Nada se igualou, entre nós, ao que se tornou rotina no Chile e na Argentina. Pela quantidade, pela intensidade, e pela duração. E é isto que o livro de Samarone Lima nos comprova. Ele enfileira os indícios e provas factuais de que eram intrínsecos, a tais regimes, os procedimentos criminosos de eliminação física dos divergentes; de imposição do terror permanente como forma de prevenção contra qualquer resistência democrática.
O enunciado no texto reforça a convicção de que os segmentos dominantes da sociedade aceitam a democracia, desde que a manutenção do status não esteja sob ameaça concreta. E nos leva a concluir que a solidariedade, a fraternidade e o respeito pelo sentido coletivo e plural de vida são produtos do desenvolvimento de uma racionalidade sadia. Não são características obrigatoriamente inerentes ao ser humano. Mas há um detalhe a mais que essa pesquisa, rica de depoimentos e citações documentais, nos revela: a situação dramática das vítimas argentinas, para quem a solidariedade custa a chegar com a presteza e eficácia com que chegou para os chilenos. O texto não se estende sobre esse ponto, mas permite uma ilação.
No Chile, ocorreu um golpe sangrento contra uma experiência de implantação do socialismo democrático pela via institucional republicana. Experiência que era alvo de atenção e respeito da opinião pública mundial. Experiência que o governo Nixon não hesitou em se empenhar abertamente em eliminar, na medida em que colocou o seu principal secretário de Estado, Henri Kissinger, na conspiração golpista, por intermédio de financiamento ilegal de greves patronais intermináveis, e da compra, pelo suborno, de parte do aparato militar. E isto gerou um pesado ônus político para os que não puderam impedir a intervenção criminosa.
Na Argentina, não. A ilegalidade já começara antes mesmo da ascensão dos militares de Videla. Começara durante o governo de Isabelita Peron, onde o ministro de Interior, Lope Rega, verdadeiro manipulador das correias de transmissão do poder, já tratava de eliminar fisicamente os setores de esquerda do que sobrara do peronismo. A queda de Isabelita Perón, uma arrivista vulgar, à frente de um regime corrupto e mafioso, não invocava, nem de perto, a indignação mundial com o assassinato da experiência chilena.
Mas isso o grupo Clamor superou de forma definitiva, a partir da palavra de ordem cunhada por Luiz Eduardo Greenhalgh, diante de um advogado chileno que lhe tentava contestar argumentação, com citação de códigos penais nacionais: ''direitos humanos não têm fronteiras''. E foi fundamental, a partir dessa consigna, o papel essencial que o grupo passou a desempenhar na denúncia dos assassinatos de presos políticos, e na recuperação de seus filhos e netos seqüestrados.
O relato de vários episódios - como os da família Gatica, que reencontrou dois filhos depois de anos de sofrida pesquisa; ou de Lílian Celiberti e Universindo Diaz, militantes uruguaios seqüestrados em Porto Alegre pela repressão brasileira que operava em colaboração com os esbirros das repressões uruguaia, argentina e chilena, e salvos antes do previsível desaparecimento - comprova a eficiência da rapidez de ação dos obstinados do Clamor.
Mas é principalmente na retomada, de tempos em tempos, do roteiro seguido por Vicky e Anatole, e na forma como Clamor se envolve nos desdobramentos de episódios de verdadeiro suspense produzido na busca movida pela incansável avó Angela, que se estabelece a linha-mestra deste trabalho de pesquisa de Samarone Lima. Não é, repetimos, um trabalho sociológico clássico. Mas é, sem dúvida, um verdadeiro roteiro de cinema, com sentido claro e direto do melhor jornalismo objetivo. Daqueles que justificam os filmes de Costa-Gravas. E com uma vantagem depois de tantas cenas dantescas, mostradas em seus detalhes: tem um final feliz.