Paul Newman chegou aos 80. De idade. De velocidade, continua a beirar os 300km por hora. Fez aniversário em 26 de janeiro e resolveu se dar um presente: disputar as 24 horas de Daytona, tradicional prova do automobilismo americano. Descolou carro, alugou equipe e chamou quatro amigos para dividir o volante: Michael Brockman, velho colega de pistas e das telas — que conheceu disputando das 24 horas de Le Mans em 1979 —, o francês Sebastien Bourdais, piloto da equipe de Paul, a Newman-Haas, na Cart, e Cristiano da Matta, ex-piloto da equipe.
Newman, figura que em algumas mulheres exerce efeito semelhante ao provocado por Chico Buarque, ligou para Cristiano dias antes. “Prometeu à mulher que seria a última corrida”, conta o brasileiro, que está na equipe PKV Racing de fórmula Cart. “Ele repete isso há anos”, diz rindo.
O carro, um Ford Crowford, não era uma maravilha. Os mecânicos, pagos por empreitada, amadores. O número 79 estampado na porta trazia um “+1” pintado ao lado, bem menor. Alusão à idade de Newman.
Largaram em 13º lugar entre 63 carros. “Paul virava as voltas entre 5 e 6 segundos a menos que eu ou o Bourdais. O carro não é leve, o motor tem 450 cavalos, a direção é hidráulica, mas Paul é uma fera”, elogia Cristiano. A brincadeira durou 11h25m55s62. Foram 290 voltas apenas e o quarteto ficou em 51º lugar.
O ator e piloto – que costuma usar os óculos escuros pendurados no queixo e mantém a forma disputando até provas de Sprint — aquela corrida maluca de buggies em pistas de terra — derramou o jeito gaiato em entrevista no dia seguinte ao aniversário. “Tento mentalmente me mover para trás no tempo. Ontem, passei horas chupando o dedão tentando voltar à infância. E começo a mentir sobre a idade. No carro aparece 79. Ano que vem vai ser 78, depois 77...”
Pena. Tom Wolfe não estava por lá. O escritor americano certamente transformaria esta história num clássico. Mais um. Como fez em 1964, originalmente para a revista Esquire, sobre Junior Johnson, um piloto de stock car transformado por Wolfe no “Último herói americano”. O texto está na coletânea Radical chique e o novo jornalismo, recém-lançada na coleção Jornalismo Literário, que reúne obras-primas como Fama e anonimato, de Gay Talese, Hiroshima, de John Hersey, A sangue frio, de Truman Capote, ou A milésima segunda noite, de Joel Silveira.
Wolfe despeja detalhes à exaustão, com estilo brilhante e apuração acuradíssima dos fatos para contar a quase lenda do jovem que aprendeu a dirigir entregando uísque para o pai durante a Lei Seca.
Como faz Maria Bethânia com qualquer canção que decide gravar, Wolfe transforma o que seria banal em jóia lapidada. Entre diálogos curtos preciosamente reproduzidos, abuso de mudanças de ponto de vista e o inigualável uso da pontuação, sua marca.
“E, de repente, na manhã de domingo, meu carro pára no meio do maior congestionamento da história do mundo”, escreve Wolfe em primeira pessoa. “O condado de Wilkes é inteiro de montanhas, cumes, florestas e mato, cheio de pinheiros, bordos resinosos, freixos, bétulas, macieiras, rododentros, pedras, vinhedos, tetos de zinco, lugarzinhos de madeira como a Igreja Batista de Mount Olive, placas de coisas como Doublé Cola, Sorvetes Sherrill, Armazém Eckard, Dr. Pepper, Maçãs Diel, Google's Place Suddith's Place e — sim! — carros.” Não deixa passar nada. Não tem tempo a perder, nem quer isso para os leitores.
“O que se chama box é um espaço pavimentado à beira do centro da pista. De quando em quando, um carro estala, pigarreira, tosse, escarra, roda na pista em si para uma volta de aquecimento.” Quem nunca passou perto de um autódromo há de encantar-se com tal descrição. “Essas belas florzinhas em botão, de shorts curtinhos, já estendidas em cima das capotas, deitadas em cima da boa e dura folha de metal dos automóveis brilhantes, os traseirinhos feito bolinhos voltados para o sol” são frases que nos fazem consumir as páginas como os carros devoram o asfalto quente. Tom Wolfe leva o leitor para dentro da “tigela quente” e para a vida de John sem deixar de historiar a era da produção de uísque ilegal.
