Imagine estar passeando em um shopping center e, enquanto espera o início da sessão de cinema, abrir o notebook e responder alguns e-mails. Desde a última semana isso se tornou realidade no Shopping Center e Centro Empresarial Città América, na Barra da Tijuca, Zona Oeste da cidade. Ali começou a funcionar o
Cidade sem fio, que une as tecnologias de transmissão de dados sem fio Wi-Fi e GPRS. A velocidade é digna de uma conexão por banda larga, podendo chegar a 2 Mbps.
Durante 90 dias o acesso à internet será gratuito aos visitantes do Città América. Após este período, a estrutura deverá ser mantida no local e instituída uma tarifa, e há planos de instalação de outros pontos de acesso à internet por Wi-Fi em hotéis, shoppings e restaurantes. Por trás do empreendimento estão pesos pesados como Intel, Oi (subsidiária da Telemar) e Gradiente, que investiram R$ 2 milhões. Projetos-piloto do Cidade sem fio também serão desenvolvidos em Belo Horizonte, Salvador, Vitória, Recife e Fortaleza.
Em boa parte dos países não é preciso uma concessão governamental para operar uma rede Wi-Fi, e nos últimos anos surgiram nos Estados Unidos empresas tentando oferecer serviços baseados na tecnologia. No entanto, além de precisarem sobreviver em um mercado que ainda dá seus primeiros passos, elas estão vendo operadoras de telecomunicação invadirem sua praia.
Em muitas das filiais da rede de lanchonetes Starbucks é possível, enquanto se toma um café, acessar a internet com um notebook equipado com uma placa Wi-Fi. A rede foi montada pela texana MobileStar, que entrou em falência em 2001 e vendeu seus ativos para a operadora de telefonia móvel T-Mobile. A empresa nascente Boingo tenta estabelecer um serviço de roaming entre os milhares de operadores de hotspots - ponto público de acesso sem fio -, mas irá enfrentar a concorrência da Cometa Networks, uma joint venture formada entre AT&T, Intel e IBM.
O oferecimento do acesso gratuito durante três meses no Città América não vem por acaso. As empresas envolvidas no projeto tentarão sentir a demanda e o interesse do mercado por soluções sem fio. Cinqüenta placas Wi-Fi para notebooks foram distribuídas a executivos que trabalham no Centro Empresarial, que serão os beta testers da tecnologia.
- O Wi-Fi é uma tecnologia que vemos explodir em todo o mundo, mas precisamos desse espaço para que ela seja testada e para que novos serviços e produtos sejam desenvolvidos - explica o superintendente de operações da Gradiente Telecomunicações, Marcelo Canecchio Ribeiro.
No Brasil, redes Wi-Fi estão sendo montadas pela Pointer Networks em aeroportos, que concentram pessoas armadas de notebooks e com pouco tempo a perder. Elas já funcionam no Santos Dumont, no Rio de Janeiro, nos dois aeroportos de São Paulo, e nos aeroportos de Porto Alegre, Brasília e Belo Horizonte. Nos planos da Pointer também estão a instalação de redes em hotéis, centros de convenção e shopping centers.
Os executivos que seriam os primeiros interessados pelos hotspots de Wi-Fi, também são desejados pela operadoras de telefonia móvel, que desenvolvem novas redes de transmissão de dados. Por enquanto, as operadoras apostam que as duas tecnologias não serão concorrentes.
O Wi-Fi tem a vantagem de oferecer altas taxas de transmissão e não depender de autorização governamental, mas suas antenas têm alcance curto, de no máximo 100 metros. Mesmo no Città América apenas 30% da área tem cobertura Wi-Fi, com uma velocidade média de 2 Mbps.
No resto do shopping, os testadores precisarão utilizar a rede de transmissão de dados da Oi, que usa a tecnologia GPRS e oferece uma velocidade comparável à de um modem fixo convencional, 50 kbps. Em compensação, a área de cobertura do GPRS é maior, e é possível ter acesso à sua rede até mesmo em movimento ou dentro de um carro.
- Não vemos o Wi-Fi como um adversário. Ao contrário, ele estimula o uso do GPRS, pois quem utiliza um computador em uma rede sem fio no aeroporto também sente vontade de utilizá-lo no táxi, em casa - afirma o vice-presidente da Oi, Paulo Gonçalves.
A solução utilizada no Cidade sem fio mistura as duas tecnologias. As placas distribuídas para os beta testers terão um espaço para a inserção de um simcard, o chip que está dentro de todo telefone celular GSM. O chip serve para autenticar o usuário e dar a ele acesso à internet e à rede de sua empresa. Quem utiliza uma placa Wi-Fi comum deve apelar para um adaptador para simcard que é encaixado na porta USB.
Se hotéis, restaurantes, cafés e livrarias começarem a criar suas próprias redes Wi-Fi, a Oi também pretende oferecer o serviço de roaming entre elas. Dessa maneira, os proprietários de pequenas redes sem fio não precisariam cobrar diretamente de todos os seus usuários. A operadora se encarregaria do pagamento feito por seus clientes, cobrando deles no final do mês.