Há dois anos, o presidente Eisenhower concebeu um plano a partir de uma idéia que era muito boa em seu princípio. A idéia era que as condições de vida no mundo, o dilema universal da humanidade, nesse momento, são o que são porque simplesmente os homens e as mulheres de diferentes raças, línguas e condições sociais não podem discutir uns com os outros, como indivíduos, problemas que são a princípio os seus, podendo fazê-lo apenas por governos que são antagônicos e aparentemente irreconciliáveis.
Isso quer dizer que as pessoas, como indivíduos, em todos os ramos da vida, deveriam ter a possibilidade de falar aos indivíduos estrangeiros correspondentes a eles, em toda a terra; de operário a operário, de estudioso a estudioso, de médicos, homens-da-lei, comerciantes, banqueiros, artistas, a indivíduos que estivessem diante deles e exercessem as mesmas profissões, e isso em toda parte.
A idéia era boa. Certamente nenhum artista - pintor, músico, escultor, arquiteto, escritor - levantar-se-á contra ela, pois tentar comunicar-se de homem a homem, sem levar em conta a raça, a cor ou a condição, é exatamente o que todo artista tentou fazer durante toda a vida e continuará a fazer enquanto respirar.
Mas o que condena essa idéia, a meu ver, está contido na própria fraseologia do conceito do presidente: de operário a operário, de artista a artista, de banqueiro a banqueiro, de magnata a magnata. O que a meu ver depõe contra essa idéia é um mal inerente a nossa própria civilização; um mal inerente (e talvez necessário, embora, na minha opinião, não ache que o seja) à civilização de todos os países capazes de suportá-lo e de sobreviver durante este período da história.
É a crença mística (quase uma religião) de que o homem, como indivíduo, não pode falar ao homem como indivíduo, porque o homem como indivíduo não existe mais. A crença de que já não há em parte alguma a possibilidade, para o indivíduo, de falar tranqüilamente a um outro indivíduo sobre honestidade para consigo mesmo, sobre responsabilidade diante dos outros, sobre proteção dos fracos, sobre compaixão e piedade para com todos, porque já não existem essas coisas tão individuais como a honestidade, a piedade e a compaixão, e porque o próprio homem já não pode esperar sobreviver senão renegando sua individualidade e entregando-a a um grupo de pessoas da sua espécie arregimentadas numa facção qualquer, em batalha contra um outro grupo arregimentado numa outra facção formada aleatoriamente, ambas ocupando simultaneamente o espaço com as mesmas abstrações: democracia popular, direitos das minorias, justiça igual para todos, bem-estar social - todas as palavras sinônimas que subtraem à irresponsabilidade toda vergonha, não apenas convidando, mas forçando todo mundo a arregimentar-se.
Assim, no caso presente, e refiro-me aos Comitês ''de homem a homem'' do presidente, e também ao artista, que passou a vida simplesmente tentando fazer com que se conheçam, de homem a homem, os problemas e as paixões do coração humano e o modo de vencê-los, ou quando muito de suportá-los, o presidente de seu país pede para afirmar esse ''mito'', que ele negou a vida toda: o mito de que um indivíduo sozinho não é nada, e que ele só pode ter peso e substância unindo-se a um grupo anônimo organizado, ao qual entrega sua personalidade, sua alma, em troca de uma inscrição.
Seria bastante triste se, em momentos como este (refiro-me ao reconhecimento oficial pelo seu país do valor de sua dedicação durante a vida), o artista, de cabeça baixa, tivesse de se lançar naquilo que quase se poderia chamar de vontade universal de se arregimentar, a vontade universal de aniquilar a individualidade do homem - mesmo se isso pudesse aliviar, não somente sua responsabilidade moral, mas até mesmo o sofrimento físico e os riscos de morte - sufocando sua individualidade em qualquer uma (tanto faz qual, uma vez que ele tiver se fundido numa delas) dessas associações econômicas que oficialmente se reconhecem agrupadas por profissões, ramos do comércio, ocupações, pelo importância dos lucros ou, na falta de outra coisa, por listas de inscritos no anuário de uma sociedade financeira. Sua tragédia, hoje, é que, para continuar sendo um artista, ele tem de combater essa pressão, sacrificar uma parte de sua pequena e miserável, embora (se for um artista) preciosa, força individual, para combater a vontade universal de sufocar a personalidade própria. É isso que me conduz, no fim das contas, a essa idéia que quero expor-lhes, esse é para mim o único problema que hoje se coloca para todos os jovens escritores.
Penso talvez que todos os escritores, enquanto estão ''aquecidos'', enquanto escrevem a todo vapor para dizer tudo o que precisam urgentemente dizer, não lêem os escritores mais jovens, os que vêm depois deles, talvez pela mesma razão por que o maratonista ou o velocista não tem tempo de interessar-se por aqueles que estão atrás dele, ou lado a lado com ele, mas apenas pelos que estão à sua frente. Isso acontece comigo sob todos os aspectos, de modo que há um ''buraco'' de aproximadamente 25 anos durante os quais não conheci quase nada da literatura contemporânea.