Em “A garota do ano”, como o texto anterior, reproduzido do livro The kandy-kolored tangerine-flake streamline baby (O aerodinâmico bebê floco de tangerina cor de caramelo), conta a história de Baby Jane. “Aquela garota ali no corredor, Baby Jane, é uma garota fabulosa. Qualquer colunista de Nova York pode dizer quem é ela... uma celebridade da nova era de Wog Hip e, Nova York... Jane Holzer nos filmes underground de Andy Warhol, Jane Holzer no mundo do High Camp, Jane Holzer no rock and roll, Jane Holzer é — bem, dá para colocar isso em palavras?”
Alguns parágrafos depois, oferece uma das mais deliciosas descrições do líder dos Stones, Mick Jagger, num show: “Tem dois lábios peculiarmente graúdos e extraordinariamente vermelhos. Pendurados no rosto como moelas de ave. Lentamente seus olhos se derramam como xarope Karo sobre a horda de brotinhos chamejantes, depois se fecham, e os lábios começam a se abrir no mais lânguido, mais confidencial, mais úmido, mais labial, mais conscupiscente sorriso que se pode imaginar.” Puro Tom Wolfe.
Na seqüência das reportagens inesquecíveis do autor de Os eleitos e de Fogueira das vaidades reproduzidas neste livro, encontra-se Radical Chique, que faz parte de Radical Chique e o horror dos RPs, lançado há alguns anos pela Rocco.
O ponto central é uma festa no apartamento de Leonard Bernstein — STEIN!!, como faz questão o maestro — para militantes dos Panteras Negras. Ele vai às entranhas de um momento em que a sociedade “por uma daquelas sublevações do dinheiro novo que fazem a história social de Nova York assemelhar-se à história política do Caribe, o que significa uma revolução a cada vinte anos, se não menos.” Ele transporta o leitor para o apartamento de Bernstein — STEIN!!! — sem se esquecer de contar a história da sociedade novaiorquina. De-ta-lha-da-mente.
Em certo momento, cita uma festa beneficente no gramado de uma mansão: “De forma que todos lá ficaram, com seus vestidos Pucci, sapatos Gucci, echarpes Capucci, imaginando ser esposas de trabalhadores em vinhedos ou se perguntando se aquele maldito vento não ia parar nunca. O vento tinha vindo do mar e estava acabando com os cabelos de todo mundo. Havia pessoas ali paradas apertando a cabeça com as mãos como se o local tivesse sido atacado por um raio perfurador do cérebro da Dimensão Roxa.”
Bem, tudo isso é a segunda parte do livro, na seleção de Matinas Suzuki Jr.
A primeira, retirada de The New Journalism, é uma aula de pesquisa e bom estilo sobre reportagens da imprensa americana na década de 60 que revolucionaram tanto o jornalismo quanto a literatura. Para quem gosta de ler ou pretende ousar escrever, é obra obrigatória.
Wolfe ensina haver “quatro recursos específicos, todos realistas, subjacentes à qualidade de envolvimento emocional dos mais potentes textos em prosa, sejam eles de ficção ou não-ficção”. E detalha: “construir cena a cena recorrendo o mínimo possível à mera narrativa histórica; testemunhar de fato as cenas da vida das outras pessoas no momento em que ocorrem, registrando o diálogo completo, pois tal diálogo envolve o leitor mais completamente do que qualquer outro recurso; usar o ponto de vista da terceira pessoa ou apresentar cada cena por intermédio dos olhos de um personagem particular, dando ao leitor a sensação de estar dentro da cabeça do personagem e, finalmente, o menos entendido dos recursos: o registro de gestos, hábitos, maneiras, costumes, estilos de mobília, roupa, decoração, maneira de viajar, comer, manter a casa, modo de se comportar com os filhos, os criados, os superiores, inferiores, os pares, os ares, olhares, poses, estilos de andar e outros detalhes simbólicos do dia-a-dia que possam existir dentro de uma cena. Simbólicos de quê? Do status de vida da pessoa. O registro desses detalhes não é mero bordado em prosa. Ele se coloca junto ao centro de poder do realismo, assim como qualquer outro recurso da literatura.” Como Balzac, “vai empilhando esses detalhes tão impiedosa e meticulosamente...”
