Tristeza e solidão nas ruas de pedra

Isolados em Parati por duas semanas, três jovens escritores captam a encantadora melancolia que emana da cidade

Beatriz Resende

[02/AGO/2003]


Parati para mim
Chico Mattoso, João Paulo Cuenca e Santiago Nazarian
Planeta, 118 páginas
R$ 23

Tomem três escritores muito jovens e isolem os rapazes do mundo, sem sexo nem rock & roll, numa cidadezinha de 336 anos. Deixem os criadores cozinhar no molho da solidão enquanto agüentarem. Retirem os ossos, guardem o molho. Está pronta a iguaria a ser servida durante a Festa Literária Internacional de Parati.

A idéia dos editores da Planeta - publicar em livro três narrativas criadas por escritores de menos de 30 anos especialmente para este fim - parecia bastante boa. Pronto o belo e sofisticado volumezinho de capa dura, a idéia revelou-se mesmo excelente.

Parati é uma cidade bonita e melancólica. As pedras, nas ruas e em muitas paredes, exsudam melancolia. Mas é justamente em ser uma pequena cidade saturnina que está grande parte de seu encanto. Se tomarmos como referência o encantador centro histórico, temos um espaço pequeno, poucas ruas, e mesmo assim nos perdemos por elas. Já passamos por aqui? Será neste canto que está nosso hotel, ou mais adiante?

Ora, fazer com que nos percamos em suas ruas é um dos maiores dotes de uma cidade, dá vontade de voltar, continuar investigando a sedução de sua geografia. ''Perder-se numa cidade, como as pessoas se perdem numa floresta, exige prática'', dizia Walter Benjamin. As ruas que resistiram estreitas, quase fechadas, vão dar num exuberante mar aberto, sombra e luz. Restaurantes sofisticados a pequena distância de aldeias indígenas. Praias, montanhas, trilhas, mergulhos, tudo à volta dos bares onde a melhor pinga é servida. Cidade muito especial num país que tem como capital Brasília, o ícone modernista sem esquinas.

Da alma de Parati, o que mais parece ter contagiado os três autores de Parati para mim parece ter sido o espírito de Saturno. Tomo este saturnismo no sentido que lhe dá Susan Sontag em Sob o signo de Saturno, especialmente quando fala de Elias Canetti e de Walter Benjamin, ''herói saturnino da moderna cultura, com suas ruínas, suas visões provocadoras, seus devaneios, sua tristeza irremediável, seus olhos baixos''. São dois os elementos motivadores desse sentimento apontados por Sontag que identifico em todas as três narrativas: a solidão - ''a necessidade de estar só [neste caso a solidão imposta], assim como a amargura da solidão, é característica do melancólico'' - e o espaço, a topografia peculiar da cidade, com passagens, becos, ruas de mão única, que se impõe, predomina sobre o tempo que parece suspenso, ''no tempo somos apenas o que somos; o que sempre fomos. No espaço podemos ser outra pessoa''. Vejamos porquê.

O primeiro conto é de Chico Mattoso, que tem 25 anos e mora em São Paulo: ''Emílio''. Sentado na rodoviária da cidade cartão-postal que visitava pela primeira vez, com uma bola na boca do estômago, Émilio vê os urubus e lembra de Marcinha, que o abandonara, esticando o braço para um táxi e deixando-o na cama como um ''pacote velho em que um mendigo procura restos aproveitáveis''. Carregando esta sensação miserável, o personagem anda pelas ruas, cruza com o homem de barbas brancas e tatuagem no braço, cobiça os peitos da garçonete gordinha, toma cerveja acompanhado apenas por um vira-latas perdido, no boteco tomado pelo silêncio: ''a tarde caiu mole, triste como uma doença. Atrás dos morros era possível ver a noite que chegava''. O escuro vai tornando o espaço irreal, a imagem de Marcinha o persegue, sua risada pode ser ouvida em qualquer lugar. No belo final do conto, a topografia da cidade domina tudo: ''é como se a cidade se erguesse, lentamente, e fosse se desprender da terra''. Encantamentos de Parati.

