Quando tudo continuou

Lembra o capítulo anterior, quando falamos da descoberta da baía, em 1502, pelas três naus portuguesas comandadas por Gonçalo Coelho? E depois, até 1811, quando mais de cinco mil navios já aportavam na Guanabara e toda a desgraça ambiental teve início? Pois bem. Hoje, nós vamos continuar contando um pouco da sua história ecológica. Vamos lá!

Pois foi assim. A partir desta época, o crescimento, tanto populacional quanto comercial, do Rio não era seguido pela oferta de serviços públicos. Ao contrário, verificava-se uma pressão cada vez maior sobre os recursos naturais da região, sem qualquer contrapartida do Estado que, pelo menos, amenizasse os impactos das atividades humanas na natureza. Durante séculos, esgotos da população da Bacia eram jogados em fossas, sumidouros e valas a céu aberto. O resultado foi a contaminação dos solos, das vias públicas e dos lençóis freáticos, na Baixada, principalmente, por uma questão de gravidade natural.

No Rio de Janeiro, os dejetos e o lixo das moradias eram transportados em barris por escravos, chamados de "tigres" devido às manchas produzidas nos seus corpos pela carga que levavam para despejar, durante à noite, nas valas e praias.

Somente a partir de 1853, uma companhia inglesa iniciou a coleta de esgoto nas áreas mais antigas da cidade. E, a partir de 1862, passou a seguir para a Estação de Tratamento de Esgoto da Glória, a primeira do Brasil, construída onde? Em uma área aterrada - a primeira de uma série histórica - da Baía, junto ao Outeiro da Glória. O lixo coletado regularmente em algumas áreas do Rio, a partir de 1847, passou a ser depositado no Caju, nas ilhas de Sapucaia e Bom Jesus, e na enseada de Inhaúma. Avançava, em conseqüência, a destruição de manguezais com os depósitos de lixo.

Essa situação se estendeu pelo século XX, com o Aterro de Gramacho, localizado exatamente onde pulsava a vida, e a população ignorante achava que eram apenas brejos feios e perigosos os manguezais da orla de Duque de Caxias. Ali, para esconder o "feio" da natureza, eram despejadas seis mil toneladas diárias de lixo vindo do Rio de Janeiro e dos vários municípios da Baixada Fluminense. Em São Gonçalo, o lixão de Itaoca, situado também nos manguezais, se revelou uma ameaça à hoje ecológica Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim.

Até meados do século XIX, o abastecimento de água no Rio de Janeiro dependia dos rios, poços, cisternas particulares, bicas e chafarizes públicos. Os escravos eram os responsáveis pelo transporte da água até as casas. A partir de 1850, o sistema de bicas e chafarizes tornou-se insuficiente. Também já não havia tantos escravos disponíveis para realizar o abastecimento doméstico. A possibilidade de um colapso levou o Estado a construir uma rede de distribuição de água. Mas a água comercializada chegava apenas às camadas privilegiadas da sociedade. Os menos abastados dependiam do sistema antigo.

Todos estes fatores fizeram emergir uma situação ambiental caótica na Bacia da Baía de Guanabara. Foram séculos de desmatamento, aterros e ocupações de áreas alagadas. O comprometimento dos recursos naturais, aliado aos problemas sanitários, repercutiu na saúde da população, que enfrentou diferentes epidemias. Na Baixada Fluminense, o assoreamento dos cursos d'água afetou seriamente a navegabilidade, essencial para a economia da região. A cidade do Rio de Janeiro passou a se deparar com a falta de água, devido à redução dos mananciais do Maciço da Tijuca.

A gravidade da situação levou D. Pedro II a desapropriar áreas e a realizar a primeira experiência de reflorestamento do País, com o objetivo de recuperar os mananciais. Essa iniciativa deu origem ao que hoje conhecemos como Parque Nacional da Tijuca. A Bacia Hidrográfica da Baía de Guanabara, nesses seus 500 anos de uma beleza teimosa, já registrou enormes prejuízos ambientais. Ela perdeu um quinto da área da própria Baía e artificializou, concretou, asfaltou, quase toda a orla, com a eliminação de praias e enseadas naturalmente encantadoras. Isso, a partir dos aterros implantados do litoral de Botafogo até Duque de Caxias, na orla ocidental, e de Niterói a São Gonçalo, na orla oriental.

Os cariocas e fluminenses (favor não confundir com o meu time do coração) destruíram quase dois terços de Mata Atlântica e manguezais. Eliminaram 37 das 39 lagunas que Deus lhes deu. E fizeram desaparecer, com o tipinho de autoridades e administradores que tiveram ao longo da história recente, mais de dois terços dos brejos, alagados e pântanos. Não fosse a duna grande de Itaipu, tombada pelo Patrimônio Histórico, devido aos sítios arqueológicos, já teria ocorrido a eliminação total das restingas, dunas e terraços marinhos que encantaram os descobridores portugueses.

A sua Bacia formada por 55 rios e córregos, continua sendo agredida e seus recursos naturais, ainda maravilhosos, degradados tal acontecia durante a colonização. Mas, nem por isso, a Guanabara perdeu a sua magnitude histórica, ambiental, política e econômica. Os 15 municípios que formam essa região abrigam quase 11 milhões de brasileiros. É a segunda metrópole do Brasil e a quarta da América Latina. Em termos populacionais, a Bacia da Baía de Guanabara é superada apenas pelas cidades do México, Buenos Aires e São Paulo. Ela é o segundo parque industrial do País, com 14 mil indústrias, das quais seis mil ainda são o quê, fazem o quê na calada da noite ou nos dias ensolarados de consciência ambiental alguma?

É o que, nem São Sebastião acreditaria, a gente vai continuar contando na próxima lua cheia, 26 de maio. Aguarde! Beleza e riqueza que resistem

A Baía da Guanabara é um patrimônio natural estratégico. São 300 km2, com uma profundidade de até quatro metros. Nas suas margens estão sete municípios, onde vivem mais de 8 bilhões de habitantes. Mas são 15 os municípios que dependem, total ou parcialmente, das águas dos 35 rios que deságuam na bacia hidrográfica da Baía: Nilópolis, São João do Meriti, Belford Roxo, Duque de Caxias, Magé, Tanguá, Itaboraí, São Gonçalo, Guapimirim, Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Petrópolis, Cachoeiras de Macau, Rio Bonito e Niterói.

O ecossistema da região é integrado por floresta pluvial tropical e manguezais. Quatro unidades de conservação são fundamentais para a preservação da biodiversidade natural que restou e ainda resiste à degradação: a Reserva Biológica Rebio Tinguá, a Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim, o Parque Nacional da Serra dos Órgãos e a Área de proteção Ambiental (APA) de Petrópolis.

Fonte: Ministério do Meio Ambiente/www.baiadeguanabara.com.br

[28/ABR/2002]

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