Software ajuda na inclusão social

Motrix permite que deficientes físicos usem o computador com perfeição através de comandos de voz

Bruno Lopes

Repórter do JB Online

Gabriel Cavalcanti
Lenira Luna

A médica Lenira Luna usa a internet para se atualizar

Ao chegar em casa, depois de enfrentar uma jornada de trabalho de várias horas, a médica radiologista Lenira Luna, 47 anos, liga seu computador e entra na internet. Após ler seus e-mails, ela consulta publicações especializadas como a Radiology, essenciais para se manter atualizada em sua profissão. Algo trivial, não fosse por um detalhe: há mais de vinte anos Lenira é tetraplégica, e, apesar de reter parte dos movimentos do braço, em pouco tempo, ela se cansa ao virar páginas de um livro.

A médica utiliza o programa Motrix, desenvolvido pelo Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (NCE/UFRJ), e que permite que um computador seja utilizado por comandos de voz. Em agosto ele estará disponível gratuitamente no site do NCE, mas uma primeira turma já recebeu treinamento no programa.

A história do Motrix começou em janeiro deste ano, quando Lenira assistia à entrevista do analista do NCE José Antonio Borges em um programa televisivo. Antonio mostrava programas desenvolvidos pelo NCE, como o DosVox, usado por cegos para acessarem o computador, e o Teclado Amigo, que permite o controle de computadores com pequenos movimentos de um dedo. ''Pensei: já que ele fez um programa para cegos mexerem no computador, quem sabe ele consegue fazer um programa que use reconhecimento de voz e possa ser usado por mim'', conta Lenira.

Um encontro com José Antônio Borges foi marcado e, apenas um mês após ele aceitar o desafio, sua equipe já havia desenvolvido a primeira versão do software Motrix. Por motivos econômicos foi escolhido o reconhecedor de voz da Microsoft, que pode ser usado gratuitamente, mas só entende comandos em inglês. O comando go left mexe o ponteiro do mouse para a esquerda, double click equivale ao clique duplo que dá a partida em softwares e close window fecha janelas e termina os programas. Com o Motrix, Lenira pôde usar um computador enquanto estava deitada na cama. Em março, o primeiro computador chegou à casa da médica, que se tornou uma internauta de carteirinha.

Conversando com outros tetraplégicos, Lenira fez, involuntariamente, propaganda do Motrix. Outros deficientes começaram a ligar para o NCE pedindo pelo software, até o ponto em que a equipe do núcleo decidiu criar um programa para ajudar na distribuição do software. ''Não basta colocar o software na internet, pois muitos tetraplégicos não têm sequer computador, quanto mais acesso à rede'', explica José Antônio Borges.

Para que o Motrix deixasse de ser o ''programa feito para Lenira'' e se tornasse um software que qualquer tetraplégico pudesse utilizar, algumas mudanças foram feitas. O reconhecimento de voz foi aperfeiçoado, com a criação de atalhos que resumem diversos comandos. Também começou a ser desenvolvida uma versão que aceitará comandos em português, baseada no software russo Voice.

Ainda foi montado um programa para disseminação e capacitação no Motrix. Como a equipe do NCE não poderia passar todo seu tempo treinando os usuários do programa, foram montadas turmas iniciais que receberão treinamento e se tornarão instrutores de outros deficientes. Entre os instrutores estará Ricardo Rocha, 20 anos, tetraplégico há cinco e estudante de biologia. ''Como já sabia mexer no computador, tive maior facilidade. Antes eu usava o Via Voice'' da IBM, conta. As aulas serão realizadas em salas e computadores cedidos pela UFRJ.

[29/JUL/2002]

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