Trator sem combustível

Guilherme Bueno

[27/MAR/2004]

Desconstruir Duchamp: arte na hora da revisão
Affonso Romano de Sant'Anna
Vieira & Lent
204 páginas
R$ 32

Desconstruir Duchamp, de Affonso Romano de Sant'Anna, reúne artigos publicados pelo escritor em sua coluna no jornal O Globo. O autor reivindica uma análise urgente da arte produzida desde a modernidade, revendo o que considera os mitos de um período de crise. Afirma que para a arte sair de seu impasse é necessário utilizar diversos canais de interlocução: filosofia, sociologia, antropologia, psicologia e mesmo o marketing. Daí ensaiar uma abordagem oposta ao que ele chama de pensamento único, revertendo a concepção histórica ''modernista'', baseada em rupturas contínuas e sem elo com a tradição. Aponta em artistas como Duchamp, Pollock e Serra seus resultados, numa produção a qual associa os substantivos ''perversão'', ''farsa'', ''vício'' e similares.

O fôlego limitado do volume é notado essencialmente pela ausência da análise. Privilegia a elaboração de máximas, conjurando a arte moderna e contemporânea e seus ''responsáveis'' pelo atual estado de ''anomia ética e estética'', reiterado insistentemente. Revela-se nisso a pouca envergadura do texto: incompleto, unilateral e generalista em sua empreitada. Fica a pergunta: o autor realmente está ''desconstruindo'' algo ou somente requentando velhas e desusadas imprecações?

Revisar a modernidade significa remontar sua complexidade e contradições, em vez de simplesmente querer ''expurgá-la''. Ela não operou exclusivamente com a idéia de ruptura. A teoria de Greenberg exemplifica como o período moderno formulou sua idéia de continuidade. Um de seus desafios foi, aliás, refutar a acusação - feita pelo pior reacionarismo - de quebra com o legado da história da arte. Esforço que redefiniu a idéia de tradição e sua absorção, demonstrada pelos debates entre artistas, historiadores e críticos na virada do século 19 para o 20 e, sobretudo, por volta dos anos 20 e 30.

Imputar a incompreensibilidade à arte moderna ou contemporânea é outra observação, no mínimo, genérica, que tange a gratuidade. Por que Pollock seria menos inteligível que Bronzino ou Leonardo? Por não se reconhecer ali imediatamente um tema, uma narrativa? O que seria uma pintura... ''fácil''? O que se ''entende'' em uma obra de arte e, mesmo no caso de um Bronzino, a quantas pessoas fora possível o acesso àquelas pinturas no momento de sua criação? A estratégia de Duchamp não existiu isoladamente, mas na ampla questão do espaço moderno, das transformações de uma concepção de real e, conseqüentemente, da própria prática artística, processo que passa pelo aforismo de Maurice Denis (''Um quadro, antes de ser um cavalo de guerra, uma mulher nua ou uma anedota qualquer - é essencialmente uma superfície plana coberta de cores...'') e pelas colagens cubistas. Esta transformação implicou na supressão de uma hipotética hierarquia de meios e no fim de uma visão restrita da arte como artesania. Richard Serra não precisa ser metalúrgico, o valor de sua obra não está associado a uma habilidade manual.

As polêmicas do livro, senão superadas, há pelo menos 40 anos já foram resolvidas pela historiografia da arte. A polarização entre abstração e figuração, para ele tão opressiva, é datada, perdeu seu sentido nos anos 60, com a Pop Art. A interdisciplinaridade que o autor conclama também não é nova: já é corrente nos discursos pós-modernos desde os anos 60. A teoria da arte pós-moderna surge naqueles anos, usando recursos da lingüística, da psicanálise etc. justamente para refutar certas concepções modernas então prevalecentes, estruturadas em idéias como ''linearidade'', ''progresso'' e ''auto-reflexão''. Polemizando ora o legado, ora os limites destas, é por intermédio do pós-moderno que ressurge o interesse por artistas como Duchamp, então visto por muitos como secundário. Torna, além disso, inviável a repetição dos velhos modelos ''formalistas'', ''sociológicos'', ''psicológicos'', que faziam da arte ilustração ''documental''. Sequer a indignação com o termo ''arte contemporânea'', justificada por sua origem comercial, é consistente. Maneirismo, barroco, impressionismo, cubismo não foram epítetos originalmente artificiais e pejorativos? A mesma lógica permeia a condenação do expressionismo abstrato, alegando-o mero produto de operações da CIA. Tal juízo de valor equivale renegar as Igrejas Barrocas atendo-se à procedência criminosa de seu ouro...

Há outros equívocos em sua abordagem, como o uso de uma metodologia estilística (já questionada nos anos 50 por Meyer Schapiro e Giedion) e a confusão no manuseio de termos como moderno e contemporâneo, ilustrada ao se referir a Beuys como ''moderno''. É irônico o autor declarar simpatia por instalações e performances sem se dar conta de estas práticas existirem graças ao legado duchampiano.

Ao contrário da afirmação de um ''vale tudo'' na arte, este não existe, como o autor se trai ao dizer que ''há tanta gente boa do lado de fora''. Logo, há critérios, restando saber se eles coincidem com a sua visão de arte, algo difícil de descobrir, já que ele jamais enuncia suas escolhas.

Se Affonso Romano pretende levar adiante seu projeto teórico, é indispensável explicitar quem considera os grandes artistas. Ele diz ''poupá-los'' com seu silêncio, mas priva o público de discutir suas opções. Nem a época de Rafael nem a de Ingres deixou de produzir artistas menores; não seria diferente hoje. Não houve, desde Diderot e Baudelaire, salão ou bienal unânime. A lição de ambos, diferentes do autor, foi ter a coragem de arriscar seus juízos e perscrutar a possível grandeza de seu tempo. A crítica sem objeto é discurso vazio; não elege valor, não ousa. Talvez sem saber, o livro repete as atitudes, expressões e preconceitos dos anos 30 e 40. Suas postulações genéricas - aplicáveis a qualquer época - evitam a objetividade da escolha. Com isso, seu intento permanecerá comodamente incompleto. Pior, jamais se submeterá a comprovação ou erro, optando vacilante por uma improdutividade rancorosa.

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