O Encilhamento Ney Carvalho
Vida e Consciência
206 páginas
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O encilhamento é um termo, com múltiplos significados, que também designa a bolha especulativa no Brasil no período de transição da monarquia parlamentarista escravocrata para a república presidencialista com assalariados. Ocorreu, portanto, uma grande mudança - ou melhor, ruptura - política e social, que inevitavelmente teria reflexos nos negócios comerciais e financeiros. Esta é uma das mensagens de Ney Carvalho no livro O Encilhamento: anatomia de uma bolha brasileira.
Além de o texto de Ney Carvalho ser acessível para quem não compreende o funcionamento de uma Bolsa de Valores, o autor foi capaz de chamar atenção para aspectos simbólicos que exemplificam vínculos entre finanças e política. Por exemplo, o Baile da Ilha Fiscal não foi apenas o último evento importante da monarquia, conforme mostra o autor: ''Ao mesmo tempo, aquela festa marcou o clímax das suntuosidades do Encilhamento e serviu como seu divisor de águas''.
Seria fácil para o autor, formado em direito e corretor de Bolsa por 25 anos, descrever o Encilhamento como um evento econômico, que poderia ter sido evitado, se não fosse o crédito em excesso. Para Ney Carvalho, ''o Encilhamento foi apenas e tão somente uma clássica mania especulativa, como tantas outras ocorridas na história da humanidade'', quando há uma ruptura política ou uma inovação tecnológica. Como vários renomados livros estrangeiros sobre o assunto não citam o Encilhamento - possivelmente por desinformação ou desinteresse sobre o Brasil -, não é correto supor que no país nunca ocorreu uma bolha especulativa. Assim, um mérito do livro de Ney Carvalho é classificar o Encilhamento como um efeito manada ao lado da Bolha da Mares do Sul na Inglaterra de 1720, a Mania das Tulipas na Holanda em 1630 ou, ainda, a especulação com empresas de tecnologia nos EUA no final da década de 1990.
Observando a detalhada pesquisa, divulgada no livro, sobre os negócios na época, seria um equívoco sustentar que o Encilhamento decorreu basicamente de insuficiente regulamentação no funcionamento dos mercados, o que teria permitido haver transações de alguns papéis para atividades empresariais inviáveis e até mesmo fraudulentas, com o envolvimento de pessoas ingênuas, inexperientes e desorientadas por boatos. Havia uma atmosfera socio-política adequada para a proliferação de conselhos e boatos, tal como há burburinhos no local dos últimos preparativos para uma corrida de cavalos, que é designado encilhamento por apostadores do turfe. Assim, o termo encilhamento fez uma indevida associação entre mercado de capitais e jogo. Pior, Ney Carvalho mostra como o romance O Encilhamento: cenas contemporâneas, de Visconde de Taunay reforçou a predisposição popular para equiparar as atividades no mercado de capitais a um jogo com desordens, falcatruas e escândalos. Embora não exista negócio com êxito assegurado, esta incerteza não permite generalizar que o resultado de atividades empresariais dependa apenas do acaso ou de atos imorais ou ações ilegais. Todavia, se alguém da elite - como um Taunay amargurado por suas perdas no Encilhamento - reforça a idéia equivocada de que negócios seriam atividades espúrias, como esperar um apoio da opinião pública para a existência de um mercado de capitais eficaz?
É oportuno o prefácio do embaixador Marcílio Marques Moreira, por ele ser o atual presidente da Associação Comercial do Rio de Janeiro, a qual, na época do Encilhamento, abrigava a Bolsa de Valores. Adicionalmente, o ex-ministro da Fazenda expõe a importância do mercado de capitais para financiar o desenvolvimento do país, como alternativa ao endividamento, à inflação e à tributação, quando o controle governamental restringe a ação empresarial. Assim, Marcílio Marques Moreira reforça a mensagem de Ney Carvalho de que ''o mercado de capitais, no Brasil, foi a principal vítima do Encilhamento''.