Sempre que o assunto é mudanças climáticas o nome de Carlos Nobre surge como referência obrigatória. Formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) de São José dos Campos, em São Paulo, com doutorado no mundialmente reverenciado Massachusetts Institute of Tecnology, nos Estados Unidos, Nobre, 53 anos, é pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e uma das maiores autoridades em fenômenos climáticos no Brasil.
“Nós estamos alterando os processos naturais como nunca antes.. Pela primeira vez, na escala geológica desde que esse planeta foi formado, há 4,6 bilhões de anos atrás, apenas uma espécie tem a capacidade de modificar a natureza em escala global” - afirma ele, ao discorrer sobre o grau de intervenção do ser humano no meio ambiente planetário.
O pesquisador escreve com freqüência para publicações brasileiras sobre questões como o furacão Catarina, que arrasou parte do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, no ano passado, e foi o primeiro registrado no país. “Os cientistas, se forem absolutamente honestos, não poderão dizer que o Catarina ocorreu devido às mudanças climáticas, porque pode ter sido um raro evento natural do clima” - diz ele, quando perguntado sobre o fenômeno que deixou a população e os cientistas brasileiros encabulados.
Deixando sempre claro que não é um especialista em assuntos relacionados à água, ele não hesita em dar o seu veredito sobre o polêmico projeto de transposição do Rio São Francisco: “O custo para levar água de qualidade a cada vila, vilarejo e pequena cidade do nordeste é alto e não está previsto nesse projeto. Grande parte da população rural vai continuar com a mesma sina.”
Revista JB Ecológico - Em que medida o ser humano está interferindo no meio ambiente global?
Carlos Nobre - Nos últimos 150 anos, principalmente nas últimas cinco décadas, a interferência do ser humano nas sociedades modernas, industriais, tanto do mundo desenvolvido quanto do mundo em desenvolvimento, não tem precedentes na história do planeta terra. Nenhum ser humano nem nenhum animal antes desse período conseguiu ter essa ação globalizada. Nós estamos alterando os processos naturais como nunca antes.
JB - E a que se deve isso?
CN - Com o crescimento populacional, por um lado, mas, principalmente, com o avanço científico e tecnológico, temos uma capacidade de alteração que as espécies vivas do planeta nunca tiveram. Isso é uma coisa muito recente. Tanto é que está se chamando esta era que estamos vivendo de antropoceno. Pela primeira vez, na escala geológica desde que esse planeta foi formado há 4,6 bilhões de anos, apenas uma espécie tem a capacidade de modificar a natureza em escala global. Não precisamos mais de grandes fenômenos naturais, como o impacto de meteoritos, ajustes de placas tectônicas ou vulcanismo para mudar a natureza.
JB - O próprio homem está se encarregando de bagunçar a natureza....
CN - Vamos tomar como exemplo a moderna agricultura. Ela coloca no ambiente uma quantidade muito grande de poluentes, que afetam os ecossistemas dos continentes e dos oceanos. O uso de fertilizantes pela agricultura atingiu uma dimensão mundial. Modificamos tanto o ambiente natural que as áreas intocadas da natureza hoje são minoria em relação às áreas de agricultura e outros usos da terra.
JB - A mudança nas fontes de energia seria outro exemplo?
CN- Esse, na verdade, é o principal exemplo. Foi só com as modernas tecnologias que nós começamos a usar intensivamente a energia. No passado, praticamente só se usava lenha na gerarão de energia para a preparação de alimentos. Era uma energia renovável, porque se cortava a lenha e a vegetação brotava novamente. A partir do momento em que se descobre os combustíveis fósseis, os hidrocarbonetos, como petróleo, gás natural e o carvão, isso impulsiona o desenvolvimento tecnológico.É com a criação das máquinas e, mais para frente, com o uso desses combustíveis para a geração de energia, que começa o grande desenvolvimento moderno e o uso intensivo de energia a partir dos combustíveis fósseis. Nesse momento, o resíduo desses combustíveis, o gás carbônico, começa a crescer muito na atmosfera. Demorou muito para se perceber que o crescimento desse e de outros gases, produzidos pelo homem numa proporção muito maior do que a natureza tem condição de eliminar, estavam interferindo no clima do nosso planeta através do chamado efeito estufa.
