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O coro do descontente

Em seleção de crônicas, Diogo Mainardi mira em PT e intelectuais

Bernardo Mello Franco

A expressão “Da arte de falar mal” dava título à coluna de Carlos Heitor Cony no finado Correio da Manhã, na década de 60, mas bem que podia ser emprestada ao canto de página que Diogo Mainardi assina na revista Veja há cinco anos, agora condensado em A tapas e pontapés (Record, 208 páginas, R$ 28,90). O próprio Cony é uma das vítimas do livro, na companhia de alvos insuspeitos como Antonio Candido, Alfredo Bosi e Marilena Chauí.

De sua sala toda branca, decorada com poucos móveis e debruçada sobre a Praia de Ipanema, o paulista de 42 anos, ex-morador de Veneza, dispara críticas contra tudo e (quase) todos. Elogios sobram para a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher e o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, “melhor oposicionista que este país já teve”. Além deles, ganham deferência os dois mestres do escritor: Ivan Lessa e Paulo Francis. Ambos deixaram sinais no estilo cortante das crônicas de Mainardi, que alterna entre a crítica visceral e o deboche.

– Sou a terceira linha do Pasquim. Só ocupei o espaço por absoluta falta de concorrência. Tive a sorte de aparecer num momento muito ruim do país – avalia, saboreando a autodepreciação.

Orgulhoso pelo reconhecimento como um dos principais críticos do governo Lula, Mainardi afirma que não é direitista e rejeita a comparação freqüente com o filósofo conservador Olavo de Carvalho.

– Ele faz um bom serviço em sua área. Não tenho propostas nem pretendo apresentar uma leitura complexa da sociedade brasileira. Meu papel é desmontar.

- Como cria sua coluna semanal?

- Comento o que leio nos jornais e assisto na TV. Essencialmente, tento decifrar o que é propaganda e o que não é. A coluna não tratava de política. Na iminência da eleição de Lula, vi que a imprensa brasileira estava muito desarmada em relação ao PT e resolvi entrar no debate. Todo discurso que se baseia em orgulho pátrio, esperança e união nacional tem uma veia intolerante. Desde os anos 30, o Brasil desenvolve a mesma retórica de unidade nacional, que sempre esconde a vontade de calar a oposição.

- Há uma crítica recorrente em seus artigos à intervenção do Estado na economia.

- O ataque ao Estado não é só uma defesa do liberalismo econômico, mas uma defesa do indivíduo, para que ele possa se opor à interferência do governo na vida dele. Nunca tive grandes sonhos coletivos, acho que cada um deve cuidar de sua própria vida.

- Incomoda-se por ter sido convidado para ocupar o espaço de polemista que já foi de Paulo Francis e Arnaldo Jabor no programa Manhattan Connection (no canal a cabo GNT)?

- Francis era meu amigo, ia gostar de saber que estou recebendo o salário que era dele. Cumpro o papel, não é algo que me envergonhe. Não preciso me esforçar para ter a opinião menos convencional. Sei conviver com minha imagem. Não sou muito deslumbrado, nem envergonhado. Caetano Veloso me chamou de abacaxi com caroço. Um dia, vai ter que explicar o que isso significa, pois ainda não consegui descobrir (risos). Falo com liberdade porque não faço parte de panelas. Gosto de pensar a respeito do meu país e não me vinculo a nenhum grupo.

- Deixa de freqüentar alguns meios por causa disso?

- Não é que seja muito convidado... (risos) Mas tem muito assunto dando sopa por aí. Só não aceito dinheiro do governo. Nos dois filmes que fiz, recusei-me a usar dinheiro público. É uma opção. Não quero ter rabo preso.

- O presidente Lula é o principal alvo de sua coluna. O governo está confirmando suas expectativas?

- Todas as minhas más expectativas estão sendo confirmadas. Relendo este livro, vi que estava certo na maior parte dos pontos que denunciei antes da eleição: demagogia, ocupação de cargos, incompetência, mentiras eleitorais. Os petistas não têm uma interpretação moderna da sociedade brasileira, não têm idéia do que é o país. Todos os partidos brasileiros são desprovidos de caráter, mas o PT se elegeu com uma imagem de pureza que nunca teve. No poder, cristalizou a imagem de um partido que topa qualquer parada.

- Como avalia as políticas culturais no país?

- O Brasil precisa de uma guerra civil cultural. Cultura é conflito, não identidade. Quem busca identidade nacional está buscando padronização. Isso é uma concepção autoritária da cultura. Sou contra qualquer política cultural, cultura deve ser dissociada de política. Se o Estado conseguir gastar menos e cortar alguns impostos, o país se vira. Se tiver que haver cinema, vai haver. Senão, paciência.

- Não teme que se repita o que aconteceu no governo Collor, que ao fechar a Embrafilme paralisou a produção nacional?

- Não há nada de trágico nisso. Se as pessoas não estão interessadas em ver filme brasileiro, que não vejam. Agora querem financiar as salas de exibição e os espectadores. Daqui a pouco vão financiar a pipoca.

- Argumenta-se que é preciso democratizar o acesso à cultura, levar informação aos mais pobres.

