Um escritor do contra

Carlito Azevedo
Enrique Vila-Matas (Barcelona, 1948) está no Brasil para o lançamento de O mal de Montano, um romance que para muitos é, pelo menos até agora, a sua obra-prima. Já conhecido pelo público brasileiro por dois outros romances – A viagem vertical e Bartleby e companhia, todos publicados pela Cosac Naify – Vila-Matas, que amanhã se apresenta na Flip, em Paraty, forma com o chileno Roberto Bolaño, o colombiano Fernando Vallejo, o argentino César Aira, o mexicano Juan Villoro e alguns outros, a linha de frente da grande renovação da prosa em língua espanhola, que desde o boom dos anos 60 não se revelava tão criativa e poderosa como agora. E o que é melhor, em vez de ceder a certo exotismo mercadológico, crime de que foram vítimas, ou cúmplices, alguns autores do boom, essa nova leva da prosa hispânica alia consciência crítica, inventividade literária e um humor autocorrosivo ímpares. Nesta conversa com o romancista, além de questões sobre O mal de Montano e sobre seu estilo literário particular, quis enfatizar o caráter firme de sua atitude no tenso ambiente das relações entre o catalão, sua língua materna, língua proibida durante os anos da ditadura de Franco, e o castelhano. Escrevendo sempre contra algo, contra o realismo espanhol ou os mercenários da literatura, Vila-Matas nunca deixa, contudo, de celebrar a escrita como o único espaço onde se consegue vivenciar a impressão da autêntica liberdade. Nem de homenagear a literatura por nos oferecer uma linguagem alternativa “à tirania das linguagens da política, do trabalho e da família”.
– Paul Valéry dizia que a função de um livro é surpreender o seu autor. Foi surpresa ou opção escrever um livro como O mal de Montano, sobre um personagem obcecado por literatura, imediatamente após Bartleby e companhia, em que o senhor trata justamente de escritores que abandonaram essa mesma literatura?
– Creio que escrevi Bartleby e companhia com uma certa inconsciência, pois na própria entrevista coletiva de lançamento do livro, organizada por minha editora espanhola, me dei conta de que tinha caído em minha própria armadilha e que talvez nunca mais voltasse a escrever. Foi quando uma jornalista me fez uma pergunta de última hora, uma pergunta de resto tão habitual: “O que está escrevendo no momento? Qual será o seu próximo livro?”. Senti-me de imediato um Bartleby, pois aquilo me fez perceber que não estava trabalhando em nenhum livro novo. Cheguei a enrubescer. Nos dias seguintes busquei uma solução para aquele beco sem saída e fui dar no outro extremo dos “bartlebys” (escritores que deixam de escrever). Comecei a planejar um romance no qual o narrador sofresse dessa doença da literatura e, entre outras coisas, quisesse (e necessitasse) escrever o tempo todo. Para minha grande surpresa apareceu-me Montano. Você sabe que, para alguns, aparece a Virgem. No meu caso apareceu-me esse louco do Montano. É o livro mais livre de todos os que escrevi até agora. É uma fonte de ódio absoluto para meus inimigos, e de prazer para os meus admiradores.
– E como fazer para dominar essa “visão” ou “aparição” de Montano?
– Enquanto o escrevia, pensava que esse livro era mesmo uma loucura. O momento chave foi quando me dei conta de que se tratava do monólogo de um sujeito completamente louco, um obcecado por literatura, e então busquei para ele um acompanhante, uma espécie de Sancho Pança, um companheiro que a toda hora o lembrasse e fizesse ver que estava enlouquecendo. Isso, paradoxalmente, me permitiu deixá-lo enlouquecer ainda mais e (sem incomodar demais os leitores) chegar a acreditar que encarnava em si toda a história da literatura.
– Em O mal de Montano são citados como “inimigos do literário” tanto certa tradição realista espanhola como aquele subgênero que poderíamos chamar de “romances de celebridades”. O que mais incomoda: a falta de imaginação da primeira ou a ambição por sucesso financeiro do segundo?
– Sterne escreveu Tristram Shandy para poder mostrar seu desacordo com uma idéia de Locke que acabara de ler. Eu costumo escrever todos os meus livros contra alguma coisa, alguma idéia, algum pensamento com o qual não estou de acordo. Sempre escrevo contra algo. E, no caso desse livro, comecei escrevendo-o com verdadeira fúria contra o “realismo espanhol”, que sempre me boicotou. E contra Madri, o lugar onde literariamente menos me querem, embora, é bem verdade, cultive ali alguns amigos. Mas, sem perceber, fui deslizando ao mesmo tempo na direção de uma crítica dessas atitudes que revelam no escritor uma inestancável sede de dinheiro. Rumei na direção de uma crítica dessas ambições estúpidas de meus compatriotas, de todos esses escritores (vamos deixar as coisas claras? Os “paulocoelhos” espanhóis) que se valem da sisudez e das falsas aparências para encobrir as deficiências de sua mente. Já dizia o próprio Sterne: “A gravidade, essa misteriosa atitude do corpo para ocultar os defeitos da mente”.
