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Páginas Verdes: “A Amazônia será apenas uma memória”

Marcos Sá Corrêa, jornalista e fotógrafo

Da Praia do Forte, Bahia - Por ser um dos jornalistas mais brilhantes do país, chama a atenção a facilidade com que Marcos Sá Corrêa abandonou o jornalismo convencional, depois de 30 anos, durante os quais foi diretor de redação do Jornal do Brasil e editor das revistas Veja e Época, para se entregar com autêntica paixão ao jornalismo ambiental. Seu envolvimento com o meio ambiente chega a tal ponto que criou um site (oeco.com.br), “feito”, segundo ele, “para ser uma escola de jornalismo ambiental”.

A natureza, como se vê, levou a melhor com a decisão desse carioca, de anos, que tem dentro de casa exemplo de jornalismo de primeira, pois é filho do respeitado analista político Villas Boas Corrêa.

Marcos se considera, essencialmente, fotógrafo.”Eu fotografava desde menino e tinha um interesse por coisas da natureza, mas não muito definido como preocupação com o meio ambiente”, lembra ele. Mas, “o grande acidente”, responsável pela mudança da política para o ambientalismo, foi a leitura do livro “A Ferro e Fogo”, do americano Warren Dean. “É a história do Brasil contada do ponto de vista da degradação ambiental”, explica ele, observando: “É curioso como este livro mudou a minha percepção da realidade”.

Ele confessa que também contribuiu, e muito, para que se voltasse para o ambientalismo o fato de já não suportar mais o jornalismo político: “Não aguento mais ler nem jornal nem revista. Hoje, eu realmente acho o assunto de segundo time, com pessoas de quinto escalão”.

O mesmo linguajar duro, ele usa nas críticas ao governo federal. “O governo Lula é um desastre trágico”, afirma, para em seguida, lançar outro petardo: “a leviandade ambiental do governo Lula é um marco histórico”.

De tudo, no entanto, o mais impressionante é o seu vaticínio para a Amazônica. O jornalista acredita, baseado na teoria de outro americano, John Terborgh, maior especialista do mundo em florestas tropicais, que elas desaparecerão antes de 2050. “ O meu filho, provavelmente, vai viver em um Brasil no qual a Amazônia será uma memória”, comenta.

Nas páginas seguintes, os principais trechos da entrevista concedida à JB Ecológico, antes de participar do seminário sobre Jornalismo Ambiental e a Indústria, promovido pela Cetrel, do qual foi o principal palestrante.

JB Ecológico – Marcos, fale um pouco da sua trajetória no jornalismo.

Marcos Sá Correia - Eu entrei para o jornalismo por acidente. E me considero sobretudo fotógrafo. Eu era fotógrafo desde menino e tinha um interesse por coisa de natureza, mas não muito definido como preocupação com o meio ambiente. Além disso, eu estudava história. Mas, se me perguntassem o que eu queria ser, diria fotógrafo. E acabei indo trabalhar como fotógrafo no Jornal do Brasil. Acho que isso foi em 1967. Eu já havia publicado vários trabalhos de fotografia, inclusive em revistas estrangeiras. Quando estava fazendo este trabalho para o JB, foi aberto um concurso para formar a primeira equipe do que viria a ser a revista Veja. Fiz o concurso com a fantasia na cabeça: se a Editora Abril ia lançar uma coisa nova, só poderia ser um derivado da revista para a qual todo fotógrafo sonhava trabalhar, a Realidade. E quando eu consegui a vaga, descobri que era para fazer uma revista semanal que, naquela época, quase não tinha fotografia. Era uma maçaroca de mais de 100 páginas, com muito texto e pouquíssimas imagens.

JBE – Mesmo assim, você revolveu ficar.

