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Hipertexto de Rosa

Em ‘grandesertão.br’, Willi Bolle mostra relação do livro com outros

Paula Barcellos

Especial para o JB

Divulgação

Willi Bolle deixou a Alemanha em 1966 para se embrenhar pelo sertão

Ao ler a primeira página de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, em abril 1966, o alemão Willi Bolle ficou tão encantado que não hesitou em vir para o Brasil. Quatro meses depois, o professor de literatura chegava ao país para fazer uma pesquisa de campo. Foram dois anos viajando pelo sertão.

De volta à Berlim, Wolle terminou sua tese de doutorado sobre Guimarães na Universidade de Bochum. Trabalho concluído, a vontade de conhecer ainda mais o escritor e seu país aumentou, em vez de diminuit. Em 1977, Bolle foi convidado a dar aula de literatura alemã na USP. Não pensou duas vezes e lá se vão quase 30 anos no Brasil.

– Ao meu país, devo a paixão pela idéia de formação. Mas lá as coisas já estão feitas. É no Brasil que eu quero dar a minha contribuição – conta.

Depois de publicar Fórmula e fábula: teste de uma gramática narrativa, aplicada aos contos de Guimarães Rosa e Fisionomia da metrópole moderna, Bolle acaba de lançar grandesertão.br (Editora 34, 480 páginas, R$ 44). Neste livro, ele mapeia, à luz do conceito de hipertexto, toda a rede de relações existentes entre o Grande sertão e os principais ensaios de interpretação do Brasil: desde de Euclides da Cunha até Gilberto Freyre e Antonio Candido.

- O título do livro é bastante curioso. Há uma ligação entre os meios de comunicação contemporâneos e o texto de Guimarães Rosa?

- O título traduz o espírito de minha aprendizagem em Silicon Valley. Foi lá que redigi um ensaio piloto de umas 80 páginas, a base do livro lançado agora. Ao organizar minhas idéias sobre o sertão como forma de pensamento, especialmente as questões de construção labiríntica, de mapeamento de um cérebro e dos discursos sobre o Brasil, eu me dei conta que esse tipo de espaço virtual poderia ser descrito por meio das novas tecnologias da informação: hipertexto e internet. Desenvolvi a hipótese de trabalho de que o visionário Guimarães Rosa teve uma intuição dos meios de comunicação da era eletrônica. Se o seu sertão verbal se inspirou no labirinto inventado por Dédalo, que foi o hipertexto da época arcaica, então deveria ser possível traduzi-lo também para o código da sociedade informatizada. À luz do conceito de hipertexto, ficou mais clara para mim a especificidade da construção de Grande sertão: veredas. É uma narrativa em forma de rede. Ou seja, pelas mais de 500 páginas do romance são espalhados fragmentos de discursos sobre o Brasil. O romance constitui uma espécie de website desses discursos, que são desmontados pela fala crítica do narrador. Cabe ao leitor remontar a história do Brasil a partir desses fragmentos. O título visa um utópico ponto no futuro, em que a obra de Guimarães Rosa possa ser reescrita, com a inclusão das classes pobres, junto às quais o autor não apenas pesquisou a maioria de suas histórias, mas das quais extraiu seus protagonistas.

- Quais são as relações entre Grande sertão: veredas e a cultura alemã?

- O próprio Guimarães Rosa, em sua entrevista a Günter Lorenz, faz várias referências à cultura alemã, das quais eu gostaria de realçar a filosofia da linguagem e o romance de formação. A cultura alemã oferece recursos teóricos especialmente apropriados para a interpretação de um texto deliberadamente difícil como Grande sertão: veredas. A hermenêutica moderna, ou seja, a arte de compreender textos e pessoas (elaborada por Friedrich Schleiermacher), a crítica poética e a teoria moderna dos gêneros (criada por Friedrich Schlegel, num diálogo com o romance de formação, de Goethe), a lingüística e a estilística (Jacob Grimm, Wilhelm von Humboldt), a teoria da reescrita da história e da recriação artística (de Goethe a Aby Warburg), a estética da era da mídia e a teoria materialista da história (de Walter Benjamin a Karlheinz Barck), a rivalidade entre romance e historiografia (Eberhard Lämmert) ajudam a entender esta relação.