JB - O senhor acha que o Protocolo de Kyoto, que vai entrar em vigor no próximo dia 16, já está ultrapassado, dada a quantidade de poluição despejada na atmosfera?
CN - Os próprios proponentes do Protocolo de Kyoto nunca tiveram qualquer ilusão de que o problema seria resolvido na primeira fase do tratado, de 2008 a 2012. Os países desenvolvidos e de economia em transição que assinaram o tratado se comprometeram a reduzir suas emissões em 5%, tomando como base o ano de 1990. Isso é muito pouco, se quisermos estabilizar as concentrações dos gases do efeito estufa em um nível que os cientistas consideram menos perigoso para a vida no planeta. Os cálculos indicam que as reduções, sobretudo de gás carbônico, deveriam ser acima de 50% - provavelmente entre 60 e 65%. Mas, o Protocolo de Kyoto tem um grande mérito. Ele vai permitir demonstrar que é possível manter a qualidade de vida consumindo menos combustíveis fósseis. É possível um outro caminho tecnológico e ambiental para o planeta. Por isso, simbolicamente, ele é muito importante.
JB - Seria um primeiro passo?
CN - Um primeiro passo simbólico e tecnológico, porque a partir de Kyoto está havendo um esforço mundial de utilização de energias renováveis e dos combustíveis fósseis de forma muito mais eficiente. Esse é um aspecto muito positivo. Mas, ninguém tem a ilusão de que o tratado é a resposta final. É um modesto primeiro passo em relação à meta de reduzir em 70% até 2050 os gases que provocam o aquecimento do planeta.
JB - Sem a adesão dos Estados Unidos.
CN - É lógico que há essa pedra no caminho. O presidente George W. Bush se recusou a assinar o protocolo. Reeleito, não existe a menor possibilidade de que venha a assinar. Mas, sou dos que se recusam a acreditar que a indústria americana vai ficar de fora desse esforço mundial tecnológico, porque os países europeus estão, já a partir deste ano, comprometidos com reduções acentuadas. Há quotas para as indústrias européias que emitem grandes quantidades de gases. Além disso, alguns estados americanos, como a Califórnia, já estão estudando a possibilidade de adotar metas de redução das emissões, independentemente da posição do governo federal.
JB - Há pressões externas também, não?
CN - É. O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Tony Blair, por exemplo, quer liderar um movimento político, pregando uma redução das emissões muito mais rápida. Ele quer adotar uma posição claramente diferenciada da posição do presidente Bush. A razão disso é a desastrosa invasão do Iraque. Há a possibilidade de Tony Blair não continuar como primeiro-ministro, porque a população britânica não perdoa a grande mentira inventada para justificar a invasão. Agora, ele quer ser o líder, o grande defensor da causa da redução das emissões dos gases, até para se contrapor ao presidente Bush. Então, eu acho que a pressão dos países europeus, do Japão e do Canadá vai ser grande. Os Estados Unidos serão uma espécie de patinho feio, no sentido de que não querem se juntar ao resto do mundo no combate ao efeito estufa.
JB - O senhor acha que fenômenos que vêm ocorrendo no Brasil, como o furacão Catarina, em março do ano passado, e o ciclone extratropical com características de furacão em Santa Catarina, em janeiro, podem ser resultado da interferência do homem no meio ambiente?
CN - Os cientistas, se forem absolutamente honestos, não poderão dizer que o furacão Catarina ocorreu devido às mudanças climáticas, porque pode ter sido um raro evento natural do clima. Um evento que acontece uma vez a cada mil anos.
