O furacão ainda causa efeitos no mercado de tecnologia. Na semana passada, Steve Jobs, presidente da Apple, anunciou que a fabricante trocará os processadores Power por Intel, até agora massacrada pela eficiente máquina publicitária da maçã.
A mudança começará até a metade de 2006 e será concluída até o final de 2007. Em 29 anos de história da Apple, sua arquitetura nunca esteve tão próxima da usada no PC, com conseqüências bombásticas.
A Apple declarou: não impedirá a instalação do sistema da Microsoft nos Macs. A virtualização prometida pela Intel, que permitirá rodar vários sistemas operacionais num mesmo chip, cai como uma luva.
O contrário, no entanto, será proibido. Mas o sonho de ter o Mac OS X, considerado o melhor sistema operacional da atualidade, rodando em qualquer micro cinza, estará a um passo da comunidade hacker.
- Os preços dos Macs com Intel devem cair em até 8%. Mas os micros continuarão a ser especiais - prevê Denis Gaia, analista de Computadores Pessoais do IDC.
O desenho limpo da Apple, com linhas sóbrias e inventivas, seduzirá mais de perto os usuários de PCs e Windows.
Jobs sugeriu a razão para a mudança durante a apresentação na WWDC, conferência de desenvolvedores da Apple:
- Ao olharmos para o futuro e prevermos os produtos que queremos fazer, não soubemos como criá-los com os PowerPC.
Há meses, a chateação da empresa era clara com a fraca evolução do G5, dos PowerMacs e iMacs. Há anos é aguardado um notebook G5, mas o uso de refrigeração líquida ou várias ventoinhas nos micros de mesa ressalta que o chip esquenta demais e que não pode ser adaptado aos laptops.
No WWDC, Jobs foi além, ao citar que havia prometido um PowerMac G5 3 GHz para 2004, e até agora ele não chegou.
A IBM, onipresente na nova geração de videogames - PlayStation 3, XBox 360 e Revolution -, não comenta a mudança da Apple. Mas ataca quem cogita sua capacidade de inovar.
- Temos chips com núcleo duplo desde 2001, que só agora nossos concorrentes estão lançando - afirmou Armando Toledo, diretor de vendas de Sistemas da IBM Brasil, em entrevista ao JB.
O momento é curioso. A IBM acaba de apresentar o Cell, voltado para multimídia, principal mercado da Apple, e capaz de, por exemplo, decodificar ao mesmo tempo 48 streams de vídeo MPEG-2 em alta definição. O chip tem um núcleo Power e oito unidades auxiliares semelhantes à AltiVec (ou Velocity Engine) presente nos G4 e G5. O Cell parecia talhado para os Macs.
Elber Mazaro, gerente de Marketing da Intel Brasil, afirma que a empresa está ''muito satisfeita com o novo cliente'' e dá novas dicas do que a Apple poderá usar:
- Em 2006 teremos núcleo duplo para servidores, notebooks e desktops.
Mazaro descarta, inicialmente, uma família de processadores exclusiva para a Apple. Mas a empresa de Jobs estará bem servida, principalmente pela Centrino, de notebooks, que com o Pentium M realizaria o sonho do PowerBook vitaminado.
- O maior desafio para a Apple é esclarecer a transição, para não frustrar usuários e desenvolvedores - diz Gaia.
Só o tempo mostrará qual será o efeito nos macmaníacos. Acostumados aos testes que comparavam os Macs a micros com Intel, sempre em vantagem, terão que amar e conviver com um antigo inimigo.
E para quem pensava em adquirir um Mac nos próximos meses, a dúvida é ainda maior. A Apple planeja uma ''transição gradual'' aos chips Intel e até sugeriu novos lançamentos PowerPC até 2006. Mas comprar micros que deixarão de ser apoiados não é um prognóstico interessante.
Jobs revelou que o OS X levava uma ''vida dupla''. Suas versões têm sido portadas para a arquitetura x86, em segredo. O executivo demonstrou o sistema num Intel não identificado de 3,6 GHz.
Em relação aos programas, a mudança é mais complicada. O Rosetta é um tradutor dos programas de PowerPC para Intel, transparente e rápido em geral, embora não seja compatível com todos os softwares. Aplicativos que exijam G4 ou G5 e AltiVec não serão traduzidos, bem como os softwares de OS 8 e 9. A mudança para Intel decreta o fim dos sistemas e o início de uma nova era na informática.