MSC – O lugar era bom e resolvi experimentar. Então, fui mandado para a minha cidade, o Rio de Janeiro. Foi em meados de 1968, o ano das passeatas, do AI-5 e da grande crise do governo militar, que acabou se endurecendo por mais de uma década. De repente, eu estava em uma cidade que não tinha voltado a ser capital, mas voltado a ser o centro da confusão, porque toda a doença de Costa e Silva foi lá. Tudo estava acontecendo no Rio. E eu tinha vantagem sobre os outros repórteres, por ser filho de um jornalista político, o Villas Boas Corrêa. Então, tinha um pistolão. Por exemplo, uma das coisas dificílimas era obter informações de dentro do Palácio das Laranjeiras, onde estava internado Costa e Silva. Por causa do meu pai, eu conhecia o assessor de imprensa, Carlos Chagas, desde menino. Então, eu tinha livre acesso. E comecei a ser usado para furar bloqueio. Quando eu vi, tinha tomado gosto pela profissão. Era uma coisa que parecia importante. Depois, a gente achava que manter uma cobertura política era uma maneira de se engajar em um ato de resistência, que não fosse pegar em armas. Dava aquela sensação de estar no meio dos acontecimentos, a história está passando na sua frente. Por tudo isso, eu fui ficando.

JBE – E o que foi que fez você largar tudo e passar a escrever sobre meio ambiente?

MSC – O grande acidente que mudou o meu percurso, foi que, literalmente, caiu na minha cabeça um livro que talvez esteja entre os cinco mais importantes que já li: “A Ferro e Fogo”, do escritor americano Warren Dean. É a história do Brasil contada do ponto de vista da degradação ambiental, do desperdício que foram os 500 anos de relação do país com a Mata Atlântica. É curioso como este livro mudou a minha percepção da realidade. Eu saía para fazer aquelas viagens bestas de fim de semana e não via mais a paisagem, mas o que estava faltando nela, porque a grande característica da paisagem brasileira é o que não está mais lá. E dali, eu fui mudando. E por causa do espaço que o meio ambiente passou a ter na minha vida, acabei me incompatibilizando com os meios de comunicação convencionais do Brasil. Fui parar na internet.

JBE – Por que a imprensa brasileira, de uma maneira geral, dá tão pouca importância à cobertura de meio ambiente?

MSC – Eu acho que é por causa de um círculo vicioso que não se quebra nunca, porque a opinião pública brasileira não dá importância ao meio ambiente. Eu acho que o brasileiro é historicamente vacinado contra preocupação ambiental, pelo mito de que isto aqui é uma natureza espantosamente exuberante, dadivosa e que não vai acabar nunca. O mito fundador do Brasil é de que aqui tudo está disponível para se pegar. É um país para ser apropriado como se fosse a invasão de um território estrangeiro. É assim que o Brasil foi colonizado.

JBE – Você não acha que essa mentalidade está mudando um pouquinho?

MSC – Não. Está vivinha. Uma das provas disso é que em meados da década passada, ou seja, não faz tanto tempo assim, naquele labirinto de favelas que é o Rio de Janeiro, o historiador José Murilo de Carvalho fez uma pesquisa pela Fundação Getúlio Vargas que se destinava a verificar quais eram as idéias mais fortes das noções brasileiras de cidadania. Quando era perguntado qual o maior orgulho que tinham do Brasil, o que vinha em primeiro lugar era o verde de nossas florestas. Ganhava longe do futebol, da música popular, da beleza das mulheres, enfim, desses chavões da brasilidade. Era um mistério, porque o sujeito que estava dizendo isso, provavelmente, nunca teve a chance de ver uma floresta na vida, já que as matas acabaram na área em que ele mora. Na época, o José Murilo tentou procurar uma explicação de onde vinha essa coisa e bateu em um negócio que se chama mito edênico. O Brasil foi criado na propaganda de que isso aqui era o paraíso terrestre e deixou entranhado na cabeça de todo brasileiro essa coisa do mito edênico. O brasileiro acredita que também que não pode cuidar da natureza. É a natureza que tem que cuidar dele. A graça do mito edênico é que é a natureza que cuida de você e não você que cuida da natureza. E para isso ela precisa ser mantida poderosa, inquebrável e uma coisa que não tem fim. Portanto, uma coisa que jamais precisa ser cuidada.

JBE – E, em termos ambientais, o que você tem a dizer do governo do presidente Lula?

