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O melhor do Pasquim
Antologia, feita com os primeiros 150 números, prova que o humor anárquico e corajoso do jornal carioca resiste ao tempo
Alvaro Costa e Silva
Nos idos de 1969 as feras do escrete aprontavam o negócio seguinte:
1. Millôr Fernandes revela que seu maior sonho é ser um Cisne do Itamaraty; 2. Ziraldo faz Tarzan gritar com Jane pendurada no cipó; 3. Henfil trama o encontro dos fradinhos frescos e malvados; 4. Sérgio Cabral garante que Nelson Cavaquinho não bebe quando tem trabalho; 5. Paulo Francis explica por que Marquês de Sade fascina os nossos (quer dizer, lá dele) contemporâneos; 6. Claudius atualiza os símbolos com placas de parar o trânsito; 7. Tarso de Castro prova que, se a máxima ''Intelectual não vai à praia, intelectual bebe'' estivesse certa, Austregésilo de Athayde não saía de Ipanema; 8. Sérgio Augusto admira um produto texano: Sharon Tate; 9. Jaguar, amigo do Sig, apresenta Boris, o Homem-Tronco; 10. Luiz Carlos Maciel pergunta: ''Você está na sua?''; 11. Ivan Lessa relembra o que Luzia ganhou na horta. Tudo isso é O Pasquim: Antologia Volume 1 1969-1971. Ou melhor, tudo isso são apenas as primeiras (de 352) páginas do livro que Sérgio Augusto e Jaguar organizaram e a editora Desiderata está mandando para as livrarias. Porque tem muito mais, não apenas dos craques titulares do jornal, mas também dos reserveiros de luxo que, nos acréscimos, entravam em campo para dar uma força: um Chico Anysio (que fim levou?) engraçadíssimo contando acerca das similaridades entre Celso e corno; Chico Buarque agradecendo uma dúzia de lingüiças que uma alma caridosa enviou para ele em Roma; Carlos Heitor Cony explicando que Abraão nasceu em Ur, na Caldéia, e isso é mais que um problema de palavras cruzadas; Caetano Veloso ferrando a boneca e Otto Maria Carpeaux contabilizando os amores de Picasso. De tanto colaborar, Vinicius pode ser considerado da patota. À primeira vista, para quem está na faixa entre 20 e 40 anos, pode parecer estranho, datado, coisa de maluco. Mas não é. Apesar de ter nascido há quase 37 anos - quando chegou às bancas, em 26 de junho de 1969, o AI-5 e a censura já grassavam no país - O Pasquim, ao menos nesta amostra de seus primeiros 150 números, continua vivo. Quem quiser saber por que o Pasca (ou o hebdô, peguemos intimidade) se tornou um marco na imprensa brasileira, basta folhear o livro. Mas o melhor é comprá-lo, lê-lo de cabo a rabo e guardá-lo para mostrar aos filhos. Engraçado paca, anárquico e corajoso. Muito da boa impressão que fica no leitor se deve ao trabalho dos organizadores - Jaguar foi um dos fundadores, e Sérgio Augusto, diretor, numa das fases mais criativas -, os quais souberam dosar à perfeição qualidade e perenidade. Assim, até um artigo ou cartum que pareça um tanto passado no tempo, tem graça ou estilo de sobra. As entrevistas fartamente regadas a uísque e transcritas direto do gravador - segundo a ''meia'' verdade de Jaguar - são um capítulo à parte. As históricas vêm quase na íntegra, mantendo até os asteriscos que substituiam os palavrões: Leila Diniz, Di Cavalcanti, Natal da Portela, Oscarito, Gabriel García Márquez (esta feita por Glauber Rocha), Billy Eckstine e Madame Satã, que afirma só ter conhecido um jornalista freqüentador da velha Lapa: ''um tal de Macedo''. Sabe o que chocava na conversa com Leila, além dos asteriscos? A certa altura, alguém perguntou quando ela perdeu a virgindade. Hoje é pauta corriqueira de qualquer entrevista da revista Veja com cantora filha de cantor sertanejo. O tacão da censura, cujos representantes ''trabalhavam'' dentro da redação, acabou por se provar, no fim das contas, dos mais criativos. Vide algumas gírias eufemísticas (duca, paca, mifu, sifu, nusfu) que valeram uma seqüência maravilhosa de desenhos, por Ziraldo, e que resistem até hoje. A idéia é que saiam mais três volumes contendo o melhor do Pasquim (com o tempo, o tablóide perdeu o artigo). Sérgio Augusto e Jaguar bem sabem que dava para fazer mais uns três, com a mesma qualidade. Este departamento tem um xodó pelo craque da camisa 11. Ele mesmo, Ivan Lessa. E solicita a inclusão de mais exemplos da sua produção frenética. A começar pela seção de cartas dos leitores, que Ivan passou a responder porque ninguém mais queria o encargo. Oculto sob o pseudônimo de Edélsio Tavares - um adorável cafajeste que é uma espécie de avô mais esperto do Agamenon Mendes Pedreira -, ele achincalhava os pobres leitores, quando não inventava as cartas. Segundo Sérgio Augusto, os iniciados e os masoquistas adoravam. Edélsio também assinou um ''Diário de Londres'', quando seu inventor desistiu de vez do Brasil. Na contracapa, a partir de meados da década de 70, Ivan Lessa deitou e rolou com a coluna ''Gip-Gip, Nheco-Nheco'', título que ele, grande conhecedor da música brasileira que presta, tirou do xote Trepa no coqueiro. Os aforismos ainda hoje impressionam pela sua permanência: ''O brasileiro é um povo com os pés no chão - e as mãos também''.
[11/MAR/2006]
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