Livro em que jornalista conta a história de um jovem de classe média que passa a vender drogas é disputado pelo cinema
Meu nome não é JohnnyGuilherme Fiúza
Record
352 páginas
R$ 39,90
Penso exatamente como você. Fernandinho Beira-Mar não passa de um gerente de balcão. Os donos do negócio não moram na favela e sim em coberturas na Avenida Atlântica, que é, nesse contexto, mais tradicional que a Vieira Souto. Os donos têm dentes, não cortam cabeças. Não são psicopatas. Nem gostariam de ter como capos, os psicopatas. É que, em sendo o negócio tão rendoso quanto perigoso, é esse o pessoal que aparece para trabalhar. Os chefes dos trabalhos devem ser homens importantes: médicos, advogados, militares, policiais. Que formam ''famílias'', uma rede internacional, como nos filmes da máfia. As famílias às vezes entram em guerra, trocam assassinatos, para que depois um novo poder seja estabelecido. Ricos. Se os ricos mandam em tudo, por que não no tráfico também? O crime organizado, certo?
Errado, talvez. Talvez os grandes traficantes estejam espalhados, pontuais, e sejam frutos de sua personalidade, inquieta e transgressora. Talvez a rede não seja internacional, talvez nem exista rede. Não sei, a mídia toca no assunto rara e estranhamente pouco. A mídia pára no trágico nível Beira-Mar, última ponta visível. Esta é uma das indagações que o interessante Meu nome não é Johnny provoca. Provocante, aliás, é o melhor adjetivo para o livro.
Imagine que você conhece um sujeito que foi um tubarão do tráfico da cocaína, um dos grandes. Imagine que esse sujeito, tendo acertado suas contas com a sociedade, está disposto a revelar sua história em detalhes. E imagine que você é um jovem e talentoso jornalista que busca assunto para um livro. Você terá idéia do que é esse livro e por que ele vende tão bem. Estilo fluido, muito senso de humor, Fiúza conta a história de João Guilherme Estrella pelo lado de dentro, sem julgar ninguém, dando a cada um sua chance e vez. É um livro generoso. Muito divertido também. Contando a ascensão, auge, decadência e salvação de João. O autor afirma que todos os fatos são reais. Realmente parecem ser. Entende-se perfeitamente como um jovem nascido na melhor faixa da classe média carioca, movido por sua juventude e porralouquice, chega a traficar 50 quilos de coca de uma só vez, vendendo no Brasil e em Amsterdã.
A identificação do leitor com o traficante João Estrella é fácil e imediata, podia ter acontecido contigo, sentimento impossível se fosse o Beira-Mar. E faz pensar sobre as vantagens que um pequeno nível de informação e inteligência podem ter (aliadas a uma certa coragem). João fica anos em cadeias barra-pesada, entre assassinos, recria sua personalidade para sobreviver. E não somente consegue, como leva vantagens. Enfrenta um manicômio judiciário de pesadelo, é jurado de morte, mas não enlouquece e até leva vantagem. Enfrenta um julgamento que a princípio lhe é totalmente adverso... E leva vantagem.
Como bom representante da classe média, ele nasceu vitorioso, um vitorioso de classe média. É nesta posição que ele sobe no tráfico, chega a ganhar muito dinheiro. É por isso que cumpre pena e sai do outro lado livre e arrependido do que fez. Não voltará para o crime, regra geral nesta circunstância. Tem outras oportunidades. Sem o citado nível de cultura e informação, provavelmente teria um destino trágico.
Bem, já falei demais. Paro por aqui, para não diminuir o prazer do leitor. Conto apenas que cinco produtores cinematográficos, todos de classe média, disputam a filmagem da história. Enfim, é um bom livro, do ponto de vista humano. Não apenas uma reportagem interessante, uma primeira obra de um que veio para ficar. Qual é a próxima, Fiúza?
A propósito, parabéns para o autor da capa! Para quem já passou por alguma fase cocainal, aquela capa perturba...