MSC – É uma tragédia. A não ser que a opinião pública mude de lado e, mudando de lado, ela crie uma demanda por ações ambientais, é muito difícil que um político, de qualquer tipo, bom ou ruim, safado ou não, se coloque contra a corrente majoritária da opinião pública. O que é o grande projeto da Marina Silva senão uma tentativa de antropizar o meio ambiente, ou seja, ela conseguiu converter toda a política ambiental brasileira numa política de ocupação da Amazônia por reservas extrativistas, reservas de seringueiros. Isso nunca foi ambientalismo. É uma aliança eventual como uma política ambiental que precisa criar espaços de transição e para isso a reserva extrativista é, sem dúvida, melhor na Amazônia do que uma criança intensiva de gado. Mas não é conservação.

JBE – Já que você falou na ministra Marina, como é que vê a atuação dela como um todo?

MSC – Ela tinha uma total inexperiência administrativa. O governo Lula é um desastre trágico. Tudo disso foi embrulhando ela. A leviandade ambiental do governo Lula é um marco histórico. De qualquer maneira, a Marina seria uma política, uma senadora muito interessante. Ela tem várias qualidades pessoais. Mas, além de não ter qualquer experiência administrativa e, sobretudo, a idéia da Marina como modelo de ambientalista é um erro. Ela não é. Nunca foi. Assim como Chico Mendes nunca foi ambientalista a não ser como uma aliança secundária com a questão principal dele que era, basicamente, antropocêntrica. Eles tinham um modelo de ocupação mais suave da Amazônia. Só isso. Nunca apresentaram nada mais do que isso. Se a Marina desse certo também seria um fracasso.

JBE – O Acre seria um exemplo disso?

MSC – O ‘marinismo’ deu certo exatamente no Acre. Foi o estado que aplicou a cartilha dela com relação à ocupação, aos assentamentos extrativistas, como modelo do ‘deixa a floresta em pé. A gente explora devagar’. Olha o desastre que deu: o Acre queimou todo. Queimou por culpa desta política que, acidentalmente, ela combinou com um período de seca especial. Mas o modelo está errado. O Brasil precisa de várias soluções, inclusive para assentamentos. Não pode é confundir assentamento com preservação.

JBE – Por que o senhor diz que o governo Lula é leviano em termos ambientais?

MSC – Porque o governo Lula é leviano em qualquer assunto. Sobretudo, o que eu acho leviano no Lula é que em todos os projetos onde ele teve realmente um choque direto com o ambientalismo, como no caso da transposição do Rio São Francisco, o que ele produziu como contra-argumento é uma quantidade enorme de mentiras. As questões não puderam ser discutidas, porque foram afogadas em mentiras oficiais. Os números fornecidos estão todos errados. O Lula é particularmente blindado contra preocupações ambientais. São preocupações de uma ordem que não entrou na formação dele.

JBE - Diante de tudo o que você tem visto nas suas andanças pelo Brasil, você está mais pessimista?

MSC – Eu sou muito pessimista em relação à questão ambiental no Brasil. Acho que estamos chegando tarde à percepção de que o nosso problema é muito grande. E o que estamos perdendo é irrecuperável. O cerrado, por exemplo. Eu estava no Japão, quando (presidente general Ernesto) Geisel passou por lá para fazer esse projeto, que resultou na ocupação, no desenvolvimento do cerrado. Isso foi em 1977. Naquela época, o cerrado parecia inextinguível. Agora, a gente vê que ele está acabando, como aconteceu com a Mata Atlântica. Ela acabou. O que sobrou são resíduos, é um museu vegetal. O meu filho, provavelmente, vai viver em um Brasil no qual a Amazônia será uma memória.

JBE – Você acha que a floresta vai mesmo ser extinta?

MSC – Eu acho que nessa batida não tem mais jeito. Aliás, não sou eu quem acha. O maior especialista do mundo em florestas tropicais, John Terborgh, subscreve uma avaliação de que as florestas tropicais desaparecerão antes de 2050. Quer dizer, daqui a 40/45 anos, cairá a última árvore fora de uma reserva. A gente vive em um tipo de mundo que está se acabando.


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[01/DEZ/2005]


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