De caso com a tela

Internautas praticam traição virtual, mas a Justiça adverte: a parte lesada pode mover ação por injúria grave

FERNANDA NIDECKER

No imenso leque de possibilidades da internet, até traição está virando moda. A versão virtual de um hábito praticado há séculos pela humanidade está se tornando comum entre os ''lovernautas'', seduzidos pelo risco das aventuras extra-conjugais ou pela busca de alternativas para fugir dos problemas ou do tédio do relacionamento.

Mas será que traição pela internet realmente pode ser considerada como infidelidade? Afinal de contas, nas relações deste gênero, o amante virtual é um mero desconhecido, com o qual não se mantém, pelo menos a princípio, qualquer contato físico. Mesmo assim, imagine o seu parceiro(a) trocando estímulos sexuais com alguém do outro lado da tela, enquanto você dorme no quarto ao lado. A experiência não deve ser nada agradável...

Mas, como tudo tem suas compensações, quem se envolve afetivamente com alguém pela rede fica imune a dois males recorrentes dos relacionamentos tradicionais. O primeiro deles é o comprometimento. Enjoou de um affair virtual? É simples. Basta não aparecer mais no chat em que vocês se conheceram ou ignorar os chamados do ICQ. Uma outra vantagem das relações digitais é a impossibilidade de contrair Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST). Pela internet, pode-se praticar sexo com vários parceiros, sem a preocupação de que a AIDS ou qualquer outra doença venérea esteja no ar.

Confessionário - Além disso, a web possibilita que homens e mulheres testem seu poder de sedução, instinto natural da raça, mas que normalmente é inibido pelos tabus impostos pela sociedade, afirma a idealizadora do site Traída.net {www.traida.net}, Isabel Tarcha.

A página foi fruto de uma experiência desagradável vivenciada por Isabel, na época em que estava casada. Depois de descobrir que seu marido a traía virtualmente, ela reuniu vasto material sobre traição e aprendeu tudo sobre informática e construção de sites.

''Quando resolvi montar minha homepage, encontrei neste tema a melhor opção, porque é um assunto que as pessoas não falam abertamente e a internet seria um bom meio de fazê-lo.''

A página é atualizada diariamente e recebe cerca de 16 mil visitas por semana. São internautas que contam suas experiências ou que recorrem, desesperadamente, aos conselhos da Traída, personagem representada por uma simpática bonequinha, que diga-se de passagem, já virou fetiche de alguns usuários.

O site encara a traição com bom-humor, sem preconceitos e ainda dá dicas engraçadas para quem quer trair ou para aqueles que estão desconfiados de que o parceiro(a) está arrastando a asa para outra pessoa. (Leia os boxes logo abaixo).

Isabel atri bui o sucesso do site ao fato de que, pela web, as pessoas falam sem pudores sobre o tema. ''O anonimato da rede permite que elas confessem, desabafem''. E completa dizendo que o contato virtual só pode ser considerado traição se ultrapassar as barreiras da tela. ''Traição mental todos cometem, seja na internet, na tela do cinema ou quando você cruza com alguém na rua. O problema é quando se deseja estar fisicamente com quem você transa pela internet.''

Arrependidos - Foi o que aconteceu com o jornalista Rafael Pereira. Ele namorava há cinco anos e durante esse tempo conheceu várias garotas pela internet. Rafael conta que transou com uma delas virtualmente e com outras, o contato ultrapassou os limites do virtual e foi parar em um motel.

Pereira classifica sua única experiência de sexo virtual como vazia. ''Sexo pela rede é oco, superficial, não corresponde à realidade. Me envergonho disso, entrei nessa por curiosidade e porque homem não presta mesmo'', admite.

E ainda é preciso ficar atento às armadilhas que falsos Don Juans armam rede afora. Há dois anos, a arquiteta Márcia Alves enfrentou problemas no casamento e caiu na lábia de um sedutor virtual. Deu sua ficha completa e pelo que tudo indica, o envolvimento pela tela foi quente. Conclusão: o marido descobriu tudo e seu casamento quase foi por água abaixo.

Santo do paoco - Mesmo não tendo praticado cybersex, o executivo Paulo Sérgio Menezes se relacionou intensamente com mulheres pela rede. Ele namora há quatro anos e conta que a idéia de conhecer pessoas pela tela sempre o fascinou porque representava a possibilidade de estar com alguém sem comprometimento algum.

Tudo o que rolou com as parceiras virtuais não é encarado por Paulo Sérgio como traição. Pelo contrário, ele acredita que enquanto o contato não é físico não há porque se sentir um traidor. ''Se era uma relação virtual em que não havia troca de olhares, encontro de corpos, como posso chamar isto de traição?'', justifica. Bem, traição ou não, ele não teve coragem de contar a escapulida para a namorada...

O que diz a lei - O advogado João Paulo Lins e Silva explica que quem se sentir lesado por traição virtual pode recorrer à justiça, alegando injúria grave. Segundo ele, o Código Civil considera apenas como infidelidade, as práticas amorosas que envolvam contato físico. ''Para requerer a separação, é preciso recolher provas concretas como arquivos de computador ou e-mails que atestem a traição'', esclarece.

Se ficar provado que houve infidelidade, o processo corre como qualquer outro auto de separação judicial. Neste caso, a parte traída pode ganhar indenização por danos morais, entre outros direitos, e até perder a guarda dos filhos.

[21/MAR/2002]

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