Na busca da obra invisível de Pierre Menard, Borges desenvolveu um método de leitura nada tradicional: ''a técnica do anacronismo deliberado e das atribuições errôneas. (...) Essa técnica povoa de aventuras os livros mais tranqüilos. Atribuir a Louis Ferdinand Céline ou a James Joyce a Imitação de Cristo não é uma renovação suficiente desses tênues avisos espirituais?''. A sugestão de Borges abre uma perspectiva mais fecunda para a leitura de outro modo difícil de O cabotino: um guia de anti-ajuda para literatos.
O livro de Paulo Polzonoff Jr. é um exercício anacrônico. E, infelizmente, sem a agudeza da intuição borgiana. De um lado, o autor atribui à vida literária a visibilidade que hoje em dia pertence ao mundo das celebridades televisivas. De outro, aposta na desgastada estratégia da polêmica ad hominem como forma de legitimação intelectual. Entretanto, antes de analisar estes pontos, vejamos como o autor define seus propósitos: ''guia de anti-ajuda.''
No ''prêambulo'', o autor ''[vai]logo dizendo que ao leitor das páginas que se seguem é indispensável um certo espírito galhofeiro''. A advertência se justifica; afinal, potencialmente o cabotino do título é o próprio leitor, que deve portanto armar-se de auto-ironia e ''muita, mas muita severidade consigo mesmo''. Este anacrônico guia de anti-ajuda deveria desencorajar quem pretende aventurar-se ''na literatura por motivos para lá de equivocados''. Seu objetivo resume-se na esperança: ''que um - ao menos um, unzinho - escritor desprezível desista da empreitada ao terminar a leitura''. O autor parece não considerar o possível paradoxo de que o eventual leitor possa sentir-se estimulado pela simples existência de O cabotino.
Tentemos, então, compreender quais são os motivos ''para lá de equivocados'' que animaram o autor em sua cruzada. Na verdade, estamos diante de variações do mesmo tema: ''Algo que não pode (não pode!) faltar em sua noite de autógrafos são colunistas sociais.'' O tema é tão presente que se revela uma obsessão: ''Gente cujo maior sonho é mesmo uma noite de autógrafos (...) E, se calhar, uma notinha na coluna social. O que importa é o epíteto: escritor.'' Em outro momento, promete-se ao futuro cabotino o momento máximo de consagração: ''entrevistas para colunas sociais durante a noite de autógrafos.'' Por fim, o autor esclarece o improvável benefício das fortuitas notas: ''Lembre-se: agora você é um escritor ou poeta, isto é, uma celebridade intelectual.''
O problema do argumento é evidente: Paulo Polzonoff Jr. parece acreditar que, em pleno terceiro milênio, a literatura, além de representar o principal meio de ascensão social, ainda oferece o caminho mais rápido para o reconhecimento público. Eis o primeiro anacronismo. Não é preciso ser um gênio, tampouco um cabotino, para dar-se conta que a tarefa de criar celebridades há muito transferiu-se da imprensa para os meios audiovisuais, dada a perda da centralidade do livro no mundo contemporâneo.
Sabemos que a figura do narrador representou a forma tradicional de veicular valores sociais; forma definidora de grupos em geral limitados a um território restrito. Posteriormente, o teatro assumiu a função de disseminar os códigos característicos da vida urbana, sobretudo no mundo clássico, mas também na Inglaterra elizabetana e na corte de Luís XIV. Já o romance, ou seja, a tecnologia do livro impresso, pode ser visto como o modo típico do advento dos mercados nacionais sob a tutela do Estado-nação; época de ouro da ''literatura'' - mais precisamente, o século 18 e, sobretudo, o século 19. O fim da Segunda Guerra Mundial assistiu ao predomínio dos meios audiovisuais. Hoje os meios digitais de comunicação constituem a forma por excelência da mundialização do mercado.
Por isto mesmo, supor que algum cabotino resolve dedicar-se à literatura para tornar-se uma ''personalidade'', com direito a notas em ''colunas sociais'', é um anacronismo que, se não fosse levado a sério, seria muito divertido. Neste caso, o candidato à ''celebridade'' erra não somente na escolha do veículo, mas especialmente de século...
O próprio autor ilustra perfeitamente essa mudança. As referências mais constantes em seu ensaio referem-se ao mundo do audiovisual. Por exemplo, o verdadeiro escritor ''não pensa que talvez fosse melhor pegar um desenho da Disney na videolocadora. Nada disso. Escreve''. Para o autor, ''Shakespeare tem a voz do Salsicha, personagem do Scooby Doo''. E, ao recomendar a cura definitiva para o cabotino, sugere o óbvio: ''assistir a televisão o dia todo e deixar este negócio de literatura para lá.''