Assim, quando, há pouco tempo, comecei a ler o que se escrevia no momento, não manifestei apenas minha ignorância, mas também uma espécie de inocência, de frescor, o que vocês podem chamar de um ponto de vista e um interesse virgens de todo preconceito. Entretanto, do primeiro romance que li, tive uma impressão que desde então se repetiu tão constantemente que apresentarei minha avaliação de um modo geral. Ela consiste no seguinte: por causa do estado atual de nossa cultura - que tentei descrever - o jovem escritor de hoje é forçado a trabalhar numa espécie de atmosfera desprovida de qualquer humanidade. Seus personagens não agem, não vivem, não respiram, não lutam nesse tumulto, em meio aos trabalhos penosos da simples humanidade, como faziam os personagens de nossos predecessores, com os quais aprendemos o nosso ofício: Dickens, Fielding, Thackeray, Conrad, Twain, Smoolett, Hawthorne, Melville, James.
É toda uma legião daqueles que criaram personagens que nem bem acabaram de desmamar e já lançavam sua semente no tumulto fervilhante dos simples seres humanos, cuja existência mesma era a afirmação de um otimismo incurável, indomável - dos homens e mulheres como eles próprios, inteligíveis, compreensíveis, mesmo quando eram antipáticos, mesmo no momento exato em que assassinavam, roubavam ou traíam, pois tinham os mesmos desejos violentos, embora simples e humanos, as mesmas esperanças, os mesmos temores, que não eram complicados pela arregimentação ou a obrigação de agrupar-se; tumulto, agitação da humanidade no qual eles podiam aventurar-se não apenas sem terror, e certos de serem bem acolhidos, mas também com prazer, e sem serem ameaçados por um perigo, pois o pior que lhes podia acontecer era um calo na testa provocado por uma outra cabeça humana, um cotovelo ou um joelho esfolados, mas, também nesse caso, por um outro cotovelo ou um joelho humano -, um ardor de humanidade que aceitava, acreditava e agia segundo princípios morais, e não segundo pontos de vista pessoais; em que a verdade não se achava lá onde você estivesse quando a olhasse, mas era uma qualidade inalterável, uma coisa que podia efetivamente fazê-lo estourar os miolos se não a aceitasse, ou ao menos se não a respeitasse.
Hoje, porém, os personagens do jovem escritor não agem como indivíduos, mas isoladamente, não perseguem, em companhia de muitos outros, as angústias, as esperanças de todos os corações humanos num mundo de algumas verdades e de princípios morais simples e compreensíveis, mas ele existe num vazio, com fatos que não escolheu, os quais não pode controlar, e dos quais não pode fugir, como uma mosca num copo virado de cabeça para baixo.
Permitam-me repetir o seguinte: não li todas as obras da atual geração de escritores: ainda não tive tempo. Portanto só posso falar das que conheço. Penso, no momento, em O apanhador no campo de centeio, de Salinger, obra que julgo ser a melhor, talvez por exprimir de modo bastante completo o que tentei dizer: um jovem, pai daquele que será, que um dia deverá ser um homem, mais inteligente que alguns e mais sensível que a maioria e que (ele não diria nem mesmo que ''por instinto'' pois não sabia que isso estava nele), talvez porque Deus o tenha colocado lá, amava os homens e queria fazer parte da humanidade, mas fracassou.
Para mim, não que ele não fosse, como talvez pensava, suficientemente duro, corajoso ou meritório para ser aceito na espécie humana. Sua tragédia se deveu ao fato de que, quando tentou entrar na raça humana, não havia mais raça humana. Ele nada podia fazer senão, enlouquecido e intacto, debater-se no interior das paredes de vidro de seu copo até desistir e ser destruído por si mesmo, por seu zumbido enlouquecido. A gente pensa imediatamente em Huck Finn, um outro jovem, que já é pai daquele que será um dia, em breve, um homem. Mas no caso de Huck, a única coisa contra a qual tem que lutar é sua pequena estatura, da qual o tempo o curará; com o tempo ele se tornará tão grande e corpulento como qualquer homem que tiver de enfrentar e, mesmo assim, tudo o que o mundo adulto poderá fazer-lhe de mal é esfolar-lhe um pouco o nariz: a humanidade, a espécie humana já o aceita, tudo o que ele tem a fazer é crescer em meio aos homens.
Eis aí, tal como o vejo, o problema do jovem escritor. Não é unicamente o seu, é também o nosso; todo o problema consiste em impedir que alguém sacrifique sua alma à humanidade, assim como se castra o garanhão, o javali e o touro; salvar o indivíduo do anonimato antes que seja tarde e toda humanidade tenha desaparecido do animal que se chama homem. E quem melhor para salvar o que há de humano no homem do que o escritor, o poeta, o artista, pois quem mais do que ele deve temer a perda dessa humanidade, já que a humanidade do homem é o sangue da vida do artista?
(Palestra proferida em 24 de abril de 1958)