''A mídia produziu seus próprios intelectuais''

Dênis de Moraes discute papel do pensamento crítico no movimento social

Paula Barcellos

[31/JUL/2004]

Dênis de Moraes, doutor em Comunicação e Cultura pela Eco-UFRJ e professor da pós-graduação em Comunicação da UFF, já publicou vários livros teóricos, entre eles, Por uma outra comunicação: mídia, mundialização cultural e poder, O imaginário vigiado e O planeta mídia. Sem contar as biografias de Henfil, Vianinha e Graciliano Ramos. Sua mais recente publicação, Combates e utopias (Record, 378 páginas, R$ 42,90), já merece um destaque especial só pela forma como foi idealizada.

- Foi numa troca de e-mails com o saudoso Edward Said, intelectual brilhante, que surgiu a idéia do livro - conta Dênis.

Tendo Said como uma espécie de ponto de partida para a organização do livro, as relações dos intelectuais com a sociedade, a política, a cultura, a filosofia, a comunicação, a literatura, a economia e os movimentos sociais, incluindo estudos sobre as trajetórias de pensadores que fizeram a cabeça de gerações e cujas idéias ainda hoje suscitam controvérsias, como Jean-Paul Sartre, Maurice Merleau-Ponty, Michel Foucault e José Carlos Mariátegui não poderiam ficar de fora desta seleção de ensaios, artigos e discursos reunidos por Dênis de Moraes. Em entrevista ao JB, o jornalista não se limitou a falar sobre seu novo livro. Enfatizou a necessidade de políticas públicas de comunicação, salientou a potencialidade da internet e não perdeu a oportunidade de alfinetar o avanço das idéias neoliberais sobre as universidades públicas brasileiras, que pode levar à sua privatização.

- Em Combates e utopias, você reuniu ensaios, discursos e entrevistas sobre o papel do intelectual. Qual foi o seu critério de seleção?

- Foi numa troca de e-mails com o saudoso Edward Said, intelectual brilhante, que surgiu a idéia do livro. Escrevi a Said para comentar o encantamento que um de seus livros - Representações do intelectual (a ser lançado no Brasil pela Companhia das Letras) - sempre desperta nos alunos do curso que ministro na UFF sobre a relação entre intelectuais, cultura e política. Ele disse que tinha escrito a obra em meados da década de 1990. E que, se fosse hoje, teria sido menos enfático na avaliação esperançosa sobre a missão dos intelectuais, porque entendia que as condições históricas tinham se alterado bastante nos últimos anos. Percebi que ali estava o mote para um livro que colocasse os intelectuais diante de si mesmos, como num jogo de espelhos, para reavaliar o papel e a responsabilidade que lhes cabe num mundo atravessado por incertezas, crises e mutações aceleradas.

- O que mudou?

- O espaço de persuasão que antes pertencia aos intelectuais passou a ser dividido, e muitas vezes ocupado, por outras esferas de mediação, principalmente pela mídia. Hoje, os meios de difusão agem como uma espécie de intelectual orgânico que define e interfere na conformação dos imaginários sociais e dos valores, além de formarem seus próprios intelectuais (autores, diretores, estrategistas), em função de seus alvos mercadológicos e visões ideológicas. Na escolha dos textos, procurei realçar os compromissos com a reflexão política, cultural e filosófica. É muito interessante apreciar as afinidades e os confrontos que surgem em discussões que não se limitam à forma clássica dos ensaios. Os autores também se manifestam por discursos em universidades (casos de Milton Santos e Francisco de Oliveira), em entrevistas (Pierre Bourdieu fala à Radio Libertaire, operada pelos anarquistas de Paris) e em manifestações populares (Naomi Klein discursa para os operários que ocuparam uma fábrica desativada em Buenos Aires). É importante resgatar a voz dos intelectuais naqueles momentos em que a efetividade de seu discurso é testada pela necessidade de convencimento do público.

- O que mais está inquietando esses intelectuais?

- As opiniões convergem em três questões fundamentais. A primeira é que, em épocas de incertezas e de falsos modismos, mais do que nunca devemos valorizar o pensamento crítico e a ética. A segunda é a importância de se combater os dogmatismos, as ortodoxias e os alinhamentos automáticos, sem perder de vista que autonomia não significa afastamento da política e das lutas sociais. O terceiro ponto é a angústia comum com a busca de alternativas políticas, econômicas e sociais que fortaleçam a cidadania, o pluralismo cultural e a universalização dos valores democráticos.

- As utopias precisam ser combatidas ou são necessárias? Até que ponto vale a pena viver de utopia?

