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A TV digital se aproxima

Demonstração pública dos estudos da tecnologia mostra que Brasil está preparado

Marcela Canavarro

SÃO PAULO - Duas salas repletas de televisores de tela plana e alta definição de imagem. Ligados a elas, pequenos circuitos com jeito de protótipo indicam que os aparelhos servem a algum estudo de desenvolvimento tecnológico. É a primeira demonstração pública dos estudos do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), em andamento nas principais universidades do país.

A demonstração aconteceu na sexta-feira, na Escola Politécnica da USP, em São Paulo, e contou com 10 dos 22 consórcios que formam o SBTVD. Os relatórios foram entregues neste fim de semana ao ministério das Comunicações, que analisará os resultados para definir o padrão para o Brasil: europeu, japonês ou americano.

O assessor especial da Casa Civil, André Barbosa Filho, explica que o SBTVD deve adotar o H264 como padrão de compressão de imagens e uma versão adaptada da modulação OFDM (Orthogonal Frequency Division Multiplexing). O H264 é um formato de compressão recente e é uma variação do padrão MPEG4, já estabelecido em diversos países.

O coordenador do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da USP, João Zuffo, explica que a modulação que integrará o SBTVD utilizará antenas de baixo custo distribuídas em áreas em que a principal não tem bom alcance.

- Em outros países, o sistema de antenas distribuídas não é utilizado - explica Zuffo.

Os sistemas de TV digital baseiam-se em hardware, software, middleware e aplicações. Os testes do SBTVD utilizam o sistema operacional de código aberto Linux. Cabe ao middleware fazer a conexão entre o sistema e os aplicativos. De acordo com o coordenador do grupo de Middleware e Flex TV, Guido Lemos, pesquisador da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o Brasil desenvolveu o modelo mais avançado de middleware do mundo.

- É o primeiro criado no hemisfério Sul e pretende atender cerca de 80 milhões de pessoas no mundo que não têm computador - afirma Lemos.

Pelo middleware, funções de computador estarão disponíveis na TV digital, como correio eletrônico e navegador web.

A complexidade da tecnologia desenvolvida fica clara pelas 100 mil linhas do seu código, criadas por quase 40 instituições de pesquisa. O middleware é o coração da TV digital e define suas aplicações.

Um dos requisitos fundamentais, previsto no decreto 4.901, que instituiu o SBTVD, é a exigência que a TV digital seja uma ferramenta de inclusão.

- Muitos não reconhecem a importância do computador e não abrem mão da carne ou da cerveja para comprar um PC, mas adquirem a TV. Ao colocar funções de micro na televisão, levamos a tecnologia para essa população - enfatiza Lemos.

Um dos grupos de estudo pesquisa o que o acadêmico da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Valdecir Becker, denomina ''alfabetização digital''. O relatório do seu consórcio conclui que, para a familiarização com a interatividade é preciso uma política pedagógica na TV e não na internet.

- A questão não é só acesso à tecnologia e maior abrangência da TV, mas a relação consistente que as pessoas têm com televisão. Elas aprenderão, pela TV, o que é um link e como interagir com ele - afirma Becker.

O governo baixou um decreto transferindo para o Ministério das Comunicações, coordenador dos trabalhos do SBTVD, a liderança dos programas de inclusão digital. O ministro Hélio Costa anunciou a possibilidade de liberar R$ 650 milhões do Fust e R$ 250 milhões do Funtel para o SBTVD.

Na sexta-feira, Costa anunciou que Rede Globo, Bandeirantes, SBT, TV Cultura, Rede TV e Record, devem transmitir sua programação completa em padrão digital a partir de 7 de setembro de 2006.

- Já sabemos para onde vamos e a partir daqui precisamos estabelecer um modelo industrial - afirmou.

A questão mais controversa é o canal de interatividade, que pode usar Wi-Fi ou WiMax.

- O Wi-Fi tem infra-estrutura, mas exige uma cadeia de antenas. O WiMax é mais simples e barato, mas não está regulamentado. Talvez adotemos uma mistura das soluções - explica o gerente de Projetos do consórcio de canal de interatividade, e pesquisador da Unicamp, Paulo Marshall.


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[12/DEZ/2005]


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