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Altos e baixos de Affonso Romano

Um pensador para a literatura

Regina Zilberman

Professora de Literatura e autora de A FORMAÇÃO DA LEITURA NO BRASIL

Ezra Pound / Foto de Arquivo

Que fazer de Ezra Pound
Affonso Romano de Sant'Anna
Editora Imago
260 páginas
R$ 36

Houve uma época em que a vanguarda podia se mostrar iconoclasta, demolindo mitos e cânones, afirmando um modo de ser fora dos parâmetros conhecidos e impondo uma percepção inusitada da arte. Agora, aparentemente, é a hora de sermos iconoclastas diante dos valores consolidados pela vanguarda. Esse é o posicionamento de Affonso Romano de Sant'Anna em Que fazer de Ezra Pound, coleção de ensaios recentemente publicada.

O título do livro, que denomina igualmente o estudo de abertura, sugere de antemão que comportamento o autor adotará perante um dos totens mais sagrados da vanguarda do século 20 e, especialmente, do movimento concretista, que se auto-impôs a tarefa de levar avante a tocha da modernidade nas letras brasileiras. Mas é em ''Aspectos psicossociais e antropológicos da vanguarda'' que Affonso Romano de Sant'Anna examina numa perspectiva histórica o movimento artístico a que se refere, considerando-o datado e superado.

Nada mais contrário ao projeto da própria vanguarda, que se colocou na dianteira de tudo, com a ambição de jamais perder esse posto. Sua aspiração, em certo sentido, era o de coincidir com o ''fim da história'', se nos é permitida a apropriação do título do controverso livro de Francis Fukuyama. No entanto, os acontecimentos falaram mais alto, e a vanguarda ficou sendo a Carolina de Chico Buarque, a única que não viu ''o tempo passar na janela''. Sant'Anna igualmente diagnostica as razões para esse paradoxo: crítica em relação aos demais movimentos, a vanguarda não soube praticar o mais sábio dos ensinamentos - a autocrítica, reivindicada pelo escritor enquanto processo fundamental e imprescindível à criação artística e à análise de seus produtos. É o que leva o autor a reclamar, dos ''guerrilheiros da estética'', ''uma autocrítica'', que ''poderiam também exercitar como quem exercita a democracia no sistema artístico''.

É com os óculos da crítica e da autocrítica que, no livro, examina, primeiramente, outros ângulos da vanguarda: no ensaio que dá título ao livro, ''Que fazer de Ezra Pound'', desmitifica um dos paradigmas da modernidade, perguntando se aquele poeta foi efetivamente tão revolucionário quanto propugnaram alguns de seus seguidores, entre os quais os concretistas, liderados por Haroldo de Campos. Affonso vai mais adiante e encara, como um toureiro audacioso, um tabu usualmente evitado pelos admiradores de Pound: seu declarado apoio ao fascismo, que o fez adepto e divulgador das idéias de Mussolini. Recuperando o conservadorismo da poética de Pound, estabelece o vínculo possível entre suas posições políticas e os versos que elaborou. Ressalva em Pound apenas um aspecto: a atitude permanentemente questionadora, que permite a Affonso virar o feitiço contra o feiticeiro. Porque Pound valorizou o questionamento, Sant'Anna pode agora duvidar de sua arte e de suas idéias, bem como das de seus partidários.

Haroldo de Campos, invocado indiretamente no primeiro ensaio, é a matéria central do segundo, sendo examinado seu posicionamento diante dos mestres modernistas, Mário e Oswald. Affonso está, aqui, especialmente interessado em entender por que Haroldo teve dificuldade em valorizar Mário, esquecendo a primazia desse em relação ao Oswald, a quem antecipou em vários aspectos. Também aqui Sant'Anna está sendo radicalmente crítico, desmontando com competência as teses de Haroldo, para indicar os equívocos do concretista, que rejeitou Mário de Andrade por fugir aos parâmetros que adotara para si mesmo.

Se a crítica atravessa três estudos, a autocrítica aparece nos dois em que Affonso refere-se à própria obra: em ''Canto e palavra'', revê seu primeiro livro de poemas para discutir a aporia que contrapõe letra e música no caso da criação poética, concluindo que, no texto lírico, nenhuma das duas predomina. Em ''Poesia e comunicação audiovisual: depoimento'', recorda a experiência de, nos anos 80, ter escrito, sob encomenda e relativos a acontecimentos do dia, poemas para a televisão. Valorizando a oportunidade de unir dois modos tão diferentes de comunicação, o autor traça igualmente os limites que cada um deles impõe ao criador, fato que impede, de um lado, a rejeição do processo, de outro, o otimismo inconseqüente.

Constituído de 15 ensaios, O que fazer de Ezra Pound contempla ainda outros temas, como a natureza do tempo na literatura ou da personagem multifacetada Arlequim. Examina igualmente o estilo de A paixão segundo GH, de Clarice Lispector, e a carnavalização e o erotismo em romances de Jorge Amado, como A morte e a morte de Quincas Berro d'Água e Dona Flor e seus dois maridos. Adalgiza Nery, ficcionista que nem sempre recebeu a devida atenção dos historiadores da literatura brasileira, Ismael Nery e Drummond de Andrade são igualmente objeto do olhar de Affonso. E, se a vanguarda é assunto dos ensaios colocados no começo do livro, o barroco aparece ao final, no trabalho dedicado ao O valeroso Lucideno, poema do século 17.

O que fazer de Ezra Pound mostra-se obra de espectro amplo, pois abre com a discussão da vanguarda e conclui com revisão e revalorização de um poema barroco luso-brasileiro, não suficientemente conhecido. Em todo os seus passos, está presente a crítica e a autocrítica, que fazem do autor, Affonso Romano de Sant'Anna, o importante pensador da literatura contemporânea no Brasil.


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[27/MAR/2004]


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