João Paulo Cuenca, carioca de 24 anos, é o autor de ''A carta de pedra''. No conto não aparecem traços do guitarrista malcomportado ou do editor de blogs, como o escritor às vezes se apresenta. Desta vez foi uma Teresa quem abandonou o igualmente solitário personagem que vaga pela cidade onde ''A água sobe pelas ruas, se enfia entre as pedras que nunca se encaixam, irregulares, surge e lava os sonhos da calçada, assusta os gringos de pernas brancas e máquinas fotográficas...''. Foi depois de receber uma carta psicografada, enviada de Parati, que Teresa começou a se afastar. Este é um mistério que precisa ser elucidado e o faz andar em círculos pelas ruas sem indicação de nome. Então, os limites entre delírio, lembranças de experiências vividas ou imaginadas, acordar, sonhar ou se embriagar, ficam cada vez mais tênues enquanto tateia as esquinas procurando o caminho das cartas de Teresa.

O último conto é de Santiago Nazarian, paulista de 26 anos, que acaba de receber prêmio da Fundação Conrado Wessel por seu romance de estréia, Olívio. ''A mulher barbada'' é uma experiência radical de escrita literária. Radical pela eliminação de tudo que não seja exclusivamente linguagem ou recursos literários da narrativa.

Lusiânia é a mulher que, fechada num quarto, sozinha, espera. Tudo no conto é ausência, é falta, é perda, é escassez. O companheiro distante sequer lembra seu verdadeiro nome, desde que lhe inventou um. Foi seu homem quem a contaminou de algo que a destrói, a enfraquece e apaga. Mas a mulher (barbada?) não o culpa, pede, ao contrário, desculpas por dispersá-lo de sua tarefa maior, a criação literária. Paulo Roberto, o homem que a faz esperar ali fechada, está fora, se bronzeia, tem outras mulheres, se esquenta. A mulher, agorafóbica, perde as cores, as formas, a fertilidade, a fome; ''por que deixar esta carcaça vazia ocupando um quarto de hotel? Por que deixar meu fantasma sozinho vagando pela pousada? Por que me deixar afogar em meus próprios pensamentos, em meu tédio, minha melancolia?''

Que a associação de idéias não suba à cabeça do autor, mas o procedimento criativo do conto me lembra os recursos do João Cabral de ''Cão sem plumas''. A narrativa vai se construindo à medida que vai recusando tudo o que usualmente compõe um texto: cenário, enredo, marca temporal, recursos imagéticos, metáforas. As frases encurtam, as repetições ocorrem, enquanto a mulher espera. Até que se cansa: ''abri a janela para o sol me cegar''. Reduzida a nada, ou quase, a mulher sai e escreve sua história, ''só quero escrever minha história, minha própria''. Do mínimo, do quase nada que restou depois de perder sangue, peso, feminilidade, amor, sai, ao final, a escrita, a ficção.

Terminado o conto, ficou-me um gosto travado, mas muito forte, de ter saboreado esse fruto incomum que é o literário em estado puro.

Volto aqui à felicidade da iniciativa. Ao aceitar a proposta dos editores, os três tristes autores condenaram-se à suspensão temporal da realidade que os cerca no duro cotidiano das grandes cidades globais do século 21. Numa talvez desesperante solidão, tomados pelos fantasmas da cidade estranha, desterritorializados, claustrofóbicos, sufocados pelo ar puro, inseguros no espaço sem violências, os autores viram-se distantes das contingências do dia a dia que, inevitavelmente, invadem nossa ficção. Tal descontaminação terminou proporcionando uma experiência que talvez não fosse possível em outro tempo ou outro lugar. Pode, talvez, valer como forma de avaliarmos até que ponto - como acontece com o pretenso escritor de ''A mulher barbada'', que busca nas experiências vividas sua inspiração - a realidade que nos circunda pode ser excessiva, nefasta, em vez de inspiradora, se a ficção não domá-la.

Diante do sucesso do resultado final, fico até apreensiva. Para os três autores, pela extrema juventude, ainda há muito, mas muito, caminho a percorrer. Espero que o bom êxito seja recebido com alguma dose de desconfiança e alto teor de modéstia.

Como não estou em Parati, mas neste Rio de Janeiro onde o cotidiano violento invade agressivamente nossas próprias páginas ou telas e onde as ações dos governantes do mundo do crime parecem sobrepor-se às dos governantes da ordem, não posso evitar lembrança prosaica, pouco literária, das circunstâncias da morte de Marcinho VP. Não façam como os responsáveis por nossa segurança, prestem atenção às palavras do telegrama enviado ao traficante: nada de aparecer demais. Se as previsões que Parati para mim anunciam continuarem se concretizando, a literatura brasileira terá encontrado três escritores de importância. Vale a pena esperar com prudência.

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