Mas, como não havia registro séculos atrás, não podemos descartar a possibilidade de que tenha sido um desastre natural. Porém, é interessante observar que algumas projeções do clima para aquela região do Atlântico Sul indicam a possibilidade de ocorrência de furacões. Então, hoje as duas possibilidades estão em aberto: pode ter sido um evento absolutamente natural, que acontece raríssimas vezes. Ou pode ter sido um primeiro sinal do que poderá acontecer, se o clima continuar se aquecendo. Não dá para dizer qual é a versão correta.
JB - Depois das tsunamis que aconteceram no dia 26 de dezembro, matando mais de 250 mil pessoas, a ONU divulgou um estudo mostrando que os desastres naturais aumentaram em 60% em relação à década passada. Como é que se explica isso?
CN - Existem dois fatores aí. O primeiro é que, aparentemente, há sim uma freqüência um pouquinho maior desses desastres naturais. Por exemplo, no ano passado tivemos um numero recorde de furacões na América do Norte. Tivemos um número excepcionalmente grande de tufões no Japão e também um recorde de tornados nos Estados Unidos. E a explicação é a mesma do furacão Catarina: ninguém pode dizer que é o aquecimento global, mas não se pode descartar a possibilidade de que os extremos climáticos estejam se tornando mais freqüentes.
JB - E qual é o outro fator?
CN - As populações estão se tornando mais vulneráveis. A população mundial continua aumentando e a pobreza também. Por isso, há centenas de milhões de pessoas vivendo em áreas de risco. Á Ásia é onde há mais gente afetada, como diz o estudo da ONU, porque os países lá, China, Índia, são muito populosos. Há uma superpopulação na região.
JB - E as tsunamis teriam alguma coisa a ver com a ação do ser humano no meio ambiente?
CN - As tsunamis, causadas por um rearranjo das placas tectônicas, não têm qualquer relação com o aquecimento global. O que existe é um efeito muito indireto. Quando a onda gigante está chegando perto da costa, se existir recifes de coral na área, eles vão servir como um primeiro anteparo, que ajuda a dar uma segurada na onda e ela vai chegar ao continente um pouco menos devastadora. Quando vem uma onda gigante dessas, os mangues também servem de anteparo, já que o primeiro impacto é sobre eles. A ação do homem, no caso do aquecimento global, está ajudando a diminuir os recifes de coral. Isso, junto com o aterramento dos mangues e com a poluição faz com que estejamos aumentando a vulnerabilidade das zonas costeiras e das populações que vivem lá a ondas gigantes. Mas esse é um efeito bem indireto. O tsunami é um fenômeno natural. As ondas gigantes existem há milhões de anos.
JB - Voltando ao Brasil. O senhor não acha que essa polêmica transposição do Rio São Francisco, defendida pelo governo federal, é uma grande interferência do ser humano na natureza?
CN - Essa é uma questão interessante que merece muito estudo e muita reflexão. Vai haver muitas audiências públicas e, eventualmente, há que se obter a licença ambiental. São os estudos - alguns já foram feitos, outros estão em andamento e há outros por fazer - que vão determinar qual é o impacto ambiental de se transpor uma água que drena uma bacia, a bacia do Rio São Francisco, para uma outra região, onde o solo é diferente e a química da água de superfície é bem distinta. Mas, a minha preocupação com esse projeto, compartilhada com muitos especialistas, é de outra natureza. Se a nossa Constituição tivesse um artigo que dissesse que todo brasileiro tem direito à água de qualidade, tratada, para seu abastecimento. Se isso fosse um direito inalienável do cidadão brasileiro e que a população conjuntamente estivesse disposta a pagar o preço que fosse para levar essa água de qualidade para todas as pessoas, em todos os lugares, eu acho que isso seria uma defesa constitucional de um projeto caro. E o país teria que pagar o preço que fosse. O problema é que o projeto de transposição não vai nessa direção. Vai mais na direção de perenizar alguns rios na Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará para a agricultura irrigada. O custo para levar água de qualidade a cada vila, vilarejo e pequena cidade do nordeste é alto e não está previsto nesse projeto. Grande parte da população rural na região vai continuar com a mesma sina. Nesse momento há mais de 300 municípios nordestinos em estado de calamidade.