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Exposição lúcida em tema lúgubre
Em seu estilo metafórico, Bauman faz abordagem versátil e abrangente do 'refugo humano'
João Freire Filho*
Jornalista
Vidas desperdiçadas
Zygmunt Bauman Tradução de Carlos Alberto Medeiros. Jorge Zahar 176 páginas. R$ 26 No seu clássico da antropologia cultural, Pureza e perigo (1966), Mary Douglas argumentou que a sujeira é, essencialmente, desordem, desafio a sistematizações e fronteiras - qualquer objeto ou idéia capaz de confundir ou contradizer classificações ideais (o fora-de-lugar, o híbrido, o mestiço etc). Imundos, pode-se dizer, portanto, são todos aqueles que não se encaixam no mapa cognitivo, moral e/ou estético do mundo, conforme ratificou Zygmunt Bauman, em O mal-estar da pós-modernidade (1998). Acrescentando à abordagem estruturalista de Douglas uma perspectiva marcadamente política, o sociólogo polonês se revelava interessado, sobretudo, pelos casos em que outros seres humanos são concebidos como obstáculo para a apropriada ''organização do ambiente''. A reflexão acerca das encarnações da sujeira e da busca da pureza dividia espaço, em O mal-estar na pós-modernidade, com outros tópicos diletos de Bauman, como a relação entre moralidade e justiça e a redefinição da liberdade na sociedade de consumo. Já no mais recente Wasted lives: modernity and its outcasts (2004), o professor emérito das universidades de Leeds e Varsóvia concentra esforços no desenvolvimento de uma teoria social sobre a produção e distribuição do ''refugo humano'' - seres inválidos, cuja ausência ou cujo desaparecimento só traria benefícios para a paisagem social, tornando-a mais uniforme, harmoniosa e segura. O livro - o vigésimo nono do alentado currículo de Bauman - acaba de ser lançado no Brasil, com o título de Vidas desperdiçadas. A omissão do subtítulo original (''a modernidade e seus párias'') escamoteia a tese central da obra: da mesma forma que os restos materiais são um subproduto da produção, o refugo humano é um subproduto inevitável da modernidade. Em outras palavras: as tais ''vidas desperdiçadas'' consistem, essencialmente, no efeito colateral da construção da ordem e do progresso econômico. Durante a maior parte da história moderna, a distribuição do refugo era, do ponto de vista dos países desenvolvidos, apenas uma questão de recolocação - mais precisamente, de exportação de ''mão-de-obra excedente'' para as partes do planeta que permaneciam total ou parcialmente intocadas pelas pressões modernizadoras. Agora, no entanto, ''o planeta está cheio'' - a modernização progrediu de modo triunfante, atingindo os cantos mais longínquos do globo, e não há escoadouros prontamente disponíveis para a ''reciclagem'' ou a ''remoção'' segura do rebotalho humano. Como o volume do ''lixo'' supera a atual capacidade gerencial, existe uma expectativa plausível de que a modernidade pereça sufocada nos próprios dejetos. Bauman distingue duas categorias de ''refugo humano'': os redundantes e os refugiados. Ser ''redundante'' significa ser extranumerário, desnecessário - uma mercadoria desprovida de atração e compradores. Os redundantes se diferenciam dos desempregados, já que esta classificação sugere um problema temporário cuja cura é o emprego. Não há remédio, porém, para os redundantes: ''O destino dos desempregados, do 'exército de reserva de mão-de-obra', era serem chamados de volta ao serviço ativo. O destino do refugo é o depósito de dejetos, o monte de lixo''. Os refugiados - as pessoas em busca de asilo, os ''imigrantes econômicos'' - figuram, por sua vez, como subprodutos da globalização. Oriundos de áreas de conflitos tribais e de lugares-alvo das operações militares globais, os refugiados não possuem função útil para exercerem na terra em que desembarcaram e na qual permanecerão temporariamente. ''Espectros das forças globais'' representam nova fonte de medo e ansiedade, contribuindo, involuntariamente, para a passagem do Estado social àquilo que Henry A. Giroux classificou de ''Estado guarnição'', em que os interesses das corporações transnacionais são cada vez mais protegidos, e os problemas sociais crescentemente criminalizados. Vidas desperdiçadas oferece, ao leitor, uma exposição lúcida de um tema lúgubre. Ao longo das 170 páginas do livro, Bauman se mantém fiel ao seu estilo metafórico e a um tipo de abordagem versátil, abrangente e transdisciplinar, pouco usual entre os sociólogos. Ainda que possa desagradar a alguns por sua suposta falta de maior rigor metodológico e conceitual, o autor tem o mérito inegável de encarar um problema pouco focalizado na esfera midiática e nos discursos e nas plataformas políticas. Comenta-se muito, com razão, a respeito das conseqüências funestas do lixo industrial e doméstico para o equilíbrio ecológico; todavia, recebem escassa atenção, comparativamente, os efeitos de longo alcance das ''pessoas postas de lado'' sobre o equilíbrio político e a coexistência humana na Terra. Numa notável ironia histórica, foi necessária uma catástrofe natural da magnitude do furacão Katrina, para que nos lembrássemos da disparidade social entre ricos e pobres na ''mais poderosa nação do mundo'' (são mais de 37 milhões de americanos vivendo abaixo da linha de pobreza, numa taxa que vem aumentando nos últimos quatro anos, de acordo com a edição de setembro da revista Newsweek). Na conclusão de Vidas desperdiçadas, Bauman amplia o foco de sua análise e discute os traços principais da ''cultura do lixo'' contemporânea (a cultura da insegurança diante da hipótese de ingressar no rol dos descartáveis; da obsolescência cultural hipercinética; da impossibilidade de estabelecimento de compromissos). Na ótica do autor, os reality shows dramatizam medos e fantasias subconscientes daqueles que vivem na modernidade líquida. Big Brother, Survivor, The weakest link... Todos eles nos contam a mesma história: ninguém, a não ser uns poucos vencedores solitários, é realmente indispensável; uma pessoa só é útil a outra enquanto puder ser explorada; a sobrevivência é o nome do jogo da convivência humana e o derradeiro propósito da sobrevivência é sobreviver aos outros. O antigo Big Brother (aquele imaginado por George Orwell, que governava fábricas fordistas, acampamentos militares e outras prisões de índole pan-óptica) estava interessado em incluir - integrar, pôr as pessoas na linha e conservá-las assim; já a preocupação do novo Big Brother é excluir - identificar as pessoas ''desajustadas'' no lugar onde estão, expulsá-las de lá e exilá-las para o lugar ''que lhes pertence'' ou, melhor ainda, jamais permitir que se aproximem. O Big Brother antigo, encontrado nas partes mais marginalizadas do espaço social, é o patrono dos carcereiros; o Big Brother novo instrui agentes de imigração, banqueiros e vigilantes de bairro sobre quem merece crédito, quem deve ser detido na porta ou banido do lugar. Juntos, os dois irmãos abrangem todo o universo social. Nosso desafio - conclui Bauman - é decidir se a única escolha aberta aos seres humanos é entre os Big Brothers 1 e 2 - isto é, ''se o jogo da inclusão/exclusão é a única maneira pela qual se pode conduzir a vida humana em comum e a única forma concebível que nosso mundo compartilhado pode assumir - receber - como resultado''.
*João Freire Filho é doutor em Literatura Brasileira e professor da ECO/UFRJ.
[01/OUT/2005]
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