Sem coral... não dá onda!

Calma! Coral dá onda, sim, mas não é alucinógena. O barato aqui é outro.

Marcelo Baglione

Há pouco tempo, bem no início de 2002, foi lançado nos cinemas brasileiros Surf Adventures - O Filme. Na minha opinião, um dos melhores documentários já produzidos no gênero, pois conseguiu mesclar tudo o que há de bom no surf, porém poucas vezes mostrado. O surf ciclópico (sem neurônio) das ondas gigantes de Mavericks é um das partes que mais me encanta. É medonho! Chega a ser heróico.

Embora não seja um praticante, sempre gostei deste esporte, ainda mais se tratando dos paraísos encantados das ondas perfeitas, magnificamente apresentados - com todas as bênçãos de Iemanjá - nesta talentosa produção nacional, através da qual você pode se deliciar com as ondas e tubos perfeitos do arquipélago de Mentawai, situado na costa sudoeste da Ilha de Sumatra; além, é claro, de Pipeline, no Havaí.

Entre as variáveis geoclimáticas e ambientais que transformam estes lugares em santuários do surf, sabe qual é a mais importante? O fundo de coral! As bancadas de corais tornam estas ondas perfeitas, especiais, como em nenhuma outra parte do mundo. No entanto, você tem idéia do que vem acontecendo aos corais nos últimos vinte anos? Não? A concentração perigosa - e a emissão geocida - de gases efeito estufa na atmosfera, especialmente do dióxido de carbono (CO2) que já atinge o seu maior nível nos últimos 420.000 anos, terminou gerando um aquecimento global e, consequentemente, uma elevação das temperaturas da superfície do mar - TSMs.

Além disso, a média de temperatura global registrada de 13,8 graus em 1950, para 14,6 em 1998, fez com que os termômetros da Terra registrassem os índices mais elevados dos últimos 1.200 anos.

Entendeu o problema? Os corais não são seres do deserto - ou do inferno! - para suportarem uma elevação drástica na temperatura dos oceanos. Pelo que se sabe, os corais são extremamente sensíveis às alterações nas temperaturas da superfície do mar. Quando essa faixa de limite térmico é ultrapassada, os corais sofrem um "branqueamento": o sinal de alerta para este bioma, pois os corais são uma significativa fonte alimentar e protetora de muitas espécies que ali vivem em simbiose. Esta pereba marinha, digamos assim, é apenas uma das muitas patogenias que vêm afligindo os corais no Caribe e nos oceanos Índico e Pacífico, por exemplo. Isso sem falar nas outras espécies que subsistem nesse mesmo ecossistema e que também estão sofrendo a mesma moléstia.

Mas a ziquizira não termina aí. Sofrem acentuadamente a economia pesqueira, turística e todos os que de alguma forma dependem deste imprescindível ecossistema.

A Assembléia Geral da Nações Unidas declarou que 2002 é o Ano Internacional do Ecoturismo, um caminho desejável para o desenvolvimento de uma economia sustentável que se firma numa explotação equilibrada da natureza como um todo, mantendo, assim, um laço fraterno - que sempre existiu, apenas deve ser restaurado - entre homem e meio ambiente.

Ecoturismo, esta onda perfeita pode dar muitos frutos: corais sadios.

A febre da ganância econômica está precisando de um antitérmico socioambiental porque não é só a temperatura da atmosfera e dos mares que deve baixar! É o clima entre os homens que deve melhorar.

Odò Íyá!!!

Aloha!!!

[28/ABR/2002]

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