No fim dos anos 70, um grupo de brasileiros obstinados desafiou a a opressão política nas ditaduras do Cone Sul
Clamor: a vitória de uma conspiração brasileira
Samarone Lima
Objetiva, 272 páginas
R$ 34,90
Clamor: a vitória de uma conspiração brasileira, de Samarone Lima, é produto de uma tese de mestrado. Mas não pense que vá encontrar nele um conjunto de formulações teóricas subjetivas. Trata-se, na verdade, de um relato jornalístico dramático, envolvente e comovedor, sobre a ação de um pequeno grupo de obstinados defensores dos direitos humanos, em solidariedade aos perseguidos dos regimes ditatoriais do Cone Sul. Composto pelo pastor Jaime Wright, a jornalista inglesa Jan Rocha, e um então jovem e combativo advogado de presos políticos, Luiz Eduardo Greenhalgh, hoje presidente da Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, o grupo se organizou sob a proteção de dom Paulo Evaristo Arns, na Cúria da Arquidiocese de São Paulo, em fins dos anos 70.
A história do grupo é contada em paralelo ao desdobramento do drama de Anatole e Vicky, duas crianças de 4 e 2 anos, respectivamente, seqüestradas por uma tropa de esbirros da ditadura do general Videla, em setembro de 1976, na seqüência do assassinato de seus pais - um jovem casal uruguaio, asilado na Argentina para se proteger da ditadura já implantada no Uruguai. Desde então, os irmãos se vêem envolvidos num enredo de alta-tensão emocional.
Três anos depois de terem sido arrancados de casa e da família, se viam largados do outro lado da Cordilheira dos Andes, numa praça da cidade de Valparaíso, no Chile. Mas, por milagre, não terminaram abandonados. Trêmulos e assustados, são salvos pelo sotaque. Viram notícia de jornal. ''Crianças uruguaias são abandonadas na Praça O'Higgins''. É claro que a curiosidade gerada tem a ver com a questão: como chegaram lá? Com o hábito da repetição de indícios, foi fácil concluir que constituíram mais um capítulo da operação conjunta que os beleguins argentinos mantinham com seus parceiros de repressão nas demais ditaduras do Cone Sul.
Mas a informação de que a foto fora publicada num jornal venezuelano acaba chegando à avó uruguaia que os buscava desesperadamente desde o assassinato da filha. A partir daí, apertem o cinto. O livro - por conta do desempenho fundamental de Clamor nos desdobramentos do drama de Anatole e Vicky; e do contato patético com a família chilena que os recolhera - detalha as inúmeras façanhas arriscadas desse grupo que terminou por se especializar na investigação e na denúncia de assassinatos e desaparecimentos de militantes políticos, para além da recuperação dos filhos seqüestrados pelos próprios torturadores.
Clamor foi o nome escolhido para a organização clandestina porque correspondia a um mesmo significado, tanto em português, quanto em inglês e espanhol, idiomas fundamentais nas tarefas de contatar os perseguidos e de fazer a divulgação internacional das denúncias recebidas.
Aqui, um parêntesis, porque o livro nos convoca a uma reflexão mais profunda sobre esse inimaginável período de simultâneas ditaduras latino-americanas do passado recente. Como pôde um ser humano, a serviço desses famigerados aparatos de repressão, chegar a tal ponto de ferocidade bestial? E, pior, como tal ferocidade conseguiu encontrar sustentação política, ideológica e social?
Sim, porque eram cidadãos de classe média, personagens do senso comum, que hostilizavam as corajosas Mães e Avós da Plaza de Mayo, quando em suas marchas em círculos, silenciosas e dramáticas, para denunciar o assassinato de seus filhos, e o seqüestro de seus netos, diante da Casa Rosada, o palácio de governo onde se sentava o chefe da ditadura argentina. ''Loucas'', lhes gritavam alguns passantes. ''Se estão presos, é porque algum mal fizeram.''
O mais trágico é constatar que tal ferocidade bestial encontrava, também, cobertura ética de onde menos se podia esperar: a cúpula da Igreja Católica local. Neste ponto, revelando o teor dos textos produzidos e assinados pelos cardeais Raul Primatesta e Juan Carlos Aramburu, contra as iniciativas de dom Paulo Evaristo Arns em favor dos perseguidos argentinos, o autor nos provoca angústias. Ao contrário da Igreja Católica brasileira, onde a solidariedade era quase a regra geral na CNBB, e só uns poucos se mantinham nas boas relações com o regime autoritário, bispos solidários eram a exceção na Argentina.
Evidentemente - e nesse contexto adverso em que o senso comum, convocado pela propaganda oficial do regime, não se pejava das inscrições ''Os argentinos são direitos e são humanos'' em adesivos colados nos vidros dos carros, para contrapor a população às investigações do Conselho Interamericano dos Direitos Humanos - era impossível imaginar organizações como o Clamor se formando na Argentina. Como seria impossível aqui, no início dos anos 70, em que os plásticos de ''Brasil, ame-o ou deixe-o'' inundavam os vidros traseiros dos nossos Fuscas. Não havia onde se sustentar.
O que ocorria não era um surto de insanidade. Tratava-se do produto de uma política de Estado gerada pelo clima de Guerra Fria e pela crise de segurança que os Estados Unidos passaram a viver com a derrota no Vietnam, e a radicalização dos movimentos contestatórios do próprio regime capitalista em todo o mundo. Qualquer tentativa libertária, de cunho nacionalista, tinha que ser esmagada. E, para tanto, não seria negado apoio logístico a nenhum ditador propenso ao papel de defensor da ''sociedade ocidental cristã''. Por conta disso, com tons variados, os métodos de eliminação utilizados pela Gestapo de Hitler, ou pelos ''camisas-negras'' de Mussolini, voltaram a ser empregados de forma rotineira. No Brasil, pioneiro na seqüência dos grandes golpes, isso ficou claro, a partir da intensificação da resistência ao movimento que derrubou João Goulart, em 1964. É com o AI-5, em dezembro de 1968, que a tortura se institui como prática quotidiana de obtenção de informações. Que o desaparecimento de presos políticos se torna fato previsível.