O primeiro anacronismo conduz ao segundo. O livro tem como fundamento a disseminação em geral grosseira de ''polêmicas fraudulentas'' - e registre-se que a expressão é do próprio autor. Tal recurso já foi empregado à exaustão. Em 1856, José de Alencar lançou-se na vida literária por meio de uma virulenta polêmica contra Gonçalves de Magalhães. Duas décadas depois, o feiticeiro experimentou o feitiço, pois Joaquim Nabuco decidiu-se ilustrar-se atacando a obra do autor de O guarani. O modelo foi levado à perfeição por Sílvio Romero, cujas críticas transitavam sem nenhum pudor da análise superficial da obra ao ataque violento ao autor. Nas décadas iniciais do século 20, o hábito foi alimentado pelo espírito belicoso dos modernistas. A partir da década de 1950, o método renovou-se com a linguagem acadêmica dos bancos universitários, mas os golpes mantiveram idêntico padrão de ''elegância''.
Pode-se compreender a longevidade da estratégia numa sociedade com o limitado panorama intelectual do Brasil oitocentista. Afinal, é bem verdade que a literatura propiciou o favor monárquico ou a sinecura republicana. Sem dúvida, o modelo do escritor-funcionário-público teve sua importância e, nesse contexto, travar polêmicas era uma forma segura de inserção social: o polemista talentoso em geral era cooptado e, logo, silenciado.
Porém, hoje em dia insistir na estratégia é, em si mesmo, um grave equívoco estratégico. Sejamos realistas: quem, a não ser um número reduzido de intelectuais, preocupa-se com as tais ''polêmicas fraudulentas''? Sejamos ainda mais duros: os órgãos públicos e as empresas privadas estão interessados em patrocinar filmes, financiar megaexposições, apoiar a estréia teatral de estrelas televisivas. Imaginar que alguém decide escrever um livro porque o escritor possui estatuto de celebridade não é sinal de cabotinismo, mas de pura e simples estupidez. Salvo engano, Juscelino Kubitschek foi o último presidente que presenteou intelectuais com a concessão de cartórios. Os atuais donos do poder não pensam em convidar escritores nem mesmo para redigir cartas.
Eis, portanto, o anacronismo final de Paulo Polzonoff Jr.: ''Não estou brincando. O fato é que ser escritor hoje em dia virou motivo para se ascender socialmente.'' Esta frase deve ser levada a sério? Então, os personagens de Celebridade, a atual novela de Gilberto Braga, precisam ler O cabotino com urgência. Mas, infelizmente, seu autor parece acreditar no que escreveu. Por isto, se, a exemplo de Borges, atribuíssemos a autoria do livro ao próprio cabotino, personagem-alvo do ensaio, o leitor saberia que não se trata de atribuição errônea, mas somente da identificação de seu pseudônimo.
Com base neste equívoco, Paulo Polzonoff Jr. alveja seus alvos prediletos: a poesia concreta, Paulo Leminski e as vanguardas de um modo geral. Não vale a pena comentar os juízos do autor, pois não se trata de análise crítica, mas de uma interminável lista de grosserias, numa monótona repetição do argumento ad hominem. James Joyce é definido como ''um irlandês metido a besta''. Em relação à poesia concreta, o autor acredita que ''a pústula da poesia concreta continua por aí, exalando pus para tudo quanto é lado''. A imagem, acredite se quiser, retorna na definição de Paulo Leminski, considerado uma ''purulenta ferida''.
É claro que se podem propor ressalvas a qualquer autor ou movimento artístico. Porém, não é aceitável que se transforme a arrogância em método, a ignorância em mérito, e que se confunda divergência intelectual com insulto pessoal.
Pelo contrário, precisamos explorar o potencial existente na perda de centralidade da literatura no mundo contemporâneo. Em outras palavras, precisamente porque os meios audiovisuais e digitais são hegemônicos, talvez seja possível exercitar um saudável espírito contra-hegemônico a partir da literatura. Mas somente poderemos fazê-lo aprimorando a perspectiva analítica e superando as inúteis ''polêmicas fraudulentas''. O ensaio de Paulo Polzonoff Jr., então, revela inesperado vigor: no fundo, ele é o atestado de óbito do estilo raivoso de exercer a crítica. Ou seja, menos do que a caracterização de um perfil, O cabotino é um involuntário auto-retrato.
O cabotino: um guia de anti-ajuda para literatos
Paulo Polzonoff Jr.
Candide, 106 páginas
R$ 24,90