Domingo, 3 de Junho de 2001
Um mestre desde que o samba era samba

Com ''Chega de Saudade'', João Gilberto mudou a música brasileira e deu novas linhas para as gerações seguintes

Tárik de Souza

Antonio Nery
João, Tom, Vinicius e Os Cariocas

João canta ao lado de Tom, Vinicius e de Os Cariocas no Au Bon Gourmet, no Rio: a bossa nova recicla os compositores do passado e aponta as setas para o novo futuro

Aos 17 anos, quando Caetano Veloso ouviu a música Chega de saudade num daqueles bolachões de 78 rotações na voz de João Gilberto operou-se, segundo ele, uma mudança em sua ''perspectiva estética e existencial''. Edu Lobo guardou o momento exato da mesma audição, que lhe deu ''um grande susto'' e estimulou-o a tornar-se músico. Chico Buarque pediu dinheiro ao pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, rodou a cidade atrás do disco (morava em São Paulo na época) e ficou uma tarde inteira com um amigo tentando decifrar os acordes e a batida de violão do cantor. Lançada em agosto de 1958, a faixa entraria no ano seguinte no LP de estréia de João Gilberto, cuja contracapa assinada pelo responsável pelas orquestrações, um certo Antonio Carlos Jobim, diagnosticava antecipadamente o fenômeno.

Depois de descrevê-lo como ''um baiano bossa nova de 27 anos'', ACJ soltava a bomba: ''em pouquíssimo tempo influenciou toda uma geração de arranjadores, guitarristas, músicos e cantores''. Ou seja, JG já estreava mestre e líder de um movimento que viraria de pernas para o ar as questões harmônica, rítmica, melódica e poética da chamada linha evolutiva da MPB. ''Quando João Gilberto se acompanha, o violão é ele, quando a orquestra o acompanha, a orquestra também é ele'', decupou Jobim.

Um dos segredos desse sortilégio é dissecado no meticuloso ensaio de Walter Garcia, Bim bom, a contradição sem conflitos de João Gilberto (Editora Paz e Terra, 1999). O autor acredita que ''o canto falado de João Gilberto ao se equilibrar no fio entre a origem e o desaparecimento do próprio ato de cantar concilia o ritmo da fala e o ritmo da música''. Em entrevista ao autor deste texto, o próprio João, em 1971, depois de criticar os cantores afogados em vibratos que prejudicavam o balanço natural da música, comparou a ''um golpe de karatê'' seu encaixe preciso de violão e voz.

Para Garcia, a célebre batida do violão joãogilbertiano organiza-se ''articulando ritmicamente a regularidade do baixo e a não regularidade dos acordes''. Ela seria transposta para a bateria através do célebre acento no tempo fraco consolidado em diferentes formatos por ases como Milton Banana, Dom Um Romão, Edison Machado, João Palma e Juca Stockler e achatado mundo afora por baquetas menos talentosas.

Mas a revolução do cantor/autor/violonista através de seu desempenho minimalista acoplado a uma postura artística ascética ainda tem outros mandamentos. Uma importante tábua de suas leis reside na escolha escrupulosa do repertório e no obsessivo trabalho de recriação de cada tema, muitas vezes sintetizado no ato de despir-lhe os adornos.

Lançados entre 1959 e 1961, os três primeiros LPs do cantor (pela ordem, Chega de saudade, O amor, o sorriso e a flor e João Gilberto) constituem a pedra filosofal de sua obra, desenvolvida posteriormente em associações com o saxofonista de jazz Stan Getz e as cantoras Astrud e Miúcha mais arranjadores como Claus Ogerman e Clare Fischer. Nos discos fundadores, João mescla o material produzido pelos autores engajados no movimento (Tom Jobim, Newton Mendonça, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli) a composições de antecessores das áreas do samba (Dorival Caymmi, Bide e Marçal, Ary Barroso, Geraldo Pereira) e outras bossas como o cearense Lauro Maia da marchinha Trem de ferro, de 1943.

Há até uma versão (também em cadência de marchinha) de uma música americana, Trevo de quatro folhas (por Nilo Sérgio) e definidoras composições do próprio cantor, como Bim bom (''é só isso o meu baião/ e não tem mais nada não/ o meu coração pediu assim''), o bolero Hó-ba-lá-lá (''quem ouvir o hó-ba-lá-lá/ terá feliz o coração'') e o tema instrumental Um abraço no Bonfá, reprocessamento do choro O barbinha branca, parceria de Luis Bonfá e Jobim.

Tais escolhas que também confrontam o samba do Estácio (A primeira vez), o sincopado de gafieira (Bolinha de papel), o sutil sotaque baiano de Caymmi (Samba da minha terra, Rosa morena, Doralice), a pirotecnia de Ary Barroso (É luxo só, Morena boca de ouro) e os temas coloquiais de Lyra (Saudade fez um samba, Lobo bobo, Maria ninguém), Jobim & Mendonça (Desafinado, Samba de uma nota só,, Meditação, Discussão), Menescal & Bôscoli (O barquinho) defendem uma tese fácil de depreender. A de que mais que um estilo ou gênero (ainda que esse também exista), a bossa nova erigiu uma forma de cantar/tocar/atuar a partir do molde forjado por João Gilberto.

Atento ao (contra)peso do ícone, ele até omite a passagem ''isso é bossa nova/ isso é muito natural'' ao recantar Desafinado. Fiel à árdua simplicidade garimpada na exaustiva depuração, sabe que o rótulo mais aprisiona que define. E para quem fez a cabeça de várias gerações da MPB, do jazz e até a de roqueiros como Eric Clapton (ouçam seu disco mais recente, Reptile) não há limites entre ''o tempo e o som'', como balizaria seu discípulo Caetano na anti-ode Saudosismo. Sua obra em progresso permanece renovadora e dissonante no universo monocultural que assola o país.

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