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Mundo judaico em discussão

Coletânea reúne artigos que vão dos conflitos palestinos à Cabaláh

Davy Bogomoletz

Psicanalista e mestre em literatura judaica pela USP

Tribunal da história - julgando as controvérsias da História Judaica
Saul Fuks
Relume Dumará
R$ 44,90

Tribunal da História é um livro sui generis. Não por se tratar de uma coletânea, pois dessas há muitas. Mas por representar uma inesperada contribuição da comunidade judaica brasileira, ínfima em números, quase desprezível em contribuição cultural, quase inexistente em termos políticos (atualmente, a bem da verdade porque já o foi, nos idos do Judaísmo de esquerda), para o pensamento judaico como um todo.

Saul Fuks, o organizador do curso que deu origem ao livro é um louco. Engenheiro de formação, tornou-se físico, com um brilhante PhD em Berkeley e hoje é filósofo, cientista político (embora não profissional) e intelectual judeu (dos melhores). Saul Fuks ''bolou'' e ''costurou'' até agora uma série de cinco ou seis cursos anuais do mesmo gênero, todos com esmerada escolha de palestrantes e temas e com a preocupação de entrelaçar o ''problema judaico'' à existência contemporânea, da comunidade judaica no Brasil e da coletividade brasileira como um todo, sempre que possível.

O livro é a forma escrita de apenas um desses cursos semestrais que Saul vem fazendo acontecer a cada ano e dessa vez aborda as controvérsias que marcaram a História do povo judeu. No livro há uma sequência de 15 viagens, pelo tempo, pelo espaço e por essa outra dimensão menos facilmente mensurável, a cultura.

De início, uma discussão erudita e emocionada sobre a missão messiânica de Jesus de Nazaré, o judeu que marcou o mundo, apresentada por ninguém menos que Maria Clara Bingemer, decana (!) do curso de Teologia da Puc-Rio. Levados por Nachman Falbel, grande medievalista da USP, o diálogo, tenso mas amoroso entre Maimônides, o racionalista - aquele de quem Santo Tomás de Aquino aprendeu - e Nachmânides, o místico, que tornou o misticismo judaico, até então um tanto marginal, ao establishment judaico, num eixo legítimo.

A expulsão dos judeus da Espanha católica e o surgimento daquilo que se tornou sinônimo ao mesmo tempo de polícia secreta e intolerância religiosa - a Inquisição espanhola, vem a seguir. Nos deparamos também com a controvérsia que marcou a vida e o pensamento de Spinoza, apresentada por Emmanuel Carneiro Leão, o grande filósofo brasileiro.

Há ainda uma reflexão instigante da Cabaláh, a ''ciência'' mística judaica. E o meu ensaio, discutindo se o Hassidismo, essa maravilhosa corrende mística surgida no século 18, foi ou não responsável por uma divisão dos judeus. Uma aula sobre sofrimento e desenvolvimento dos vários movimentos judaicos que proliferam da modernidade para cá é dada pelo Ravino da ARI, no Rio, Sérgio Margulies, e uma apresentação brilhante sobre identidade judaica é feita por ninguém menos que Moacyr Scliar.

Desse momento em diante os temas que se sucedem são tão complexos quanto fascinantes, como a a tensão permanente entre as comunidades judaicas de Israel e o resto do mundo, com pensamentos argutos do sociólogo Bernardo Sorj, e o holocausto, discutido por Renato Lessa. E fechando com chave de outro, um texto de Saul Fuks, no qual é discutida a questão mais candente de todas - a possibilidade (ou não) de entendimento e da convivência entre os dois primos que (ainda) se odeiam: israelenses e palestinos. Um livro que vale uma viagem - no tempo, no espaço, na cultura.


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[10/SET/2005]


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