Evento criado pelass pequenas e médias editoras cresce apesar da enorme retração do mercado
A literatua está de volta ao Jockey Club da Gávea. Depois de um ano afastada do seu abrigo original, a Primavera dos Livros voltou a colorir o hipódromo. Mas nem tudo são flores. Na inauguração do evento, para editores e convidados, na tarde de quinta-feira, foi apresentada uma pesquisa encomendada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que se propõe a fazer um verdadeiro um raio-x do mercado editorial brasileiro. As notícias são péssimas: nos últimos oito anos, o mercado encolheu 48%, enquanto o PIB cresceu 16%.
- Se fosse no mercado automobilístico, haveria uma marcha até Brasília. No mercado editorial, a queda foi acontecendo um pouquinho a cada ano, e as editoras foram se acostumando - explica Fábio Sá Earp, que desenvolveu a pesquisa ao lado de George Korni.
Em meio a dados não muito motivadores, uma boa notícia foi dada pelo secretário das Culturas do Rio, Ricardo Macieira. Ele anunciou a doação de um imóvel que está sendo restaurado, na Praça Tiradentes, para servir de sede à Liga Brasileira de Editores (Libre), que reúne cerca de 90 pequenas e médias empresas, responsável pela idealização do evento.
- A Libre tem traços da cidade do Rio, que é cosmopolita e multiculturalistas. A Libre tem alma carioca, por isso doaremos um imóvel histórico para ser sua sede - anunciou Macieira.
O presidente da liga, Angel Bojadsen, ainda surpreso, comemorou a notícia:
- É uma necessidade. Estamos funcionando na sala de uma das editoras, em São Paulo, mas precisamos de um espaço para trabalharmos com maior autonomia.
A organização das pequenas editoras foi o caminho encontrado para lutar por espaço num mercado dominado pelos grandes conglomerados. Para Alberto Schprejer, dono da Relume-Dumará, o espaço igualitário dedicado às 85 editoras do evento é um dos pontos-chave:
- A graça da Primavera é que o que é mostrado ao público são os livros, e não os estandes. Não me preocupo em ser uma das maiores entre as pequenas e ter o mesmo espaço das outras. Isso é positivo, pois a competição é de igual para igual.
Angel vê nessa divisão igualitária uma das utopias da Liga:
- O mercado do livro já é muito desigual. É preciso que, pelo menos em nossa feira, tenhamos o mesmo espaço para trabalhar. Nós fazemos livros porque acreditamos numa utopia.
O poder de fogo da Libre fez com que ela fosse convidada para participar, no início de outubro, da Feira de Frankfurt, o maior evento do meio editorial mundial. Nele, todas as editoras da liga poderão apresentar ao mercado internacional suas obras.
Mesmo com o risco de perder espaço num mercado já desgastado, os grandes editores elogiam a iniciativa das pequenas. Para Sérgio Machado, dono da Record, o maior grupo editorial do país, não há problemas no crescimento das concorrentes:
- A união faz a força. Ninguém começou grande. Provavelmente, quando meu pai criou a Record, ela era menor do que a menor das editoras da Libre. O mercado é democrático.
Presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, dono de uma das maiores editoras do país, a Rocco, reafirma o apoio:
- Não há racha entre as grandes e as pequenas. A maioria delas também é filiada ao Snel, não há nenhuma separação. Quero que elas cresçam e apareçam cada vez mais, porque isso é um incentivo à leitura.
A grande esperança das pequenas e médias editoras é um possível financiamento a ser concedido pelo BNDES, que ainda não foi anunciado oficialmente. Segundo Fábio Sá Earp, o que se sabe até agora é que as políticas serão anunciadas oficialmente em novembro:
- A divulgação só será feita daqui a três meses. Sei que serão criadas bibliotecas básicas com 2,5 mil livros, nos mil municípios que ainda não tem bibliotecas. Neste programa serão gastos R$ 25 milhões.
Segundo Angel, o apoio do BNDES é por enquanto apenas na pesquisa, mas provavelmente se estenderá para as políticas públicas.
- Naturalmente, a pesquisa é um aperitivo para algo maior que vem depois.
Depois dos dados alarmantes apresentados na aberetura do evento, o pesquisador Fábio deu um aviso aos editores presentes no plenário.
- Vocês não precisam nem seguir os conselhos que apresentamos. Vocês têm que se movimentar e criar alternativas. Como dizia Abelardo Barbosa, o Chacrinha: Não viemos para explicar, mas sim para confundir. Agora é a hora de você se reunirem e fazerem a chacrinha.