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A ficção desconfiada

Os marcianos de Ray Bradbury são um presente

Gustavo Bernardo

Ensaísta

Reprodução
Ray Bradbury: hoje defensor de George W. Bush

Ray Bradbury: hoje defensor de George W. Bush

As crônicas marcianas
Ray Bradbury
Globo
304 páginass, R$ 38

O gênero chamado “ficção científica” é triplamente paradoxal.

O primeiro paradoxo vem do mercado editorial e tem sotaque brasileiro. Apesar do sucesso perene de alguns livros e de muitos filmes, a ficção científica no Brasil sofre de complexo de rejeição. Basta um rápido passeio pelos sites das grandes editoras para perceber que a maioria não recebe originais de ficção científica e de poesia. Desconfio que este paradoxo deriva menos dos números do mercado e mais da contaminação de nossa baixa auto-estima em outro terreno: se não produzimos ciência, se não temos sequer um Prêmio Nobel, como poderíamos escrever e publicar ficção científica com um mínimo de qualidade?

O segundo paradoxo é estético. Quem gosta de ficção científica gosta de romance policial, pouco se importando se a academia considera menores ambos os gêneros. No entanto, a recíproca não é sempre verdadeira. Isso talvez aconteça porque a ficção científica é forçosamente mais fantasiosa, portanto, menos ''realista'', do que o romance policial. Na verdade, a filosofia da ciência mostra que a própria ciência encontra seu fundamento na ficção, ou seja, na construção de hipóteses e na desconsideração necessária de muitas variáveis.

O terceiro paradoxo é ontológico, ou seja, faz parte da essência do gênero. À primeira vista, supomos que a ficção científica faria o elogio da ciência, mas isso ocorre apenas com os piores textos. Toda a ficção desconfia daquilo que a convenção social entende por ''realidade'', produzindo dessa desconfiança uma realidade segunda. Logo, toda a ficção é na base cética, isto é, suspende o juízo vigente sobre a realidade para se permitir inventar uma nova realidade. Ora, se a matéria da ficção científica está na ciência mesma, então ela desconfia radicalmente da ciência, compreendendo que a ampliação do poder da ciência amplia o poder da espécie humana mas, inversamente, reduz o poder e a liberdade do indivíduo. Na vertente mais radical, a ficção científica narra a dissolução das estruturas fundamentais da existência humana.

Essa literatura faz a crítica da ciência ao construir distopias, isto é, utopias negativas, como no clássico Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, publicado em 1953. O autor não queria prever o futuro, mas sim defender-se da possibilidade de um futuro indesejável no qual os livros se reduzissem a adaptações para jovens, depois a breves condensações, então a emissões radiofônicas de 15 minutos, enfim a menos de dez linhas no dicionário. O Corpo de Bombeiros seria a nova Inquisição, dedicando-se a queimar todos os livros do mundo.

O enredo de Fahrenheit 451 é um desenvolvimento de ''Usher II'', um dos contos de As crônicas marcianas, livro publicado por Bradbury em 1950. A história de ''Usher II'' se passa num hipotético 2005 em que o homem já ocupava o planeta Marte. O senhor Stendahl constrói no planeta vermelho a Casa de Usher em homenagem a Edgar Allan Poe e a toda a literatura, mas também para protestar contra a Grande Fogueira que, em 1975, banira a ficção. Ele reagia contra a gente de Mente Limpa que queimou os castelos de papel, esmagou os sapos encantados e matou as pessoas que até então viviam felizes para sempre. Os Estraga-Prazeres, cientistas com mercurocromo no lugar do sangue, transformaram o ''era uma vez...'' em ''nunca mais!'' e despedaçaram o Espelho Mágico com golpes de marreta.

Sua nova Casa de Usher era na verdade uma armadilha para capturar os cidadãos bons e limpos que integravam a Sociedade de Prevenção à Fantasia e dedicavam-se a lutar contra a ficção e a poesia também em Marte. Só essa crônica valeria a leitura do livro de Bradbury, reeditado neste ano menos hipotético (será?) de 2005. Não importa que o escritor seja hoje, com 85 anos, ferrenho defensor de George W. Bush, justo o inimigo-mór dos livros e da imaginação: os romances costumam sobreviver inclusive a quem os escreveu e a suas piores opiniões.

Enquanto se prepara para matar uma das tais pessoas de Mente Limpa, o senhor Stendahl proclama, ao ser interrompido, uma nova regra de etiqueta: ''Estou sendo irônico. Não interrompa um homem no meio de uma ironia. É falta de educação''. A ironia leva o leitor do absurdo ao sarcasmo em todas as crônicas do livro, publicadas separadamente em revistas de pulp fiction na década de 40. Cada crônica marciana pode ser lida como um conto, mas a leitura em seqüência dá ao leitor, de presente, um belo romance. O escritor não se preocupou em prever o futuro nem muito menos em ser realista. Antes, usou o suposto futuro e um planeta Marte igualmente suposto para reconhecer nossa estranheza, para se admirar com o mistério sem tentar destrui-lo.

Na última crônica, o chefe de uma família que fugiu da guerra nuclear na Terra conta para os filhos que ''a ciência avançou muito à nossa frente, rápido demais, e as pessoas se perderam na loucura mecânica''. Um dos filhos, tentando fugir da angústia, lembra ao pai que sempre quis ver um marciano: ''Onde eles estão, pai? Você prometeu''. O pai aponta para o reflexo da família na água do canal e responde: ''Ali estão eles''. Eles então se olham de volta silenciosamente, por um longo tempo, indicando que a procura sempre devolve quem procura a si mesmo.

Este é o enigma, tanto da ficção quanto da ciência.

Esta é também a solução do enigma.

Gustavo Bernardo é professor de Teoria da Literatura na Uerj e autor do ensaio A ficção cética (São Paulo: Annablume, 2004).


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[17/DEZ/2005]


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