A cidade que serviu de berço ao
Jornal do Brasil ainda não se transformara na Paris tropical do início do século 20 - e nem as mentes mais apocalípticas imaginavam a megalópole poluída e desarrumada de hoje. O Rio de Janeiro era uma pacata reunião de privilegiados, que já mostravam a vocação que se tornou um dos (muitos) encantos desta terra: a conversa de botequim, programa tão comum quanto o banho de mar nas impecáveis praias da Baía de Guanabara. Não por acaso, a literatura da época descreve o Rio como um paraíso.
Onde, como nada é perfeito, se trabalhava, especialmente no Centro, ainda um amontoado de ruas sem calçamento - à exceção da Ouvidor - que concentrava todas as atividades. Para morar, Catete, Laranjeiras, Botafogo e Tijuca eram os lugares mais cobiçados. Copacabana era uma praia remota e Ipanema e Leblon, areais de um planeta distante, ficavam no fim de uma viagem própria a aventureiros. Não faziam falta, tantas as maravilhas que ficavam mais próximas.
Sobrou infelizmente quase nada desse lugar maravilhoso que acabou por fazer a fama - planetária - da cidade que o ocupou. Ainda assim, é possível viver algumas sensações dos habitantes do Rio que entrou no século 20. Abstraindo-se o crime urbanístico dos arranha-céus que indevidamente tapam o sol, é possível, por exemplo, cruzar a Ouvidor e a Gonçalves Dias exatamente como faziam os passantes de cem anos atrás.
Nem a abertura da Rio Branco e o inescapável massacre do casario que veio a reboque levaram o charme das pequenas ruas do Centro. Os restos da cidade pré-metrópole estão lá, em detalhes impensáveis ao entendimento leigo. Como hoje, Ouvidor e Gonçalves Dias - esta última, o primeiro endereço do JB - foram endereço das lojas de roupas mais finas e de cafés, confeitarias e restaurantes, freqüentados por escritores como Machado de Assis, que, com seus interlocutores, esteve entre os pioneiros da capital da boa conversa fiada.
Ontem como hoje, os cariocas conservavam o hábito de odiar as intervenções urbanísticas - para depois adorar o resultado. Vaidosa por filosofia, a população acha sua cidade perfeita a ponto de dispensar melhorias, mas, festeira por natureza, celebra a obra assim que ela fica pronta. Assim, muita gente odiou a idéia da Rio Branco, que rasgou o Centro de mar a mar, da Praça Mauá ao Obelisco - sim, crianças, roubaram a praia que ia até ali. Um folclore enfeitiçou a população: a avenida criaria uma corrente de ar que levaria a um surto de pneumonia (à época, uma doença fatal) aos freqüentadores do Centro!
A paranóia, claro, dominou as conversas durante semanas, mas, para sorte do Rio, o inventivo Pereira Passos - que divide com Pedro Ernesto a honraria de maior prefeito da história da cidade - não deu ouvidos. Foi adiante, até Copacabana, que teve a orla transformada em rua ainda na primeira década do século 20, com direito, inclusive, ao calçamento em pedras portuguesas, uma das mais cariocas expressões urbanas. Começou ali a surgir a Zona Sul moderna, da Vieira Souto, da Delfim Moreira, do metro quadrado mais caro do Brasil.
A Paris morena imaginada por Pereira Passos virou um paraíso tropical, lugar mágico descrito, especialmente pela Bossa Nova, a partir dos cenários que começam em Copacabana. É humano até para os poetas gostar mais do tempo no qual se viveu. Talvez por isso, pouca gente saiba que o Rio dos 50 era como Búzios dos 80, um conjunto de lindas praias emoldurado por montanhas cobertas de Mata Atlântica. Um espetáculo - mas onde água potável era artigo de luxo, drama só resolvido com a Estação de Tratamento do Guandu.
Obras como a que resolveu o problema de abastecimento de água foram, na verdade, curativos a doença do crescimento que acometeu a cidade. Hoje, seu símbolo é a Barra, uma caótica Miami de anedota, com rios, lagoas e mares emporcalhados pela falta de esgoto, e encostas tomadas por favelas de todas as classes.
A beleza do Rio, apesar de tosos os pesares, sobrevive. E - a história mostra - assim será, pelos séculos afora.