Alberto Pucheu mostra propostas filosóficas e estéticas dos poetas dos anos 90
Escritos da indiscernibilidade
Alberto Pucheu
Azougue Editorial
64 páginas
R$ 18
A poesia de Alberto Pucheu segue uma trajetória muito particular nas letras brasileiras contemporâneas. Inserido na geração de poetas que começou a publicar ou a fixar suas poéticas nos anos 90, vem construindo em sua obra um universo de propostas estéticas e filosóficas coerente e dinâmico, perpassado por uma escrita de alta voltagem poética, o que lhe dá uma posição de destaque nessa produção, marcada, como é sabido, pela heterogeneidade de vozes literárias que não se organizam em escolas e por um perfil estilístico que se conforma na reciclagem atualizada de padrões estéticos da tradição, mais do que por um desejo de tangenciar os limites formais da criação inventiva.
A linhagem de poetas de língua portuguesa com a qual podemos dizer que a obra de Pucheu estabelece diálogo é a dos poetas-filósofos, uma estirpe de escritores como Raul de Leoni, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Antonio Cícero. Tais poetas problematizaram as relações entre poesia e filosofia, conceito e imagem, seja pela maior incidência da logopéia, ''a dança das idéias entre as palavras'', no dizer de Pound, seja pela realização de uma produção paralela, intencionalmente de modo não intercomunicável, como é o caso dos escritos de outro criador que se estabelece na poesia livresca também nos anos 90, Antonio Cícero.
Alberto Pucheu, ao contrário, é um habitante da fronteira. Toda sua obra floresce na tensão interdisciplinar desses dois modos de apreender e conceber realidades e mundos impalpáveis. Toda sua obra se estrutura, se distende, se contrai nessa ambiência de passista das letras que escuta simultaneamente, na mesma altura e disposição, dois gêneros musicais com pulsações e ritmos diferentes, e concebe coreografias poéticas que nascem dessa hibridação, dessa mescla, dessa interferência de saberes, sabores e vozes. Desde de seu primeiro livro, Na cidade aberta, escrito em 1993, até Escritos da indiscernibilidade, essas questões são lançadas, retomadas e renovadas, percorrendo o largo espectro de suas possibilidades especulativas, com instantâneos de indistinções absolutas e demarcações inevitáveis, de ruídos e audições cristalinas, de sujeiras e roupas quaradas ao sol.
Escritos da indiscernibilidade é um livro teórico com andadura e compleição poéticas. Com conceitos e definições que nascem de eixos de formação de linguagem (sintático, semântico e até gráfico) poéticos. Por exemplo, a idéia filosófica de um constante devir que gera a ''admiração'' e o ''espanto'', expressões que descrevem os estados primordiais em que o amigo do saber (o filósofo) e o amigo dos mitos (o filômito) se encontram ao viverem a ''miscigenação'' inevitável que os escritos de palavras-seres indiscerníveis propicia, surge como sema recorrente mas também como sinal gráfico, as reticências que abrem o livro para sugerir o moto contínuo reciclante da criação. Ou, ainda, no uso conceitual da intenção contida no ponto de exclamação, em contraponto à interrogação que se distancia do ''enigma da vida'' e do ''afeto imediato'', para definir o pensar poético: ''Pensar poeticamente é se atrever ao pré-dito do pensamento (...), permitindo-lhe se apresentar nas palavras.''
Outro procedimento em que a mecânica mágica da criação poética serve para a conformação do universo teórico, ocorre quando Pucheu renomeia os elementos do sistema de linguagem que estruturam o texto. Renomear significa encontrar novos fluxos de sentido, novo início, atravessar com nova luz o ''enigma do cosmos em seu constante movimento de criação''. Daí afirmar que não pensa com ''palavras, versos ou frases: penso somente articulações, acasos, arranjos...''; com isso, as palavras ''arranjos'', ''esbarros'', ''articulações'' etc, retomadas em toda sua obra em momentos e formas diferentes, são revitalizações miscigenantes, levando logicamente a determinações conceituais outras, da mecânica da criação poética representada e padronizada pelos tropos, figuras de linguagem e pensamento.
Ao buscar uma zona movediça de convivência interagente para uma ''poesia poética'' e uma ''filosofia filosófica'', Pucheu, amante das tensões que surgem dos paradoxos, antinomias, oxímoros, se lança na empreitada de revisitar topos da teoria literária e da cultura para, a partir disso, reafirmar uma poética que funciona sob a égide de conceitos que se esgarçam entre a essencialidade e a experimentação dos limites. Muitas visões de mundo, concepções artístico-filosóficas, pensamentos críticos da tradição ou da contemporaneidade, disponibilizados para o livre uso, diálogo ou intervenção cirúrgica criativa pela desrepressão estética pós-moderna, são, com isso, reinscritos no mundo pela obra de Pucheu.
A macroestrutura de Escritos da indiscernibilidade, composta de quatro partes que vão se desdobrando em câmara de ecos para registrar essa espécie de fotografia em movimento de um processo teórico-reflexivo de origem, desenvolvimento e incorporação poéticas, se apresenta como um desenho conceitual a um só tempo figurativo e abstrato, uma espécie de apreensão multifacetada e pulsante de uma trajetória de estabelecimento do poético no mundo, no escritor e no leitor.
Para Pucheu a questão filosófica do ser projeta-se, inevitavelmente, na linguagem. Assim como o ser é uma invenção do não-ser, a linguagem é uma invenção do silêncio. E apenas a aceitação da ''tensão conjunta dessas forças'', a ''impossibilidade de escolha entre o ser e o não-ser'', a promoção do ''silêncio à condição de linguagem'', leva à vivência inventiva na fronteira, espaço em que podemos desautomatizar o mundo e nossas vidas, privilegiando ''as implicações às explicações, a instabilidade à estabilidade'', se deixando acolher ''por uma zona de esvaziamento, por uma zona de esquecimento, para poder ser surpreendido pelo impensado que habita silenciosamente o mundo e quer nos ocupar''.