Dezenas de jazzistas correram aos estúdios para não perderem a onda da bossa nova como haviam perdido a do twist, na esteira do sucesso do LP Jazz Samba, de Stan Getz e Charles Byrd, lançado em abril, e na lista dos mais vendidos da revista Bilboard, onde permaneceu por 70 semanas. Um concerto foi agendado em Nova Iorque para promover a bossa nova com João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que se apresentavam na casa carioca Au Bon Gourmet. Publicações especializadas como Variety e Cashbox anunciaram a ida das três personalidades, numa promoção da gravadora Audio Fidelity. O interesse do produtor Sidney Frey, dono da gravadora, em ter músicas inéditas para editar no mercado americano e o apoio do Itamaraty, conseguindo da Varig grande quantidade de bilhetes aéreos, terminou por incluir no concerto uma caravana de amadores. Como definiu o cronista Antônio Maria, tratava-se de uma viagem-CTP (com tudo pago) e, na sua opinião, brasileiro adora viajar, com tudo pago.

Recebido com as honras concedidas aos grandes músicos na pátria do jazz, João Gilberto ganhou contratos, greencard e licença para trabalhar nos Estados Unidos. Depois da gravação de Getz/Gilberto, excursionou pela Europa e retornou a Nova Iorque, ali se estabelecendo. Só voltou a residir no Brasil dezessete anos depois, quando seu trabalho de difusão da moderna música brasileira já se achava consolidado e a vitória da bossa nova no exterior era um fato.

Descompasso & confusão

Aí se deu o descompasso. O construtor de uma nova percepção estética e sensibilidade musical voltava ao país, onde a música popular se envolvera na resistência política ao regime militar, adotando até sigla, a exemplo dos partidos políticos. O salto qualitativo que João Gilberto deu à música brasileira entrou em descompasso com o recuo do país durante a longa ditadura.

O Brasil parecia não acompanhar o que se passava com sua própria música lá fora. Já tão avançada como linguagem, ocupando o mercado internacional com o sucesso de Getz/Gilberto, internamente a música popular servia a interesses de comunicação, mais que de expressão. Foi desviada para a canção, que muitas vezes faz a música ser apenas mediadora de conteúdos informativos. Tornou-se discursiva e declamatória. A canção afastou-se tanto da música que virou literatura. Naqueles tempos da não-sutileza, a bossa nova foi banida sob a alegação de ter letras alienadas (sempre letras!), sem que se atentasse para sua eficácia como arte. Ao contrário da bossa nova, que traz uma forma revolucionária, a canção brasileira desse período trabalhou com um conteúdo ''revolucionário'' e uma forma conservadora.

Cada vez mais afastada da música, a canção não está conseguindo enfrentar os tempos atuais, de banalidade, em que também a palavra, outrora privilegiada, perdeu seu valor ou não tem mais o que dizer. E a ''música'' popular virou coreografia. Enfim, para os que amam a música brasileira, a situação atual é desoladora. Para onde olhar em um momento desses?

A contribuição de João Gilberto ainda está longe de ser avaliada. Não se sabe nem mesmo do que se está falando, quando se fala de bossa nova. No longínquo ano de 1960, no auge da popularidade, a revista Radiolândia realizou enquete sobre o assunto e, perguntado sobre o que achava da bossa nova, o cantor Agostinho dos Santos quis saber de que bossa nova se estava falando, se de geladeira, música ou lançamento imobiliário. Porque, naquele momento, bossa nova havia se tornado expressão coringa para designar tudo que era novo. E a publicidade fez a festa, é claro.

Agora, quarenta anos depois, geladeira e lançamento imobiliário já não contam, mas a festa publicitária continua. Sobretudo da indústriafonográfica. Do que é mesmo que se fala, quando se fala de bossa nova? A confusão sobre o assunto é grande. Em geral, estão falando, sem critério, de três coisas distintas: a linguagem musical criada por João Gilberto, caracterizada por uma sonoridade original; o repertório gravado por ele ou composto no seu estilo; a movimentação de jovens músicos da zona sul do Rio de Janeiro entre o final dos anos cinqüenta e início dos sessenta, influenciados por sua criação (neste caso, mais comumente grafada em caixa alta, como substantivo próprio).

