Edição peca na transcrição

Se é desejável que as obras de Vieira sejam editadas diferentemente, no Brasil e em Portugal, com suas especificidades de interesse, e se é certo que as cartas de Vieira necessitavam de um reenquadramento que enfocasse a temática relativa aos Estados do Brasil e do Maranhão e Grão-Pará, não me parece que isso seja conseguido copiando-se textos e notas que o editor português julgou relevantes nos anos 20 do século passado.

Basta tomarmos a carta ''Esperanças de Portugal'' para verificarmos o desacerto de tal concepção. Em primeiro lugar, ela foi recentemente publicada em edição póstuma por José van den Besselaar, em Antônio Vieira: profecia e polêmica (EdUerj). A edição da carta feita por Lúcio de Azevedo não mais se sustentava em 1985, quando Besselaar se lançou à tarefa de reeditá-la, questionando leituras e notas propostas pelo português. Como justificar, então, que seu texto seja reproduzido, ipsis litteris, em 2003? De que servirá para estudos, ou mesmo para curiosos?

Em segundo lugar, a cópia irrefletida provoca incongruências lamentáveis. Na mesma carta, à página 216, reproduz-se a nota com a qual Azevedo justifica a manutenção da palavra ''tribo'' no masculino em sua transcrição: ''Os dez tribus, no original, e assim sempre, porque a palavra só no português moderno trocou o gênero.'' No texto que lemos, porém, consta ''as dez tribos'', e assim sempre, porque o revisor cumpriu sua tarefa de modernizar a grafia, sem confrontá-la com o sentido do que estava escrito.

Editar as Cartas do Brasil do padre António Vieira é excelente. Mas para que o texto seja compatível com os comentários que suscita é preciso haver uma concepção editorial mais respeitosa para com os estudiosos, os estudantes e o público em geral.

[12/JUL/2003]

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