A coleção Canto do Bem-Te-Vi nos traz cinco livros de estréia de jovens poetas, provenientes de diferentes partes do país. É uma bela floração de poesia de qualidade. E não podia ser de outro modo. O terreno já era propício de antemão. A verdade é que desde os anos 90 está em curso no Brasil um novo movimento poético. Movimento difuso, proliferante, sem líderes ou cabeças reconhecidos, nem escolas ou tendências muito marcadas. Em termos de história literária, estamos vivendo uma espécie de período ''pós-pós''. Não mais ''pós-marginal'' e sim pós-pós-marginal, pós-pós-modernista. Ou se quiserem, uma segunda onda do pós-modernismo. É basicamente dentro dos parâmetros dessa nova poesia brasileira de final e virada de século que podem ser situadas as dicções singulares dos cinco estreantes em livro da coleção Bem-Te-Vi.
O fato mais digno de nota no novo contexto tem sido a afirmação de um conceito de poesia muito claro, embora raramente explicitado pelos novos poetas. Estes em geral detestam manifestos e preferem a prática concreta do poema e da luta a sério por publicação e visibilidade. Não a mega-visibilidade do mercado maior, mas o lugar ao céu dos suplementos culturais e sites literários. Com nitidez, a poesia se reivindica espaço de defesa da alta cultura e da exigência intelectual, remando contra a corrente do pornopop, ou seja, contra a dominância do espírito de entretenimento leve. Nesse sentido, venho caracterizando a segunda onda do nosso pós-modernismo poético como ''reação cultural''.
Como se verá, trata-se de reação ambivalente. De qualquer modo, enquanto moldura prévia e atitude fundamental, ela subjaz a todos os projetos individuais reunidos na coleção Canto do Bem-Te-Vi. A poesia escrita por esses cinco jovens não se destina ao consumo fácil, são textos que na maioria demandam atenção e dedicação do leitor. Com base em tal parâmetro comum, pode-se observar que Leonardo Martinelli, Lígia Dabul e Mônica de Aquino optam por uma linguagem mais minimalista, mais formalista, dentro da tradição brasileira, moderna-clássica, de poética do rigor (tipo Cabral, tipo concretos), ao passo que Marco Vasques e Ricardo Domeneck, de formas diferentes, buscam aproximar-se de discursividade.
No caso de Marco Vasques, temos certa retomada da poética da eloqüência. Já no de Ricardo Domeneck, a presença da rítmica discursiva associa-se ao jogo de cortes e elipses próprio da poética do rigor, de tal sorte que dos cinco poetas ele é o mais inovador em matéria de estética, embora pelo caráter experimental e aberto seus poemas nem sempre pareçam tão meticulosamente pensados como todos de Leonardo Martinelli e alguns de Lígia Dabul. Dos cinco volumes, o de Lígia é aquele em cujos textos ainda encontramos ressonâncias do tom marginal ou pós-marginal, com ecos de gíria e uma espontaneidade rascante. Alguns poemas de Mônica de Aquino manifestam autêntica explosão de talento poético intuitivo, ao qual o recurso a Sylvia Plath parece indicar o desejo de impor certa ordem.
Leonardo Martinelli guia-se por um princípio estrito de formalização, de objetivação. Em contraste, Ricardo Domeneck flerta com o ''informe'' da linguagem: nele, a imaginação enquanto torção deliberada e até absurda ou inverossímil da expressão suplanta o esforço construtivo. Comparativamente, na poesia de Leonardo, o efeito de estranho vem da articulação cerrada de imagens visando apreender obliquamente o objeto mental, que é difuso. Seguindo a velha lição eliotiana, o objeto mental é difuso porque formado por emoções e por meras impressões, as quais no entanto constituem justamente aquilo que o sujeito poeta quer fixar no papel através do sistema de metáforas - o poema é simulacro, é ''objeto correlato''.
Mencionei os estranhamentos que a boa poesia como prática de alta cultura sempre produz. Aqui cabe novamente situar os poetas e as poetas da Coleção Bem-Te-Vi no contexto da poesia dos anos 90 e 00. Essa poesia cria um espaço de referência cultural e literária, cultivando tradições, às vezes revirando-as ou ampliando-as, mas respeitando-as. Articulado a isso, o poema, e mais ainda do que ele, o livro de poemas, escrito por nossos mais jovens e talentosos poetas, também torna-se espaço de estabelecimento de referências literárias e culturais. O poema e o livro de poemas tornam-se gráficos da vivência da leitura, gráficos de sensibilidade literária. O poema é o ponto de intersecção entre vivência e cultura enquanto fatores constitutivos de uma história de si.
É aí que entra, e não de contrabando, o dado pop. Freqüentemente, nestes poetas, as referências literárias vêm misturadas a elementos da cultura pop. Marco Vasques dedica suas ''elegias urbanas'' a Renato Russo, Cássia Eller e Cazuza. Ricardo Domeneck cita Morrissey, o poeta da banda The Smiths, com direito até a pé de página. E Leonardo Martinelli, além de ser ele próprio roqueiro na vida real, dedica poemas a Jimi Hendrix e Miles Davis. Daí porque me referi anteriormente à ambivalência nas relações entre a nova poesia brasileira e a cultura pop dominante. Se a primeira deseja assegurar-se uma área protegida da superficialidade exibicionista da segunda, por outro lado poucos dos poetas interessantes atuais deixam de incorporar a seus textos o reconhecimento de que foram parcialmente educados por letras de rock.
Curioso que as poetas mulheres da coleção se fiem menos nessa estratégia de demarcar terrenos pela via da citação erudita ou da citação de um pop reciclado em alta cultura. Nelas, o que vemos presente, de maneira cada vez mais sutil e sofisticada em relação às antecessoras, é ainda e sempre a busca de uma expressão erótica feminina. Na poesia pós-modernista brasileira, o ''feminino'' tem sido sobretudo o descortinar de eróticas femininas, no plural. Os livros de Mônica de Aquino e Lígia Dabul atestam isso, embora estejam longe de esgotar-se nesse veio. Se nos mantemos no tópico das questões de eros e de gênero, sem as quais qualquer lirismo é impensável, cabe assinalar a originalidade dos poemas gays de Domeneck e a delicadeza conturbada do desejo hetero em Martinelli.
*Italo Moriconi é professor de Literatura da Uerj