- Pobre precisa de dinheiro, não de cultura. Se tiver escola e dinheiro, ele se vira. Se precisar, vai ver filme, comprar disco. Ele já pode ver filme na televisão porque tem gato, não paga conta de luz, não paga TV a cabo. Pobre se vira. Não dá para imobilizar a cultura ou subordiná-la aos desejos do Estado.

- Ainda reprova a atuação do ministro Gilberto Gil?

- Achava muita graça em debochar dele no começo, mas perdi o entusiasmo. Ele é tão desimportante que abandonei o tema. Não vou ficar dando chute no Gil porque ele não representa nada e porque cultura, no Brasil, é de uma irrelevância atroz.

- Como avalia a reeleição do presidente americano George W. Bush?

- Não é o fim do mundo. No mesmo dia em que ele foi eleito, a Califórnia aprovou proposta que autoriza a pesquisa com células-tronco. Isso mostra a vitalidade dos Estados Unidos. É um país muito fragmentado, algo muito positivo.

- Qual é o saldo da invasão do Iraque?

- Já estou contente com a derrubada do Saddam Hussein. Depois, eles (os iraquianos) se viram. A invasão foi ótima, livrou o mundo de um monstro.

- Seu último romance foi lançado em 1999. Tem planos de voltar a escrever?

- Nenhum. Acho que fiz a minha parte. Estou sem entusiasmo, já disse o que tinha que dizer. A prioridade número um é dinheiro. Preciso me manter, manter minha família. Se tiver muito desejo, o que acho improvável, escrevo. Mas não tenho apego a nada.

- O cinema foi um projeto frustrado?

- Não artisticamente. Gosto dos nossos dois filmes (que fez em parceria com o irmão Vinicius). Foi um projeto frustrado financeiramente. Perdi muito dinheiro, meu irmão teve que sacrificar seu apartamento. Mater dei (2000) não existe. Eu não tenho cópia do filme.

- Você é um mau cineasta ou foi boicotado pela crítica?

- Faço um tipo de coisa que não deserta o interesse das pessoas. Com nosso primeiro filme, 16 0 60 (1995), recebemos aplausos de pé durante 10 minutos no Festival de Veneza. Não me queixo da experiência, mas foi um desperdício de dinheiro fazer coisas que as pessoas não queriam ver. Claro que existe um prazer na crítica em me malhar. Ficaria muito ofendido se não quisessem se vingar de mim. Aliás, falo mal de tanta gente que imagino que este livro vá passar batido na maior parte das redações.

- Por que tantas críticas aos intelectuais?

- Porque intelectual brasileiro tem forte tendência ao adesismo. Sempre tem um dinheirinho chegando de algum lado. Normalmente na velhice, sob a forma de aposentadoria por serviços prestados. Foi assim com Drummond, com Mario de Andrade. Historicamente, no Brasil, é melhor ser a favor do que ser contra. Dizem que eu lucro graças à minha função de opositor do governo, que é muito fácil falar mal. Mas como diria (o publicitário) Duda Mendonça, ''quem bate perde''. Essa é uma lição que todo brasileiro segue.

- Você mora no Rio há pouco tempo, ainda mantém uma certa visão de estrangeiro sobre os problemas da cidade. Por que ataca o movimento Viva Rio?

- O Viva Rio faz um discurso demagógico de que a violência, que é o grande problema da cidade, pode ser reparada pela ação social - isto é, balé na favela. Violência é problema de polícia. O Viva Rio sofre da mesma falta de foco que o governo ao tratar da miséria.

- Por que afirma que a economia brasileira deve voltar à monocultura?

- Voltar não, a gente é monocultura. Veja a pauta de exportações agrícolas brasileiras. Em primeiro lugar, vem a soja, depois madeira e celulose, isto é, ciclo do pau-brasil. Continuamos exportando cana-de-açúcar, café. Está tudo na nossa História.

- Isso é bom?

- Se o mercado está favorável, tem que plantar soja mesmo. Se não estiver, planta outra coisa. Modernizar a agricultura é bom. Máquina, trator. Melhor do que uma reforma agrária em que o lavrador seja mantido pelo Estado. Agricultura familiar é um desastre. É melhor morar na favela, na periferia das cidades, do que num lote improdutivo de Pernambuco. As pessoas vão aonde há oportunidade, não há nada de errado nisso. Sou contra o discurso racista de manter o pobre na terra para não vir roubar na cidade grande.

- Como avalia a participação dos evangélicos na política?}

- O crescimento dos evangélicos é o fenômeno mais interessante dos últimos 20 anos. Desde as Diretas, nada teve impacto tão grande no país. Politicamente, é deletério. Existe um conflito religioso, que ainda não foi deflagrado, entre católicos e protestantes.

- O que um político deveria dizer para ganhar seu voto?

- Eu não voto! Não gosto de políticos, não tenho nada a ver com eles. Eles que ganhem o voto dessa gente que está por aí. Não se preocupem comigo. Desde que voltei ao Brasil, tenho uma carteirinha de isenção eleitoral, que exibo com grande orgulho. Sou um dos únicos brasileiros que podem desfrutar do voto facultativo. Pelo menos até o dia em que me obrigarem a assinar um documento desgraçado.


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[20/NOV/2004]


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