– Aproveitando que citou Tristram Shandy, que é um de seus livros favoritos, queria tocar num assunto específico. Sempre me perguntei por que a tradição inaugurada pelo Quixote teve que esperar tanto tempo para ser retomada, e incrivelmente não na Espanha, mas na Inglaterra, com Sterne, sim, mas também com o Fielding de Tom Jones. É certo pensar que a literatura espanhola não seguiu a trilha do Quixote?
– Isso é totalmente certo. Trata-se de um livro profundamente humorístico que não teve continuação na severa e pomposa literatura espanhola que se seguiu ao Quixote. Os castelhanos não têm muito humor, diversamente dos nascidos catalães, galegos, levantinos... A proximidade do mar parece propiciar o riso. E amiúde se esquece que o segundo sobrenome de Cervantes era Saavedra. Por sua origem, ele era galego.
– Quando lhe perguntaram se escrevia em espanhol ou catalão, o senhor saiu-se com uma resposta que achei formidável: “Quando falo em catalão, digo sempre a verdade, porque é minha língua materna e minha mãe me ensinou a nunca mentir. Quando quero penetrar no terreno da ficção, o castelhano é minha língua ideal”. Como vê a questão das literaturas nacionais?
– Para mim, as literaturas nacionais são algo já defasado. Culturas fechadas só servem para que seus representantes se ofereçam medalhas uns aos outros e desterrem os excêntricos. Por outro lado, que me tenham desterrado sempre me agradou fantasticamente. Quero ser estrangeiro sempre. Mas há algo mais por trás dessa resposta que você qualifica de formidável. Elaborei-a para sobreviver às tensões lingüísticas da Catalunha, mas essa frase foi mais do que um simples desejo de que os detetives da identidade me deixassem em paz. Embora pareça uma homenagem à língua catalã, não o é exatamente. Não esqueçamos que dei a um de meus livros o título de Lembranças inventadas, pois me considero um fabulador que vê a verdade como uma divisa bastante desgastada, uma moeda muito desvalorizada. Como observou recentemente o escritor mexicano Juan Villoro, eu me formei em castelhano, mas comecei a publicar depois da transição política, quando a normatividade lingüística se deslocava com muita ênfase para o catalão. Deleuze e Guattari observaram que Kafka escrevia em uma “língua menor”: o alemão no seio de uma comunidade onde predominavam o tcheco e o iídiche. Diferentemente de Juan Marsé ou Eduardo Mendoza, não sou alguém que “continuou” a publicar livros em castelhano depois da liberação do catalão, mas sim alguém que “começou” a fazê-lo tardiamente.
– Quais as características de uma prosa que resulta de tais posições e tais circunstâncias?
– Exótica para Madri e para a nova Barcelona, pratico uma prosa alheia aos coloquialismos de Juan Marsé tanto quanto à exuberância de Juan Goytisolo; uma língua menor, na clave de Kafka: clara e cortante. Meu estilo literário é o de quem chega tarde e por isso tem pressa. Exatamente por ter chegado depois devo economizar preâmbulos. Ante a vida parda do franquismo e o sonho monolíngüe da Catalunha governada durante 23 anos por Jordi Pujol, opto por um castelhano despojado de referentes locais, um cristal diáfano para minhas invenções.
– Como concilia essa consciência dos “males” da literatura e a alegria de escrever?
– À medida que vamos envelhecendo e sabendo mais coisas (embora saibamos que nunca chegaremos a saber nada realmente, e digo isso com certo tom pessoano), vamos descobrindo com assombro quão incrivelmente maravilhoso é poder escrever (só escrevendo encontro o que para mim é a liberdade absoluta) e o grande luxo que é poder tornar público um discurso próprio, por mais que esse discurso diga que tudo desaparecerá um dia, os livros, o mundo, tudo desaparecerá. Só nessas ocasiões conheci a autêntica liberdade, essa liberdade que me legou a grande festa da escrita.
– Antes de encerrarmos essa conversa, gostaria de tocar em dois pontos. Como fã de seus contos, especialmente aqueles reunidos no volume Suicídios exemplares, queria saber se é um gênero que abandonou definitivamente. O outro ponto vem do fato de o senhor ser um refinado leitor de poesia, coisa raríssima. O que o atrai na poesia?
– Nestes últimos dias estive justamente planejando um regresso aos contos. Cada vez mais tenho vontade de fazê-lo. Mas se você notar bem, em meus últimos romances podem ser detectados alguns contos (é o caso, por exemplo, do encontro com Salinger em Bartleby e companhia). Quando leio poesia, não sinto inveja de ninguém (o que, ao contrário, me ocorre quando leio romances, contos ou ensaios) porque não me considero poeta. Sei que isso está reservado para os grandes, o que me permite ler poesia com muita tranqüilidade. É como se eu tivesse nascido depois da poesia; é, penso agora, como se tivesse chegado tarde demais à grande literatura... Por isso me perdoe... estou com uma certa pressa agora...
[09/JUL/2005]
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