Tom Wolfe joga uma pá de cal nos pretensiosos: “O gênio de qualquer escritor, de ficção ou não, estará seriamente comprometido se ele não conseguir dominar ou se abandonar as técnicas do realismo.”
Neste início do livro, Wolfe recorda o primeiro emprego no New York Herald Tribune: “Todo o intestino do edifício ficava à mostra nas alças e linhas de uma diverticulite — conduítes elétricos, canos de água, canos de aquecimento e vapor, dutos de chuva, sistemas de sprinklers, tudo pendurado e gemendo no teto, nas paredes, nas colunas.”
Antes de tornar-se um dos nomes mais importantes do novo jornalismo — ou jornalismo literário como preferem alguns — Wolfe se escandalizou com um texto confessional de Seymour Krim, em 1969: “Não entendia porque a Playboy havia publicado aquilo, a menos que fossem os 10cc mensais de penicilina literária que a revista... para combater os gonococos e espiroquetas... Não podia imaginar que alguém além de escritores pudesse se interessar pelo Complexo de Krim. Porém, foi aí que eu errei.”
E chafurda nos gens, no DNA do estilo que ajudou a consagrar: “No começo dos anos 60, uma curiosa idéia nova, quente o bastante para inflamar o ego, começou a se insinuar nos estreitos limites da statusfera das reportagens especiais: talvez fosse possível escrever jornalismo para ser... lido como um romance. Como um romance, se é que me entendem.”
Confessional, revela o que sentiu ao se deparar com um texto de Gay Talese na Esquire, “Joe Louis, o rei da meia-idade” (publicado em Fama e anonimato, da mesma coleção): “Minha reação instintiva, defensiva, foi achar que o sujeito tinha viajado, como se diz... improvisado, inventado o diálogo... Nossa, ele talvez tenha criado cenas inteiras, o nojento inescrupuloso.” E recorda sua primeira incursão no estilo, com o citado aerodinâmico bebê. Começava assim: “Lá vai (Brrrum! Brrrum!) aquele aerodinâmico bebê (Rahghh!) floco de tangerina cor de caramelo (Thphhhhhh!) virando a esquina (Brummmmmm)...”
Longe do lead clássico — qualquer reportagem deve responder, de imediato, o que, quem, quando, como e onde, provoca: “é preciso deixar o leitor falar com os personagens, intimidá-los, insultá-los.”
Aos que se surpreendem com a forma como escreve, explica ter encontrado “uma quantidade grande de pontuações e tipografia dormindo por aí” quando chegou. Descobriu “que coisas como pontos de exclamação, itálicos, mudanças abruptas (travessões) e síncopes (pontos) ajudavam a dar a ilusão não só de uma pessoa falando, mas de uma pessoa pensando.”
Para quem acha simples, de bloco e caneta na mão (jamais gravador), longe dos Googles da vida, capturar boas histórias, Tom Wolfe demarca a era em que tal DNA se desenvolveu. “Os anos 60 foram uma das décadas mais excepcionais da história americana... a época em que os costumes e a moral, os estilos de vida, as atitudes em relação ao mundo mudaram o país mais decisivamente do que qualquer evento político...”
Ou seja, é mais embaixo. “O trabalho de reportagem pressupõe bater penas, cavar. Pode ser tedioso, confuso, fisicamente sujo, cansativo, até perigoso. O ponto de partida do repórter é invadir a privacidade de alguém, fazer perguntas que não têm o direito de esperar que sejam respondidas... e transforma-se num suplicante de canequinha na mão... comportamento que chega bem perto do servilismo ou mesmo da mendicância.”
Aos céticos ou saudosistas desta era da imprensa, avisa: “Se um escritor não acreditar que sua própria escritura é uma das atividades mais importantes da civilização contemporânea, deveria fazer alguma outra coisa que julgue ser... tornar-se um funcionário capacitado do serviço social, ou um conselheiro de investimento para a Igreja Unitária, ou um inspetor da redução de ruído”.