- Se você renuncia às utopias, está se resignando à retórica conservadora de que as condições adversas são eternas, que as formas de dominação são invencíveis, e que as desigualdades são componentes intrínsecos da vida social. Precisamos ter a capacidade de enxergar além e articular formas de resistência com a discussão de cenários de transformação, de superação do que parece estagnado e estável. Significa ter em mente a lição de Antonio Gramsci: se é necessário o pessimismo da inteligência, não é menor a exigência do otimismo da vontade. Enfrentar os obstáculos de olhos postos em outro mundo possível me parece ser uma boa pista para entender o sentido da palavra utopia que expressamos no título do livro.

- Você também organizou o livro Por uma outra comunicação. Qual seria o papel desta comunicação?

- Se desejamos assegurar a livre circulação de informações e a diversidade cultural, precisamos insistir no estabelecimento de políticas públicas de comunicação, assentadas em mecanismos democraticamente instituídos de regulação, de concessão, de tributação e de fiscalização. Políticas debatidas por segmentos representativos da opinião pública e formuladas com realismo, considerando as transformações da era digital e seus efeitos socioeconômicos. Precisamos de iniciativas que articulem os apelos globais com as singularidades locais e regionais. As novas tecnologias introduzem ferramentas novas de produção e difusão de dados, idéias, sons e imagens, que estão instituindo espaços promissores de intercâmbio, interação, participação e mobilização. Como tudo é hiperveloz, ainda não podemos ter certeza quanto ao verdadeiro alcance da comunicação digital. Mas não devemos subestimar o fenômeno Internet. Com baixo custo, rapidez e arquitetura descentralizada, a rede favorece a difusão de informações e conhecimentos, sem submetê-los às hierarquias de juízos e aos filtros da mídia convencional. É importante, porém, salientar que Internet constitui uma vertente complementar de expressão, informação, interação e participação. Apontar potencialidades da rede virtual em absoluto significa menosprezar as mediações sociais e os mecanismos clássicos de representação política.

- Você escreveu as biografias de Vianinha, Henfil e Graciliano Ramos. Como foi essa experiência?

- Árdua e fascinante. Árdua porque, como disse certa vez Fernando Morais, escrever biografia no Brasil é coisa para estivador, tamanhas são as dificuldades para o trabalho do biógrafo, desde as limitações financeiras do mercado editorial até a estrutura inadequada para a pesquisa em boa parte dos arquivos e acervos. Fascinante porque Graciliano, Vianinha e Henfil foram excepcionais homens de criação e intelectuais com aguda consciência crítica sobre a realidade brasileira. Remontar o quebra-cabeça existencial, criativo, ideológico e cultural daquelas três vidas significou repensar os processos político-culturais das últimas décadas, verificando como artistas e intelectuais se inseriram, influenciaram e foram influenciados pelos movimentos estéticos, pelos debates de idéias e pela militância política. Vianinha, Henfil e Graciliano colocaram a imaginação a serviço da contestação e da formação de consciências críticas, com a preocupação permanente de preservar a sua autonomia criativa frente a imposições partidárias ou a coerções ideológicas.

- Como professor universitário, como você analisa a situação das universidades públicas brasileiras?

- As universidades federais continuam enfrentando a dramática situação da escassez de verbas. Os efeitos negativos são múltiplos: condições de trabalho inadequadas (raras são as faculdades que não precisam de reformas de instalações e investimentos em laboratórios); número insuficiente de professores (as aposentadorias se sucedem e os concursos públicos não preenchem as vagas abertas); orçamentos reduzidos para centros de pesquisa; baixos salários. Essas mazelas dificultam o aumento de número de vagas, assim como a programação de cursos em dois ou três turnos de aulas. De qualquer modo, precisamos reagir ao desânimo. Os cursos de graduação precisam ser fortalecidos para responder às exigências de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Por exemplo, o Departamento de Estudos Culturais e Mídia da UFF oferecerá, no vestibular deste ano, o curso de Estudos de Mídia, voltado à formação de um profissional habilitado a atuar, de forma abrangente e integrada, em diferentes domínios da comunicação e áreas conexas (pesquisas, consultorias especializadas, gestão estratégica, multimídia). Também cabe reconhecer avanços de qualidade da pós-graduação das universidades públicas, o que se deve à maior qualificação dos docentes, à coerência dos programas e a apoios das agências de fomento (principalmente CNPq e Capes). Contudo, progressos maiores só virão com políticas públicas consistentes para a educação superior e, principalmente, vontade política para impedir que as universidades públicas caiam na emboscada do neoliberalismo, que quer privatizá-las a todo custo.

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