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Energia nuclear: medo, verdade e coragem
Enquanto diversas organizações internacionais, capitaneadas pela ONU, preparam-se e já anunciam uma série de pré-eventos para lembrar o mais trágico dos acidentes nucleares ocorridos no planeta – a explosão do reator quatro de Chernobyl, na manhã de 26 de abril de 1986, na antiga União Soviética - o Brasil continua reticente sobre a construção de Angra 3. José Dirceu, quando homem forte do governo Lula, e Dilma Roussef, quando ministra de Minas e Energia, não tinham a mesma opinião sobre a construção da nova usina, apesar dos procedimentos para a licença nuclear e ambiental estarem em andamento, num horizonte de até 2010 para entrar em funcionamento. E mesmo o atual ministro Silas Rondeau e outros nove integrantes do Conselho Nacional de Política Energética mantêm o dilema: o quê melhor aconselhar à presidência da República? Qual vai ser a reação da opinião pública?
Os dados estão na mesa. Contra ou a favor, o Brasil continua sendo detentor da terceira maior reserva de urânio do planeta. A Eletronuclear garante que a Central Nuclear de Angra dos Reis (leia-se Angra I e Angra II) tem na segurança o seu maior trunfo, razão da grande maioria de seus funcionários morarem ao lado de onde trabalham. Ainda afirma que, graças a um monitoramento contínuo, as condições ambientais no entorno das usinas (a grande baía de Ilha Grande) hoje são melhores do que antes da sua construção. E tem no cientista britânico James Lovelock, considerado o Pai da Teoria de Gaia, o seu maior defensor. Lovelock hoje não só defende, como aposta na energia dos átomos para salvar o mundo do aquecimento global. Quem está certo? O passado chamado Chernobyl, que não se apaga na memória da humanidade? O presente que não debate o assunto, por temê-lo? Ou o futuro que mostra, por exemplo, uma Europa dividida? São países como a Alemanha, que nos vendeu sua tecnologia nuclear, retroagindo em sua política nuclear? São outros, como a França, aumentando sobremaneira a construção de novas usinas nucleares? Certo ou errado, o que parece faltar é coragem pública em debater o assunto. Buscar, apoiado na verdade, o chamado caminho do meio. Enquanto isto não acontece, por falta da precaução, inteligência e sabedoria se sentarem juntas e orientarem o governo Lula, o Brasil continua confuso. Ora inundando mais floresta amazônica, mais mata atlântica, mais araucárias. Ora incentivando a construções de novas usinas termoelétricas, um horror cumulativo para o efeito estufa. Diante do silêncio, o que nos resta é recordarmos Chernobyl, assunto de capa desta edição. Para que nunca se repita. Nem no presente, nem no futuro. Boa leitura!
[01/DEZ/2005]
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