A sonoridade

O que importa, do ponto de vista estético, é a linguagem, devido à sua universalidade. É preciso entender a grande contribuição de João Gilberto como a criação de um som, uma linguagem caracterizada por uma sonoridade original. A famosa batida, hoje considerada mítica e sagrada, foi a primeira coisa a chamar a atenção e, para os leigos, é ainda o que define a tal bossa nova, pois foi o elemento novo mais imitado. Mas a batida é apenas o esqueleto, digamos assim, da bossa nova. João Gilberto trouxe para a música brasileira uma solução de sonoridade que não foi superada. Esse som que ele persegue incansavelmente, e onde aquele ritmo tem uma função, resulta em uma composição sonora com profundidade, dinâmica, naturalidade, síntese; enfim, um som com todos os elementos rimados. Uma síntese sonora.

Reduzir a bossa nova à batida é simplificá-la e engessá-la. É deixar de fora a sonoridade nova e original, a polirritmia voz/violão, os deslocamentos de acordes na sua novidade harmônica, a sincronização excepcional, o moto-contínuo, o pedal, o fraseado entre os acordes, a mixagem voz/violão, o som atuando sobre o tempo, o legato, a declinação do swing e mais e mais e mais inúmeros elementos que fazem com que ouvir o som de João Gilberto seja uma experiência estética única.

É interessante observar como a arte de João Gilberto mantém ponto de contato com a arte contemporânea, onde a figura (nas artes visuais) - como o tema (na obra de João Gilberto) - deixa de ser o foco da arte para dar lugar à rede de relações estéticas produzidas pelo artista.

O trabalho de João Gilberto com o tempo, por exemplo, é o de um artista revelador do ilimitado, para quem a música não é espaço para fatos episódicos, mas campo para realização concreta de situações temporais oferecidas à percepção pura e direta.

Como autor de um som, João Gilberto é muito mais que um compositor de temas musicais, embora seja também re-compositor de tudo que recria. O jazz sabe o valor do artista que tem um som próprio, mas o Brasil parece ter sentimento de inferioridade, pelo seu elevado índice de analfabetismo, e tende a superestimar o compositor, sobretudo quando este sabe escrever música.

Como, de resto, em toda grande arte, na obra de João Gilberto o tema é apenas pretexto para a composição sonora, onde se dá de fato a criação. Alguns, entretanto, não alcançam essa compreensão e cobram do artista, incessantemente, canções novas, repertório novo. Como se o novo estivesse na canção, no tema, e ele fosse um mero intérprete de canções. Para um artista do seu porte e um performer da sua excepcionalidade, a criação está no que ele faz com a canção. Além do que, a recriação contínua e permanente dos mesmos temas lhe permite tornar a temática mais densa. Exigir repertório novo é insistir no conteúdo em detrimento da forma, expressão mais elevada.

A canção pode ser um constrangimento para um grande músico, devido à sua descritividade narrativa. João Gilberto, no entanto, submete a palavra a mais um elemento sonoro naquela sonoridade total e ainda lhe extrai ritmo. Na música tratada por ele, o que se oferece é som, a canção enfim livre das contingências e dirigida à percepção.

Esta é apenas uma das muitas abordagens sugeridas pela arte de João Gilberto. Há todo um universo estético ainda a descobrir na sua obra, que está à espera de um estudo profundo e sério, como ela merece. Um esforço isolado é incapaz de dar conta do assunto.

Bem, mas essa história continua. E continua no próximo mês, no Festival International of Jazz em Montreal, Canadá, e no Montreux Jazz Festival, na Suíça, quando The Brazilian Legend estará se apresentando.

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