- Como se deu seu primeiro contato com a obra de Rosa?

- Foi em abril de 1966. Eu estava no terceiro ano de Letras e História na Freie Universität Berlim , quando um professor visitante da USP, Antonio Soares Amora, ofereceu um curso sobre Grande Sertão: Veredas. A primeira página desse romance me fascinou como nunca nenhum outro texto. Através dessa página, eu vislumbrava a imagem de um país que eu queria conhecer. Minha sensação diante daquela página parece com a do Doktor Faustus, de Thomas Mann: a forma mais intensa, mais proveitosa da aprendizagem é um ''aprender por cima de vastos espaços de ignorância''.

- O que mais te encantou em Rosa a ponto de mergulhar na obra do autor por tantos anos?

- Para poder escrever sobre um assunto, disse o crítico Friedrich Schlegel, a gente já não deve mais se interessar por ele. Em outras palavras: é preciso paixão, mas também distanciamento. Depois de ter publicado, em 1973, a minha tese de doutorado sobre os contos de Guimarães Rosa, só retomei o contato com a obra dele, em 1988, graças a um convite de lecionar literatura brasileira em Berlim. Procurei, nessa retomada, um ponto para ancorar a obra no nosso presente, de acordo com a idéia benjaminiana de um ''agora da cognoscibilidade''. Ou seja: revelar, através do romance de Guimarães Rosa, o retrato do Brasil.

- Qual a importância da literatura na política?

- A julgar pela avalanche dos discursos políticos, ainda mais em período de eleição, a literatura hoje em dia parece não ter importância quase nenhuma. No entanto, como principal instituição de aferição da qualidade de linguagem, a literatura continua ocupando a posição-chave. Guimarães Rosa, que era ao mesmo tempo escritor e embaixador, trabalha em sua obra muito conscientemente essa relação. Sua crítica da linguagem dos políticos é arrasadora: segundo ele, trata-se de ''uma permanente tagarelice sobre a realidade''. Guimarães Rosa entende a sua obra como um trabalho alternativo, de recuperação da linguagem. Trata-se de uma proposta eminentemente política, na medida em que a linguagem é a principal matéria construtora das relações políticas. O leitor é convidado pelo narrador Riobaldo a fazer um curso de iniciação à retórica dos donos do poder, aprendendo a desconfiar desses discursos e a desconstrui-los. Nesse sentido, um ótimo exercício de formação do cidadão é ler uma página de Grande sertão: veredas por dia e depois observar o cenário político na mídia.

- O senhor também tem estudos sobre a obra de Walter Benjamin. É possível fazer uma leitura aproximando Benjamin de Rosa?

- Depois de eu ter defendido minha tese, estruturalista, sobre os contos de Rosa, eu estava com o diploma de doutor e comecei a dar aulas no ensino superior, na pós-graduação em Teoria Literária na PUC-SP, mas senti falta de uma verdadeira formação. Os longos anos de convívio com a obra de Benjamin (um filósofo e crítico-escritor notoriamente difícil) me prepararam, sem que eu tivesse conscientemente essa intenção, para retomar depois a obra capital de Guimarães Rosa. Nessa altura, já não se tratava de aplicar um determinado teórico ao romance de Rosa, mas, como você bem formulou, de uma aproximação. Ela aconteceu de modo natural, pela própria afinidade entre os dois.

- O que determinou a sua vinda e permanência no Brasil?

- O desejo de estudar a fundo o romance de Guimarães Rosa e de conhecer através dele o Brasil. Para isso, era preciso tempo, paciência, preparo e um ambiente favorável. Foi o que encontrei aqui, desde o primeiro dia. Ao meu país de origem, à Alemanha, devo a paixão pela idéia de formação. Acontece que lá as coisas já estão feitas, é um país já pronto. Aqui no Brasil, as tarefas e os desafios para quem é professor são imensos, mas também os resultados são gratificantes. É no Brasil que eu quero, com outros colegas e meus alunos, dar a minha contribuição.


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[23/OUT/2004]


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